fitzgerald: o narrador do jazz e retratista de uma boêmia perdida - bruno paes
Nascido em 24 de setembro de 1896, Francis Scott Key Fitzgerald surgiu no berço de uma família em princípio afortunada. Seus pais conseguiram uma boa condição de vida durante a primeira parte de sua infância, devida em grande parte ao sucesso de sua mãe Mary (Mollie) McQuillan como comerciante, e mais tarde com uma boa herança que recebeu de sua família. Seu pai tentou sem sucesso ser um marceneiro de peças finas, e depois tentou ser vendedor da Procter & Gamble em New York, mas foi demitido. A família mudou-se em 1908 para uma casa em St. Paul, Minessota, sobrevivendo com a herança que a mãe recebia. Entre 1911 e 1913, Fitzgerald integrou a Newman School, uma escola católica, onde ele começou a escrever suas primeiras histórias incentivado pelo Pastor Sigourney Fey. Logo após, em 1917, Fitzgerald entra para a turma de Princeton, deixando à parte o estudo convencional para se dedicar a seus estudos literários. Começou a escrever os roteiros para as peças musicais da Princeton Triangle Club, e contribuiu também com jornais humorísticos da faculdade, como o Princeton Tiger e o suplemento literário Nassau Literary Magazine. Em 1917, Fitzgerald larga a faculdade e se alista no exército no Camp Sheridan perto do Alabama. Lá, Scott se apaixona por Zelda Sayre, filha mais nova do juiz da suprema corte da cidade. Com o fim da guerra, antes de ser enviado para além-mar, Fitzgerald é dispensado e procura a fortuna em New York; intensifica o trabalho com seu romance, esperando alcançar um rápido sucesso para poder se casar o mais rápido possível com Zelda, mas ela não espera esse suposto sucesso e termina o relacionamento.
Em 1919, Fitzgerald retorna para St. Paul e começa a reescrever o seu romance Deste lado do paraíso, sendo finalmente aceito pela editora Maxwell Perkins. Fitzgerald transforma seu romance numa biografia, ou até mesmo numa forma de exorcizar os fantasmas que enfrentava naquele momento. Apelidado de um “romance em busca de respostas”, o texto explora as desilusões amorosas, a questão da formação acadêmica, a questão da moral e as novas experiências dos jovens estudantes da faculdade. Contempla também a importância de um nome de peso para uma burguesia de aparência, que acaba por permear a maioria de seus futuros contos. Todas essas questões acabaram por chamar a atenção para aquele jovem escritor que, com vinte quatro anos (idade que tinha quando lançou o livro), conseguiu expressar de forma tão contundente o cenário da juventude que vivia naquela década de vinte: toda a situação do pós-guerra, as perspectivas de uma juventude que quebrava os padrões de comportamento da época. O editor comprou os direitos do livro e Fitzgerald conseguiria assim, com a publicação de Deste lado do paraíso em 1920, dinheiro para se casar com Zelda.
Mas antes do sucesso de público com o seu primeiro romance, em 1919 Fitzgerald começa a escrever contos para revistas de grande circulação. Deixando de lado seus romances, começou a escrever contos de apelo popular que lhe renderam uma pequena fortuna, que acabou sendo gasta mais tarde em festas e excentricidades dele e de sua mulher Zelda.
Esse comportamento inconseqüente e juvenil foi um dos pontos que levaram os Fitzgerald à destruição financeira e psicológica. Não querendo deixar a vida de playboy que havia conquistado, torna-se presença garantida nas festas e recepções da alta sociedade americana.
Após o verão de 1920, Os Fitzgerald mudam-se para Nova York, onde ele trabalha no seu segundo romance, The beautiful and the damned. Com a gravidez de Zelda, eles fazem a sua primeira viagem à Europa em 1921. Retornam a St. Paul, onde nasce, em outubro, Frances Scott Fitzgerald, sua única filha.
Em 1922 a família se muda novamente, agora para Long Island, visando estar mais perto da Broadway. Scott buscava agora escrever peças e tentar a vida também como roteirista de musicais, algo que já havia feito na sua época de estudante.
Scott não consegue o sucesso que esperava no teatro com a sua peça “The vegetables” e também com esquetes satíricos como “O político e o carteiro”. Outro agravante são as distrações noturnas de Long Island, que serviram para aumentar o consumo de álcool de Scott, intensificando o seu alcoolismo. Apesar do problema com a bebida, Scott somente escrevia sóbrio. Essa crise acabou por atrasar também os seus trabalhos em seu terceiro romance.
Outro fato importante é que Fitzgerald começou a entrar num ritmo de trabalho frenético, para conseguir entregar os capítulos de seus romances e contos nos prazos estabelecidos pelos editores, e também para manter o nível de vida. Alguns que criticavam Fitzgerald, baseados em seu alcoolismo e excentricidades, como um escritor irresponsável, acabaram por esquecer como a prosa do escritor acabava por mostrar os cenários daquela década, e também como outros escritores considerados revolucionários para a época conseguiam traduzir as discussões morais que não eram buscadas pelos jovens apenas nos textos clandestinos e em reuniões secretas; eram questionamentos que estavam sendo discutidos nas casas de cada um, como o choque de gerações e uma nova interpretação do que seria o estado moral da sociedade norte-americana.
Após inúmeras crises e críticas por causa do estilo de vida que levava, os Fitzgerald ingressaram numa viagem mais longa à Europa em busca de sossego. Em 1924 chegam à Paris.
Neste período, um dos livros mais famosos de Fitzgerald foi criado, The great Gatsby, e uma crise amorosa também faz parte do novo cenário. Zelda começa um relacionamento amoroso com um aviador francês, o que acaba por desestruturar mais uma vez Scott. O término desse relacionamento até hoje é obscuro, e também marca o inicio das crises psicóticas de Zelda, que a levaria futuramente a diversas internações em clínicas européias e também a mais um desgaste a Scott.
Nessa viagem a Paris, Scott encontrou outros escritores americanos “ex-patriados”, como Hemingway , Gertrude Stein e Sherwood Anderson, assim como também fez contatos com outros intelectuais e escritores europeus.
Os Fitzgerald passaram o verão e o inverno de 1924-1925 em Roma, onde a revisão de The great Gatsby foi concluída e o livro publicado, em abril. Esta obra mostra uma grande evolução na estrutura narrativa de Fitzgerald, sobretudo na forma expositiva através da narração do personagem Nick, pois não sabemos se o que ele narra é de fato verdade ou apenas o que ele quer que o leitor saiba: a busca do personagem que dá título a obra por alcançar o “maravilhoso sonho americano”. O livro foi aclamado pela crítica, mas o público não conseguiu acompanhar esse mesmo entusiasmo. O livro acabou sendo adaptado para o teatro e o cinema, o que gerou algum lucro.
Os Fitzgerald permaneceram na França até 1926. A aproximação com Hemingway ajudou muito Scott, já que era um fã incondicional de seu trabalho e personalidade. Paris é uma parte importante na formação e também nas demais conseqüências na vida de Scott. Em sua estadia ele pode reforçar os laços com Hemingway, entrar em contato com outras mentes européias como Joyce, Drieu La Rochelle, Picasso, Ezra Pound, entre outros. As reuniões desses artistas davam-se na livraria “Shakespeare & company”, de Sylvia Beach, pessoa importante no elo desses artistas. Através de sua livraria e de seu empenho em divulgar a literatura, Sylvia conseguiu aglutinar grandes pensadores, e desse intercâmbio entre escritores muitas obras importantes foram criadas. Muitos dos romances e contos de Fitzgerald foram criados neste período de “reciclagem” literária. Mesmo assim Scott retornou aos Estados Unidos, querendo fugir um pouco do frenesi que eram aqueles dias em Paris. No verão de 1927, mudaram-se para Delaware, após um curto período em Hollywood, sem sucesso.
Após um retorno a Paris em 1928, Scott não conseguiu evoluir em seu novo romance. Neste período Zelda começa aulas de ballet, no intuito de tornar-se uma professora, mas com seus treinos constantes acabou por agravar o seu estado de saúde, contribuindo ainda mais com as crises do casal. Em 1930 Zelda teve o seu primeiro ataque, ficando internada em 1931 em Prangins, uma clínica na Suíça. Nesse período, Scott ficou em um hotel suíço e trabalhava constantemente em seus contos para conseguir suprir os novos gastos, deixando de lado o seu romance.
A vida de romancista não conseguia suprir os gastos da família. Tanto nos excessos e excentricidades, quanto, agora, na situação caótica em que se encontravam: a mulher está internada e a filha é mandada para tutores europeus a fim de completar seus estudos.
Sustentar o hospital e o ensino acabou por consumir ainda mais Fitzgerald em seu trabalho.
Em 1931, o casal volta para a casa da família em Montgomery. Scott tenta por uma segunda vez, e sem sucesso, carreira em Hollywood, enquanto o estado de Zelda se agrava cada vez mais. Ela ingressa no hospital John Hopkins em 1932, permanecendo internada até o fim da sua vida em vários sanatórios. Acabou, internada, escrevendo sua autobiografia, intitulada Save me the Waltz, na qual expõe toda a amargura e angústia de sua vida de casada.
Fitzgerald consegue terminar o seu quarto romance, Tender is the night, sua obra mais ambiciosa mas que também não conseguiu a consideração que o autor acreditava que teria.
O período de 1936-1937 foi crítico na sua vida. Doente, alcoólatra e endividado, sem conseguir escrever mesmo as histórias populares de sempre, começa a viver em vários apartamentos aos redores de Asheville, na Carolina do Norte.
Em 1937, Scott finalmente vai para Hollywood com um contrato de seis meses com a MGM, ganhando mil dólares por semana. Conseguiu um pequeno crédito em Three Camrades (1938), o que aumentou o seu salário para U$1.250 por semana. Chegou a ganhar U$91.000 enquanto trabalhava para a MGM, fato que acabou por ajudar bastante a Fitzgerald no período da grande depressão econômica. Conseguiu quitar a maioria de suas dívidas.
Após ser dispensado pela MGM em 1938, Scott começa a escrever como free-lance para revistas como a Esquire e também em uma novela para Hollywood, intitulada The love of the last Tycoon, que não foi terminada devido ao enfarte seguido de morte de Fitzgerald.
Francis Scott Fitzgerald morreu acreditando ter sido, ele próprio, uma fraude. Após inúmeros fracassos em vida, mesmo tendo experimentado regalias que acabaram por torná-lo um exemplo vivo de todos os personagens que ele descrevia em seus romances e contos, não conseguiu o destaque que ele pensava merecer. Mesmo conquistando em alguns momentos a crítica e com alguns pontos fortes em seus romances, Fitzgerald não conseguiu se satisfazer literariamente como romancista, permanecendo em sua época como um escritor obscuro e mais conhecido pelos seus contos.
Hoje em dia, a obra de Fitzgerald é reverenciada e estudada em várias partes do mundo. Visto como um retratista de uma época que ficou marcada no início do século, denominado como o escritor da era do jazz. Também pela grande produção de contos e roteiros de teatro que hoje são estudados por diversos teóricos da literatura. Fitzgerald conseguiu, ainda que após sua morte, seu lugar no seleto grupo dos grandes escritores norte-americanos.
O retrato de uma época: A geração perdida
O mundo que Fitzgerald retratou é o mesmo que ele via do lado de fora de sua janela. Todas as questões e discussões que abalavam e inquietavam o seu espírito eram as mesmas que se passavam nas mentes e nos corações inquietos dos jovens americanos.
Uma sociedade fechada, de aparência, onde a figura da mulher era recriminada e castrada por um véu do costume e da moral que regia a sociedade americana do início do século. A mulher casta que deve se preservar até o dia do casamento, reprimindo o seu desejo sexual, sendo apenas subserviente às figuras masculinas do pai, quando jovem, e do marido, na vida adulta.
O período pós-primeira guerra mundial acaba por aumentar o poder de consumo da sociedade americana: houve um aumento da produção de bens de consumo. Comprava-se de tudo e todos os desejos dessa nova classe consumidora eram saciados, em todos os sentidos. As propagandas publicitárias começaram a explorar esse novo filão, com imagens que ilustravam o convívio feliz entre família e produtos.
As conseqüências dessa prosperidade econômica não foram vistos apenas no consumo de bens materiais, pois outras coisas podiam ser conseguidas com o dinheiro. Houve um grande aumento do consumo literário, em busca de boas maneiras e conhecimentos de ordem geral, para que as pessoas pudessem se apresentar de uma maneira mais “interessante” em festas e recepções sociais. O culto ao dinheiro cresceu, a padronização do estilo também. Roupas, adereços, comportamento, revistas de moda, entre outros. Tudo prezava em exemplificar um padrão de distinção para homens e mulheres.
Outro costume que acabou sofrendo um aumento foram as viagens ao exterior da família americana, e isso acabou por abrir as portas de uma nova forma de pensamento e de novas tendências que começavam a surgir na Europa.
Na literatura, os escritores começavam a contestar essa postura consumista, considerando-a alienante. Uma crítica à decadente cultura americana, baseada na literatura vitoriana do século 19, distante do cenário daquela nova sociedade que surgia e da temática intimista do povo do interior americano, como retratado por William Faulkner e Sherwood Anderson na maioria de seus romances.
Alguns autores como Ernest Hemingway, Gertrude Stein, Scott Fitzgerald, Sherwood Anderson, John dos Passos, dentre outros escritores americanos, mudam-se para Paris, formando o que seria depois descrito por Hemingway e Stein como a “geração perdida” da literatura americana.; o que acabou não sendo um movimento, mas a descrição daqueles escritores que procuravam uma novas forma e temática na literatura, uma nova proposta para novos valores. Questões estéticas, morais e sexuais. Escritoras como Gertrude Stein, que começaram a divulgar uma literatura onde personagens homossexuais não eram tratados de maneira caricata e preconceituosa. Lutando pelos direitos feministas e também desse estilo de vida, Stein retratava de forma impressionista e um tanto quanto melancólica as desilusões e pressões por lutar pela autonomia da mulher e de suas decisões.
A “geração perdida” buscava eliminar os clichês da literatura pomposa americana, aderindo a um complexo e desiludido realismo. Toda a desilusão e rejeição desses escritores expatriados, suas novas experiências em terras européias, regadas a excessos na bebida, festas sem fim, as novas experiências, tudo o que rechearam os livros dessa geração nas décadasde 20 e 30.
Cada um seguiu um estilo. Dos relatos um tanto quanto enérgicos de John dos Passos perante a revolta do cenário pós-primeira guerra, em livros como 1919; da literatura marginal de Stein, seguida mais adiante por Henry Miller com um estilo que abusa da sexualidade, expondo a questão do corpo e dos desejos. O estilo um tanto quanto pomposo e aristocrático de Fitzgerald, retratando os salões e o comportamento da alta sociedade, longe dos olhos do mundo. Hemingway retratando o isolamento, utilizando-se de personagens cuja principal característica é o trabalho solitário, como pescadores, soldados, atletas, etc., através de uma narrativa que muitas vezes pode ser considerada monótona por alguns, mas que reflete toda sua proposta: a falta de perspectiva de uma juventude pós-guerra e pré-crise de 1929.
Apelidado de “O escritor da era do Jazz”, Fitzgerald aponta, desde o seu primeiro romance, Deste lado do Paraíso, o comportamento de mulheres fortes, que possuem autonomia e chocam a classe masculina abastada e fascinada com essas figuras. Dentro dos salões e das recepções, envolvem as fantasias masculinas ao se relacionarem com vários homens e os seduzirem, acabando por mexer com o conceito de moral e status, tanto do homem quanto da mulher.
A questão da imagem e do abuso da posição social aparece, por exemplo, no conto “As costas do camelo”, do livro Seis contos da era do jazz, onde um fato um tanto quanto curioso acaba por chamar a atenção para a tomada de poder de um simples motorista, que começa como um mero subalterno na história e, após diversas humilhações e abusos morais, exige os seus direitos graças a uma situação de sorte, deixando o senhor um tanto quanto chocado mas sendo forçado a satisfazer o desejo legítimo do empregado.
A utilização do elemento fantástico em outro conto que integra o livro, “O curioso caso de Benjamin Button”, levanta novamente a questão da imagem perante a sociedade. Um pai nega e se envergonha do filho que acaba de nascer, devido a uma anomalia perversa: seu filho havia nascido como um velho e com o passar dos anos regredia na idade. O pai esconde a verdadeira imagem do filho através de disfarces, até o momento em que Bejamin Button se apaixona, vê sua mulher envelhecer e ele continuar a rejuvenescer, e o relacionamento com o seu filho, que acaba por se envergonhar dos comportamentos infantis de seu pai, cada vez mais menino.
Utilizando-se tanto de fatos corriqueiros como fantásticos, e lançando mão da simples fórmula de retratar um drama aproximando os personagens das pessoas comuns, Fitzgerald conseguiu explorar o comportamento americano, assim como fizeram os demais escritores da geração perdida, mas a escrita elegante acabou por destacar esse grande escritor americano do início do século, servindo como um registro histórico para entender esse período tão peculiar da história, do desenvolvimento econômico do pós-guerra, até a crise de 1929.
Bruno Teixeira Paes se formou em Educação Artísica com habilitação em música, em 2004, pela UEMG. Possui especialização pela PUC-Minas em Crítica e Produção Cultural.

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