do que não se pode ser visto com os olhos - marilaine lopes


A mulher porão se olha no espelho quebrado. Por que não se vê? Investigou durante o dia inteiro os significados das palavras sehen e ansehen em busca de descobrir quais as diferenças entre elas. Nada conseguiu. O dicionário é inútil, quando as palavras de longe se mostram em outras cintilâncias, fora das costumeiras.

Queria que todas as palavras coubessem na palma da mão. Por ora a noite é pausa. Foi-se o dia pesado em pesquisas minuciosas.

fragmentos do mau gosto. ocasos. estrelas cadentes. palavras pesadas. maus julgamentos. as coisas no ponto. palavras espessas. números. o desejo é azul sem fim. colher olhares de pássaros. silêncio de palavras mortas. uma criança mesquinha brincando sozinha com seu brinquedo imaginário. nossa cegueira diária. pequenos desejos filhotes do azul. nunca consegui escrever uma história de peixes.

Por que passada a hora nada mais importa? Sussurra por falta de força de dizer. O ar, além de suas coisas invisíveis habituais, parece contaminado. Quem contaminou o ar? Franz, Francis, Francisco. François. Muito tempo empregado em uma única investigação implica em ir até o fundo do fundo e depois não mais voltar. Quando amanhecesse o dia, pensaria em algo leve. Algo que não lhe exigisse nem cegueira nem mudez.

Horas e horas olhando para o rosto do menino. Porque o sorriso dele abriu alguma coisa nela. Ele lhe disse um nome complicado de doença de olhos e disse “vou ficar cego aos poucos” e ela pensou como será o sorriso dele de cego. Será como se de repente se iluminasse? Talvez seu rosto se deforme. Murche. La desintegración. Não será nem feio nem triste. Será apenas movimento. Como um fim de um começo que ninguém sabe de onde veio.
Ela ficou com medo da maneira canibal com a qual os acadêmicos se aproximaram da escritora.

Querem lhe roubar a respiração? Ou é só tanto amor?

Ela prefere o silêncio branco – mesmo que ele seja, por enquanto, mais busca do que chegada – a esses ruídos de ansiedade e orgulho.

Quem habita essa solidão? Quem escreveu nas paredes brancas da velha casa?

ir descendo a rua catando restos de desejos. ausência do morfema zero. a mulher chorava com muitas lágrimas. por que existem os dias e existem as noites?. as preposições são passagens. você comeu o amor?. existem as cores. eu me abriguei no amor dos dois meninos e fui. a verdade do olhar só pode ser essa luz e esse verde de jardim.

Hoje acordamos mais simples. O amor nos visitou. A cabeça de Walter era um jardim. Ela o descobriu ao olhar bem dentro de seus olhos. Nunca mais se veriam, mas teve tempo de perceber tudo.

Sangra palavras. Por que ninguém a leva para o banho? Aquele banco de praça foi encontro de cinzas: a menina, a mulher, seu homem, a jovem e seu namorado. O homem todo de preto beija a jovem de saia florida. Parece que se escondem ao fecharem os olhos para beijar. Parecem dois clandestinos. Parecem desabrigados. Aquelas pessoas não iriam para lugar nenhum depois.

Ela sangra. Por que ninguém a vem buscar para o banho? Quem habita a solidão da velha casa?

Quem escreveu em suas paredes brancas aquelas palavras?

o negro da noite é feito de azuis. som de silêncio e chuva. a verdade das coisas pequenas. meus olhos ficaram nus. não dê, para P., melancolias. um não invisível atravessa a frase. olvidar-esquecimento. Franz não viu.

Sangra. O espelho caiu no chão. Quebrou-se em menores pedaços. Ela chora, pois agora, nunca mais conseguirá juntar os pedaços de seu rosto. Os vaga-lumes em sua pele não param de luzir. Vai pedir ao pai que derrube a velha casa, pois é de lá que vêm os sons de passarinhos mortos. Ela quer se banhar, pois amanhã precisa estar pura. Ela queria que as palavras fossem poucas de caberem na palma da mão. Por ora a noite é pausa. Foi-se o dia pesado em pesquisas minuciosas.

Marilaine Lopes é mestranda em Teoria da Literatura pela Faculdade de Letras da UFMG.

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