erasmo, o alienista - fernando miranda
“Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.”
Fernando Pessoa
As palavras acima, do poeta português, bem que poderiam ser dedicadas a Erasmo de Rotterdam, e não nos surpreenderíamos. O erudito holandês não viveu a vida das sensações, mas a do pensamento; não se inclinou para qualquer partido, e, pode-se dizer, seu único “partido” era o não partidarismo, pois considerava esta uma forma execrável de fanatismo, que deixava o homem longe da razão e apenas provocava as lutas, os combates, as guerras. Erasmo nunca se arriscou a afirmar qual a verdadeira vida, e qual a errada; aceitava os pagãos, aceitava os filósofos gregos da mesma maneira que ouvia os teólogos, era, já no século XVI, um espécime de diplomata, mediador dos muitos conflitos entre as autoridades e seus egos inflados. Na sua ilusão de homem confinado entre livros, acreditava piamente na evolução da humanidade por obra do saber. Escreveu muito, mas, por uma ironia que também atingiu os italianos Boccaccio – nascido em Paris – e Petrarca, ambos do século XIV, sua única obra que ficou para a posteridade foi a menos pretensa, à qual ela dispensou menos cuidados. Se Boccaccio não via futuro para o seu Decameron, e inclusive chegou a repudiar esta obra após haver-se voltado à religião , e Petrarca julgou mais valiosos seus escritos em latim que seus sonetos, Erasmo, embora desse pouco valor a “Elogio da Loucura”, não desprezava de todo a obra. Tinha-a como uma brincadeira, ainda que encontrasse ali as críticas que gostaria de fazer, mas cujo espírito tão reservado não permitia. Longe de ser uma simples sátira, “Elogio da Loucura” é obra marco da Reforma luterana. Ainda que haja sido escrita por um humanista, as críticas contidas no livro abriram caminhos para Lutero, entusiasmando-o até a buscar, no início de sua revolta, o auxílio do erudito holandês. Evitando até onde pôde dizer um “sim” ou um “não”, Erasmo carrega a estigma do derrotado, haja visto que a “erásmica”, com um discurso comedido e consciente, não resistiu à fúria de Lutero, homem loquaz e ávido por disputas. Não obstante, não nos seria devido banir “Elogio da Loucura” de nossas estantes, ou simplesmente renegá-la a um lugar escondido, imperceptível; as múltiplas leituras que esta obra proporciona a colocam na ordem do dia para as nossas digressões e discussões sobre Literatura e Mundo. Afinal, a loucura é a morada do ser.
Escrita no ano de 1509, em pouquíssimos dias, na casa do pensador inglês Thomas Moore, famoso pela sua “Utopia”, “Elogio da Loucura” é uma crítica voraz a todas as atitudes descabidas da época. Embora, como afirma Zweig, Erasmo seja “mais erudito que artista”, não devemos retirar-lhe o mérito de haver encontrado uma forma precisa de expor suas opiniões ao dar voz à Loucura. A deusa sobe à tribuna e proclama o seu discurso, ora enérgico ora debochado, respondendo, sem haver sido questionada, o porquê da sua presença no mundo; advoga em causa própria, e ganha a ação. Ademais, o autor deixa-nos, em certas passagens do texto, perceber a reação da platéia, através das interrupções na fala da deusa Loucura. A oportunidade conferida por Erasmo à sociedade é a de ver-se refletida, nos mesmos moldes que Sebastian Brant fizera anos antes, com o seu “Narrenschiff”. Esta seria, segundo os autores, a única maneira de trazer algum tipo de reflexão possível para os homens, que passam a vida a levá-la sem questionar-se por nada, e não se dão conta das incongruências de suas atitudes. Retomemos este verso de Brant: “O armer Narr, wie bist du blind”. E, dirigindo suas palavras para um público incapaz de compreendê-la, a Loucura opta por formas mais simples de expressão: “Isso é por demais filosófico? Vou falar de modo mais simples”. E acrescenta, para retirar a cegueira dos demais, “Tirada a ilusão, toda a obra desmorona. Essas roupagens, essa farsa eram exatamente aquilo que encantava os olhos”. Para validar seu discurso, a Loucura não se priva da arte retórica, e, capaz de conquistar a confiança dos espectadores, diz: “Não ponho a máscara, como aqueles que pretendem representar um papel de sábios e andam desfilando como macacos vestidos de púrpura e como asnos com pele de leão.” Ademais, não se exibe sozinha, traz consigo suas companheiras Philautia (o amor-próprio), Kolaxia (a adulação), Lethes (o esquecimento), Misoponia (a preguiça), Hedones (a volúpia), Anioa (a irreflexão), Tryphe (a moleza), e dois deuses, Komo (a boa mesa) e Nigreton Hypnon (o sono profundo).
A Loucura comprova suas teses por meio de sólidos argumentos, não permite a menor contestação. Diz-se responsável pela propagação do gênero humano, que são gerados não “com a cabeça, com o rosto, com o peito, com as mãos, com as orelhas, todas partes consideradas honestas” , mas sim com outra parte, “tão louca, tão ridícula que sequer se pode mencioná-la sem provocar o riso” . E se as mulheres procuram um homem para pôr um filho no mundo e criá-lo, isso se deve à Irreflexão, e àquelas que já passaram por isto e ainda insistem em mais uma vez, como não evocar a deusa Lethes (o esquecimento)?
Como observador arguto, Erasmo não poupa nem a sim mesmo. Através da voz da Loucura, faz a autocrítica:
Não observais, por acaso, as pessoas melancólicas, mergulhadas na filosofia e nas dificuldades de suas ocupações, quase todas envelhecidas antes de gozar plenamente sua juventude, porquanto as preocupações, a tensão contínua do pensamento nelas secaram o sopro e a seiva da vida? Meus loucos, pelo contrário, gordos e luzidios, pele brilhante, verdadeiros porcos da Acarnânia , como se diz, não haveriam de sentir nenhum inconveniente da idade, se conseguissem evitar inteiramente qualquer contato com os sábios. Por vezes, no entanto, não conseguem porque os homens não são perfeitos, porque esquecem o provérbio popular que, nesse caso, mostra toda a sua importância: “Só a loucura prolonga a juventude e retarda a malfada velhice”.
E reconhece que:
Convidai um sábio para um banquete e vereis que se tornará um estraga-prazeres por seu melancólico silêncio ou por suas importunas dissertações. Convidai-o para um baile e haverá de dançar como um camelo que corvéia. Levai-o a um espetáculo e bastará seu aspecto para silenciar o povo que se diverte, obrigando os organizadores a retira-lo da sala, como ocorreu com Catão que não conseguia se desfazer de seu ar carrancudo.(…) Ele não presta serviço nem para si nem para sua pátria, nem para seus amigos, porque desconhece totalmente as coisas usuais, sendo-lhe completamente estranhos a opinião e os costumes correntes da sociedade.
A Loucura reconhece suas várias formas, reconhece que uma loucura cometida em sociedade é passivamente aceita e passa despercebida, ao contrário das “loucuras individuais”. Para isso, exemplifica:
Um homem que tomasse por abóbora uma mulher seria tratado de louco porque um erro desses é cometido por pouca gente. Mas o homem, cuja mulher possui numerosos amantes, acredita e afirma, cheio de orgulho, que ela ultrapassa em fidelidade a própria Penélope, a esse ninguém haverá de chamá-lo de louco, porque esses estado de espírito é comum a muitos maridos.
E como não pensar em nosso tempo? Vemos, cada vez mais, uma massa que segue os rituais nababescos das religiões pirotécnicas, com padres que vendem milhões, freqüentam programas de auditório ao lado de modelos que posaram (ou diríamos pousaram?) para a última edição de renomada revista masculina e fazem shows em locais públicos, cantando músicas com os ritmos semelhantes das músicas de modo, de maneira que os ouvidos menos refinados possam ser conduzidos a uma pretensa purificação, cujo preço vem claramente estampado, seja na camiseta, no adesivo, no CD. E pensa-se isto como ato de loucura? Evidentemente, não; o louco é o ateu, aquele que se nega a participar da festa – ou, melhor dito, show de horrores.
A Philautia (o amor-próprio) tem como irmã a Adulação, que em muito contribui para o domínio da deusa Loucura em nosso mundo. Conhecemos o provérbio, “quem diz o que quer, ouve o que não quer”, e é nele que pensamos ao reler este trecho da obra de Erasmo, quando a Loucura evoca a Adulação justamente para pregar o contrário, para evitar a sinceridade, com que os homens possam conviver melhor, enganados por si mesmos e pelos outros, conquistando seu espaço por meio das palavras de agrado sem fundo verídico, por meio de falsos elogios. Recentemente, o pensador italiano Umberto Eco, em artigo para a revista brasileira Entre Livros, intitulado “A importância de ser alguém”, cita o livro de Dale Carnegie, atualmente assim traduzido: “Como tratar os outros e torna-los seus amigos”. No livro, segundo Eco, Carnegie nos ensina que “o problema não é encontrar amigos porque a amizade dá muitas satisfações, mas convencer os outros a nos considerarem seus amigos de modo a poder influenciá-los e obter (nós, não eles) o sucesso ao qual, legitimamente, aspiramos”. E quem ousaria apontar qualquer tipo de insanidade nestas linhas tão triviais?
O discurso proferido pela Loucura é dividido em partes, nas quais trata de cada assunto, separadamente. Os últimos são, pois, aqueles que dizem respeito às autoridades eclesiásticas, e, não por acaso, os que formam longos trechos, destoando-se, inclusive, do resto da obra; a sátira e o leve sorriso deixado no rosto do leitor ficam em segundo plano, e vem à tona um discurso mais questionador, mais inconformado, num tom aparentemente estranho à figura de Erasmo. É possível, agora, ver o rosto transfigurado da Loucura, como um advogado diante do juiz e dos jurados. Neste instante, encontramos a abertura para Lutero, e, tivesse Erasmo consciência do efeito que sua obra tomaria, teria evitado escrevê-la. De fato, o erudito holandês buscava uma reforma na Igreja, encontrava-se descontente com a vida dos papas e sacerdotes, que mais pareciam príncipes em seus castelos que autoridades eclesiásticas.O que Erasmo não previu foi a forma com que Lutero se apoderou das críticas contidas em “Elogio da Loucura” e galgou seu espaço, pouco a pouco, derrubando, com sua fala loquaz e persuasiva, cada oponente que se lhe opunha. Por isso, o próprio reformador de Wittenberg procurou contato com o sábio holandês, e, quando sua situação se agravou perante as autoridades da Igreja, pediu ajuda a Erasmo, para que este o defendesse. Na sua condição de “homem sem partido”, Erasmo tentou permanecer indiferente, ao mesmo tempo que propunha aos eclesiásticos uma revisão na idéia de excomungar Lutero. Os dois principais homens daquele tempo não discordavam por completo nas idéias, mas nos métodos para fazê-las prevalecer. Eis quatro momentos de “Elogio da Loucura” propícios para a entrada de Lutero:
Os apóstolos falam de graça, mas não fazem a distinção entre a graça gratuita e a graça gratificante. Eles exortam à prática de boas obras, mas não distinguem a obra operante da obra operada. (p. 75)
É verdade que há aqueles bastante ignorantes que não entendem nossos doutores, há muitos impertinentes que os desprezam, mas há também aqueles bem preparados para sustentar um combate; neste último caso, haverá um mago contra um mago, cada um lutando com uma espada encantada e não chegando a nada: tudo se reduziria à tarefa de tecer e voltar a tecer o pano de Penélope. (p. 76)
[Os pastores] deixam o cuidado do rebanho ao próprio Cristo ou aos chamados irmãos ou ainda a seus vigários. Esquecem que seu designativo de bispo significa trabalho, vigilância, solicitude. Essas qualidades lhes servem para pôr a mão no dinheiro, para isso eles sabem abrir os olhos. (p.87) Diriam adeus a riquezas imensas, honras, poder, patrimônio, vitórias, cargos, isenções, impostos, indulgências, tantos cavalos, mulas, guardas e tantos prazeres. Vede que mercado rico, que messe abundante, que mar de bens resumi em poucas palavras! Em seu lugar deveriam ser colocadas vigílias, jejuns, lágrimas, orações, sermões, o estudo e a penitência e mil ocupações difíceis desse tipo.(…) Seria, portanto, desumano, abominável e infinitamente detestável fazer com que retomassem o cajado e a sacola esses grandes príncipes da Igreja, que são a verdadeira luz do mundo. (p.88)
Desta forma, por mais que tenha evitado a participação no movimento luterano – seja pró ou contra – fica Erasmo estabelecido como marco da Reforma alemã, já que “em toda revolução espiritual, o crítico, o iluminado, precede o homem de ação, o reformador. Antes de semear, cumpre arrotear o terreno”. (ZWEIG, op. Cit. p. 136)
Se ao dedicar “Elogio da Loucura” ao amigo Tomas Moore, valendo-se da comparação do sobrenome deste com o termo moria (loucura, em grego), Erasmo pede ao amigo que se torne defensor da obra, cujos ataques haverão de surgir por todos aqueles que se virem representados, e acrescenta que a obra passa a ser mais do amigo que dele próprio, o autor, na conclusão vemos o mesmo artifício, tão comum àquele homem recatado, sempre alheio às disputas pessoais e aos diálogos incandescidos. Da fisionomia de Erasmo, cujas imagens nos chegam através das pinturas de Hans Holbein e das gravuras de Albrecht Dürer, percebemos um “homem que não vivia na vida, mas no pensamento, cuja força não residia no corpo e sim na caixa óssea limitada pela frente pálida”. (ZWEIG, op. Cit. p. 121) É este homem circunspeto que assim encerra sua única obra capaz de superar a própria morte:
Esquecida de mim mesma há tempo, ultrapassei todos os limites. Entretanto, se vos parecer que meu discurso pecou por petulância ou por loquacidade, deveis pensar que eu sou a Loucura e que falei como mulher. Lembrai-vos, contudo, do provérbio grego: “Muitas vezes, até mesmo um louco raciocina bem”. A menos que julgueis que esse texto exclua as mulheres. Deveis estar esperando, vejo-o, uma conclusão. Mas deveis estar bem loucos para supor que eu me lembre de meus propósitos, depois dessa efusão de palavreado. Aqui está uma frase antiga: “Detesto o conviva que se lembra”. E aqui está uma frase nova: “Detesto o ouvinte que não se esquece”.
Portanto, adeus! Aplaudi, bebei, sucesso, ilustres discípulos da Loucura!
Ao contrário, que não esqueçamos, a cada ato mínimo, da nossa Loucura. Afinal, o que seria o ato de existir, se da Loucura fôssemos privados?
Bibliografia
ECO, Umberto. “A importância de ser alguém”, in Revista Entre Livros, Ano 1 nº 2. São Paulo: Duetto, 2005.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda & RÓNAI, Paulo [org. e trad.]. Mar de Histórias – Antologia do conto mundial, I: das origens ao fim da Idade Média – 4ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.
ROTTERDAM, Erasmo de. Elogio da Loucura – São Paulo: Escala, s.d. [tradução de Ciro Mioranza]
ZWEIG, Stefan. “Os caminhos da Verdade”, in Obras Completas – Rio de Janeiro: Guanabara, s.d. [tradução de Marina Guaspari]
Site da livraria Saraiva:
www.livrariasaraiva.com.br
Fernando Miranda, estudante de Letras da Universidade Federal Fluminense (UFF), sexto período. Bolsista Pibic/UFF, em Língua Portuguesa. Triatleta da RF Sports.
Este texto se dirigiu ao Seminário da disciplina Literatura Alemã I, ministrada pela Prof. Dra. Susana Kampff Lages
