maria providência - marina pinheiro
Maria Providência olhava o cliente repousado sobre a cama: Os pêlos grisalhos do tórax, os lábios em rubor incomum. A carne do homem era flácida como a fazenda de tergal que revestia o colchão. O calor era insuportável… Atraía moscas que voavam como mísseis em miniatura. O espelho ao pé da cama era um opaco observador daquele quadro insípido. Cupim, traça, mosca e mariposa é fauna sem cheiro, apenas orbitam espaços quentes e desprovidos de cuidados… O cliente tentava levantar-se, poderia ser o homem-barata de Kafka em seu esforço de erguer-se com o abdômen duro de gordura.
A agonia era o perfume do recinto. A secura do ar era aura (pro)vida pela vagina nada elástica de Maria. Tudo esgarçado… Naquele espaço, o único movimento possível era o das asas dos insetos. A pia de louça amarelada portava um ralo com força de atração semelhante a um buraco negro. Justamente ali, é que a toillet costumava ser feita… A limpeza da água espessa que brotava e cobria poros e mucosas dos transeuntes daquele lugar sem canto. Aquilo era uma nave que pairava sob gravidade zero, nenhuma gravidade, ali, de fato, nada acontecia.
O homem caminha sobre o chão de madeira e abre a porta. Com os olhos na linha do horizonte, dá o primeiro passo e não encontra solo. Maria, com um guarda-sol aberto, contempla sem expressão o corpo flutuando em queda-livre. Nenhum som é emitido. Ela retorna ao casulo, joga água no pescoço… O calor parece querer derreter qualquer forma de vida possível. As horas passam em slow motion.
Bem distante, houve-se o ruído de uma orquestra de carnaval acompanhada de foliões a gritar “MA-RI-A, MA-RI-A, MA-RI-A… TIRA A ROUPAAAAAAAAAAAAA!!!!!” Ela ri e se dirige à janela, olha a multidão e pensa em jogar-se sobre eles, como peixes que pulam para fora do aquário. Um anão joga para Maria uma grossa corda feita de brotos de feijão e pede para que ela “desça!”, mas para onde iria? “E se guilhotinarem a minha cabeça?” “Como vou encontrá-la se os meus olhos não mais orientarão os movimentos de busca do meu corpo?” Preferiu desistir e acocorar-se ao pé da janela. Encontrou uma revista de moda da década de 20. As modelos tinham forma coerente com as roupas… Esquálidas, retilíneas. Perguntava a si mesma se poderia ser uma delas. Olhou para seu corpo e não encontrou semelhanças com as figuras impressas em papel jornal. Como poderia ser uma delas? Numa das fotografias, as modelos fumavam cigarros na tentativa de amainar o frio que sentiam numa praia nublada, européia. Os maiôs eram inteiriços, as toucas de banho floridas… elas se agrupavam para diminuir o choque dos corpos ao vento e tudo ficava parecido com um buquê de flores em preto-e-branco. Nos pés de Maria havia tatuagens em forma de trepadeiras e ervas daninhas. Perguntava-se: “Será que é por isso que estou fincada neste lugar?” Por um instante, num lampejo desesperado por solução, viu-se decepando os pés. Livrar-se-ia da cerca viva, mas pagaria o preço de perder seus membros de locomoção. Respirou fundo preenchendo os pulmões de ar… Neste instante, quase era possível ver asas em suas costas, no entanto, os cabelos crespos, secos, elétricos, nada tinham de angelical.
Deitou a cabeça sobre as fotografias e mordeu os próprios lábios com ardência. Lembrou-se de todos os beijos que recebera em sua vida, a sensação era de um gramado fresco e úmido a percorrer todas as sua extensões. Os pelos do púbis se arrepiavam. Virou-se para o teto e viu uma enorme tempestade a se formar. A chuva começou a cair, ela não se movia. Tentou sentir cada um dos gélidos pingos d’água. Abriu mais o seu vestido e como se os céus pudessem responder às suas súplicas, a água se intensificava, mais, mais, mais… “MAIS!”, gritou. Os mamilos se encolhiam e tomavam o tamanho de pequenos botões róseos. A boca aberta, a língua para fora sorvendo a própria face que escorria. As mãos esfregavam o ventre que pulsava como o de uma primípara . O som dos trovões fazia suas pernas se contorcerem, rígidas, musculosas. Os quadris se movimentavam em círculos, solícitos por mais intensidade… O umbigo abrigava uma pequena piscina. A tempestade não parava, e muito menos os grunhidos de Maria. Abriu as pernas no mesmo instante em que os raios começavam a cair e derreter-se ao solo… O clímax não terminava, não havia homens.
Alguém batia à sua porta, ela não queria atender. O chão estava molhado. A pessoa insistia batendo com força crescente. Deu um pulo ainda trôpega e foi atender sentindo-se muito zonza. A vertigem era tamanha que ao colocar a mão sobre a porta sentiu toda a cena escurecer. Sorriu sem graça, não estava grávida… A culpa era a tentativa de sentir-se minimamente desejosa do cativeiro sem coveiro.
Marina Pinheiro nasceu em Olinda em 1978, estado de Pernambuco, Brasil, é psicóloga e mestra em Psicologia Clínica. Escreve academicamente sobre a vida dos assim chamados “doentes mentais”, contexto do qual construiu inspiração para este conto.

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