historinha de feira - raquel menezes
Filho de Iansã. Feirante. Tinha os olhos pretos, cansados e de um sossego cativante. Destemido e forte guerreiro do nosso tempo. Passava os dia na feira a vender suas maças. A mão sisuda acariciava a mercadoria como se fosse uma obra de arte. Seu pai era artista, vendia palavras e viajava em grandes aventuras pelos mares nunca conhecidos. Na mão uma caneta e na cabeça o sonho. Queria ser como o pai – inteligente – ou pelo menos, ter a beleza negra da mãe.
Quando a conheceu, a moça dos melões, soube que sua sorte mudaria. Ela tinha um jeito especial de o tratar; sentia-se devorada sob os olhos dele. Meses depois se casaram. Tiveram três filhos. Compraram uma casinha. E as maçãs lhe renderam um dinheirinho para a compra de um carro velhinho que possibilitava passeios de fim-de-semana. Eram felizes.
Dia desses, apareceu pela redondeza a moça das melancias. Foi o suficiente para a felicidade apodrecer. A esposa se mordia de tanto ciúmes. Cravava-se as unhas toda vez que via seu marido a falar com aquela moça, a das melancias. Sentia suas unhas em sua pele e tinha sensação da perda de seus melões. Cada vez menores. Menos saborosos. Não eram mais tão duros como antes. Enquanto as melancias lá. Duras. Rijas. Macias. Decidiu que não mais perderia seus melões, e que nem ele, o marido, teria as melancias. A faca suja de sangue. Maçãs nunca mais tocadas, por mãos sisudas de um homem de olhos agora não mais cativantes, é o fim dessa historinha.
Raquel Menezes, carioca, é graduanda em Letras na UFRJ. Em dezembro de 2005, fundou em parceria com Fernando Flack e Maria Clara Carneiro o Grêmio Cultural Ana Cristina Cesar.
