a chuva - maria clara


A menina dos olhos mortos não queria sair de casa. Nos dias de sol, os olhos que não brilhavam ardiam de dor. Nos dias de chuva, a pele sem cores reclamava frio.

Os meninos jogavam pedras na sua janela para ver a menina invisível. Pelo vidro embaçado, só percebiam dois abismos em forma de olhos.

Do lado de dentro, a menina calculava o tamanho da família de formigas que habitava seu quarto e a velocidade em que a água invadia sua casa pelas frestas do telhado. Porque doía, e ela não sabia o quê.

Do lado de fora, ela já soube muita coisa. Agora, tratava-se de esquecer dos tons de vermelhos azuis e verdes que já amou um dia, alguns olhares que a deixaram rósea, certos sabores de frutas e homens e a voz que uma vez murmurou seu nome sem pensar nas conseqüências. A única coisa que não queria esquecer eram as gotas de chuva. Chovia da última vez que ela esteve do outro lado da parede. Chovia e ela chovia também.

De vez em quando, acordava com os taque-taques das pedrinhas na janela e até sorria por dentro. Mas não durava muito tempo. Em segundos, voltava a morrer.

Um dia, choveu bem forte. Ela lembrou daquela chuva e achou que não podia mais esperar. O telhado virou céu de nuvens e a casa virou rio. Os meninos que corriam pelas ruas agradecendo a água e a pouca idade viram descer pelo morro a casa da menina.

MC
a 26 de fevereiro de 2004

Maria Clara é mestranda em Literatura Francesa no Programa de Pós-Graduação de Letras Neolatinas da Faculdade de Letras da UFRJ e é formada em Português-Francês pela mesma faculdade. Participa desde 2002 do projeto de pesquisa “A metalinguagem literária legada por Roland Barthes, Michel Foucault e Jacques Derrida à língua e a literatura francesas”, coordenado pela Profa. Dra. Anamaria Skinner.

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