o andrógeno em lunário, de al berto - pedro kalil
A figura do Andrógeno hoje é quase um ícone pop. Em inúmeras publicações sempre se fazem referências a certos ícones pops como “pessoas andrógenas”. São na sua quase totalidade figuras do mundo da música, ídolos jovens como Iggy Pop, a cantora Nico, David Bowie e, atualmente, o vocalista da banda Placebo, Brian Molko. Esses cantores são assim distintos por revelarem um visual em que a sua sexualidade é posta em dúvida, uma mistura do masculino e do feminino, não exatamente uma figura essencialmente masculina com traços femininos, ou o contrário, mas por serem apagados esses limiares que diferenciariam um do outro. Andrógeno acabou por se tornar mais uma expressão da moda ou estilo, e quase foi esquecido de onde a palavra foi alçada, o mito. No livro “Lunário”, de Al Berto, a junção do mito com a figura pop, ou ainda, esse novo mito moderno, é o objetivo que ele pretende alcançar. Este pequeno texto pretende analisar essa ligação do antigo e sua representação ainda presente no contemporâneo.
Começaremos com uma breve recordação sobre o mito do Andrógeno. Para isso usaremos como ele foi relatado no livro “O Banquete”, de Platão. No mito platônico são retratados três tipos de seres andrógenos: os que duplicam o masculino, os que duplicam o feminino e os que unem o masculino e o feminino. Os seres andrógenos, seres superiores aos humanos, de forma ovular, são condenados pelos Deuses que os separam e então cada qual procura a sua outra metade. Aqui “vê-se bem a função etiológica do mito: relatar o sofrimento dos amantes separados, quer sejam homossexuais ou heterossexuais.” (MIGUET, 1997) O mito do Andrógino é um mito cosmogônico, um mito fundador, de seres originados do sol, da terra e da lua.
Em “Lunário”, o livro, poderia se achar facilmente referência a esse andrógino pop, a figura contemporânea quando cita uma música de David Bowie, “All The Mad Man”, musica do polêmico disco do cantor, “The Man Who Sold The World”, em que ele está na capa vestido de mulher, confundindo mesmo a sua definição mais clara do sexual. O livro conta a história de Beno, que procura perdidamente a sua “metade”, Nému, que um dia se foi. Quando ocorre a separação, quando Nému vai embora sem dar muita explicação, assim como chegou, Beno volta a ser um indivíduo perdido, como acontece no mito.
O livro começa narrando as viagens de Beno por Portugal: sua solidão incrível, seu isolamento que não deixa que passe mais de dois ou três dias num mesmo quarto de hotel. Até que conhece Lúcio e Gazel, casal que o chama para acompanhar uma aventura sexual onde fazem sexo na cama de terceiros. Beno os acompanhava apenas para olhar.
O mundo do livro é cheio de gays, travestis, imerso em uma decadência extravagante (decadência na qual esse andrógino moderno faz parte, “sexo, drogas e rock’n’roll”). O local em que Beno conhece Nému (que não tem mais de dezesseis, dezessete anos) não podia ser outro: um bar, vazio, onde algumas vezes antes Beno conhecia muita gente. Eles bebem e acabam juntos. Passam dias e dias juntos e depois Nému parte sem dizer nada. A solidão e a incompletude tomam conta de Beno.
Seria um erro apontar os travestis que habitam o texto como mais uma figura do ser andrógino. Baudrillard define bem em “Da Sedução”: “eles não amam verdadeiramente homens/homens, nem as mulheres/mulheres, nem mesmo os que se definem por redundância como seres sexuados distintos.” Os travestis não amam simplesmente, não vivem pelo sexo. O que importa pra eles, o que os apaixona é “seduzir os próprios signos” (BAUDRILLARD, 2001). Os travestis não têm a figura da falta que é presente no que é representado hoje no andrógeno pop e no antigo. Quando se revela que existe um sexo por trás do andrógeno, a figura do travesti se fixa novamente nos seus artifícios de transubstanciação do sexo nos signos, não no amor.
No livro, Beno, em seus escritos, revela diversas vezes essa busca de uma origem cosmogônica, o retorno à infância e o fim da solidão. “Perdeste o nome como eu há muito perdera a infância. Mas quando o teu olhar me sulca e fere o corpo e me devolve, por segundos, o que perdi, há um amanhecer feliz. E tens um nome, e não voltaremos a estar sozinhos.” (BERTO, 1999) Na separação dos corpos, há também sinais da separação de si mesmo. “É assim que um dia dizemos adeus, de muito longe, a alguém que nós fomos.” (Idem)
O sexo aparece no livro não como um momento de união, mas apenas como um momento risível e curto em que um corpo “cobre” o outro. Não é no sexo propriamente dito, no “encaixe” dos corpos que se realiza a re-união do andrógino, é no amor, na companhia, na compreensão, na força sobre-humana que os iguala aos seres originais.
Durante todo o texto os sinais dos corpos partindo é lançada. Amigos do casal principal, Zohía e Alaíno também sofrem com a separação. Alaíno chega a implorar para Zohía, que o deixa, acompanhá-la na sua viagem, mas é uma viagem que tem que ser feita de uma forma solitária. Alaíno fica e sofre com a solidão.
Solidão, essa que é a marca principal de todo o texto, é traço sem dúvida vindo do original mítico em que o Andrógeno, ao ser separado, busca incessantemente o fim da solidão caso encontre a sua “outra metade”. Outro sinal que percorre todo o texto é uma idéia de “sombra”. A sombra dos personagens, o encontro com elas, o acompanhamento das próprias sombras, as sombras que se misturam umas as outras, uma espécie de vampirismo invertido.
Uma sombra que parece querer significar não mais do que algo que quase se completa, algo de uma não-completude plena ou mesmo uma completude que não passa de temporária, ou falsificada. “Pobre Alaíno! És minha sombra, e eu o peso do seu corpo (IDEM)”.
Essa é a sombra que se dissolve ainda na noite sempre evocada, personagens noturnos, “A noite veste-me com uma inércia donde tenho certa dificuldade em regressar. (IDEM)” Figura do andrógeno filho da lua “corpo celeste a meio caminho do Céu e da Terra (MIGUET, 1997)”. É na noite que Beno conhece Nému, e é no meio da noite silenciosa que ele vai embora sem falar nada. Como afirmou Barthes, a noite é “o estado que suscita no sujeito a metáfora da obscuridade (afetiva, intelectual, existencial) na qual ele se debate ou se acalma (BARTHES, 1995)”. No “Lunário”, é sempre a noite o local dos encontros, da calma, e o lugar das separações ou onde acontece a querela. O livro ainda tem mais indicações óbvias da noite, dividindo-se em Crepúsculo, Lua Nova, Quarto Crescente, Lua Cheia, Quarto Minguante, Úmbria, Cântico.
Nesta derradeira parte, o Cântico, Beno se encarrega de evocar em seus escritos seres primordiais como os andrógenos. Pelo homem solar ele chama os seus antepassados, lembra dos corpos que dividiu, que se juntou, e há ainda um regresso a seu próprio corpo, sentindo que, depois que Nému o abandona, ele pode regressar a si mesmo, se percebendo ao sentir completo na memória, completo em si mesmo. “Possuo para sempre tudo o que perdi (BERTO, 1999)”, diz ele, e com isso chama o amante para se deitar do lado. “Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge. (IDEM)”.
Ao percorrer as paginas do livro, suas linhas, o texto nos evoca dois tempos míticos, um tempo de origem, a origem do amor, o início, o fim e a continuação da procura do ser amado que foi separado dos deuses, que um dia foi um ser completo e de força grandiosa, e hoje frágil, solitário e triste, incompleto. O outro tempo é o contemporâneo, seja nas suas relações com um presente mais próximo (drogas, rock, bares, travestis), mas mais importante na idéia desse símbolo do andrógeno contemporâneo. Beno e Nému têm essa figura inidentificável quanto ao sexo (“e o meu corpo… está em repouso agora, não precisa mais dessa imagem andrógina para sobreviver (IDEM)”), mas sempre a procura da sua origem ovular fundamental, corpos que procuram nas sombras, nas noites, nas enganações o suprimento de sua eterna falta.
No fim do livro Beno parece aprender como se tornar um verdadeiro homem, e talvez assim podendo começar a viver como homem — “O homem é a sua nostalgia (CAMUS)” —, e não mais como um andrógeno que procura ao realizar que “o homem só se torna verdadeiro homem conformando-se aos ensinamentos dos mitos, imitando os deuses. (ELIADE, 1992)”. E então, Beno, é também, humano.
Bibliografia
BARTHES, Roland. Fragmentos de Um Discurso Amoroso. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.
BAUDRILLARD, Jean. Da Sedução. Campinas: Papirus, 2001.
BERTO, Al. Lunário. Lisboa: Assírio & Alvim, 1999.
CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Lisboa: Livros do Brasil.
CHEVALIER, Jean & GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993.
ELIADE, Mircea. O Sagrado e O Profano. São Paulo, 1992.
MIGUET, Marie. Dicionário de Mitos Literários. Org: Pierre Brunel. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997.
PLATÃO. O Banquete. São Paulo: Martin Claret, 1999.
Pedro Henrique Trindade Kalil Auad é graduando em Português da Universidade Federal de Minas Gerais. É professor de cinema e dramaturgo.
