errar nos muito sentidos de miguel esteves cardoso - alilderson cardoso
Errar nos muitos sentidos é se equivocar nos muitos significados. Também, os muitos significados de se equivocar representam a ida para muitas direções, o que nos leva à etimologia do discurso trazida por Barthes: dis – cursus: ir para todos lados.
Meu discurso é sobre um discurso de um outro ou ainda o dis-cursus de um outro Miguel Esteves Cardoso. Cabem breves esclarecimentos a respeito deste autor de sucesso, mas não muito, ou quase nada, estudado na academia. É cronista e romancista, tendo escrito O amor é fodido, A vida inteira, Cemitério das raparigas. Filho de pai português e de mãe inglesa, o autor tem como hábito brincar de semanticista. Arruma falsas etimologias, ajeita novos significados e arranja os sentidos que lá estão.
Sua paixão pelas engrenagens do idioma tem origem no fato de o autor ter aprendido o português como segunda língua. Miguel Esteves Cardoso foi falante de inglês até os nove anos. Seu aprendizado se deu a partir de um jogo que seu pai inventou. Desde então, jogar com as palavras e com seus sentidos tornou-se uma atividade pela qual foi tomando gosto, um gosto que se denuncia de antemão a partir do título de uma de suas recolhas de crônicas: Explicações de português.
O livreiro desavisado pode muito bem colocar este título na prateleira das gramáticas. Todavia, as explicações a que o título se refere são justificativas de um certo português, chamado Miguel Esteves Cardoso. Suas investidas como observador do idioma e de suas entranhas mais secretas afasta-se do rigor do gramático e ganha falsos ares de sócio-lingüística. O que cada palavra significa é uma espécie de “devora-me ou te decifro”.
Em boa parte de suas crônicas, Miguel Esteves, mais que reinventar uma língua, quer reinventar um povo a partir dela. Parece seguir o raciocínio de Eduardo Lourenço, que afirma que é a língua que inventa o povo e não o contrário. Como uma criança que se detém num brinquedo novo, Esteves Cardoso ajeita-se numa atitude especulativa sobre as palavras, usos e expressões, como se vê na crônica “Hoje temos cu” (2001:323): “A palavra ‘cu’ é um prodígio da nossa língua. São duas letras que desenham o objeto que descrevem. É certo que se a palavra fosse UU, a parecença seria maior já que ambas as nádegas ficariam graficamente representadas. Perder-se-ia, porém, a seriedade do C.”
Segundo Wittigestein, não se deve indagar o significado de uma palavra e sim o seu uso. (apud. lions:435) Esta distinção abre portas para uma leitura da perspectiva estevescardosiana de lidar coma a língua. Em diversas de suas crônicas a língua e seu uso são o foco revelador dos costumes e um instrumento de crítica. A manutenção dessa crítica passa por um olhar diferenciado sobre os termos em que se manifesta o português (cidadão e o próprio idioma).
Em língua portuguesa Pessoa faz distinção entre a língua escrita e a língua falada afirmando que, enquanto uma é social, a outra é cultural; uma é espontânea e, a outra, natural. O que resta desta distinção é o fato de que o falante deve seguir as regras da fala de uma comunidade sob pena de não ser entendido, mesmo que isso signifique um erro. As palavras de Pessoa prescrevem como boa conduta o erro de pronúncia para não parecer agressivo ou pedante ante a uma comunidade que fale “errado”. Dão conta de o quanto a língua e a maneira de usá-la obedece a um sistema coletivo e não individual e o quanto está presente no uso do idioma a idéia de etiqueta e de ética. É possível que para MEC estejam presentes na língua uma ética que transparece a partir do uso de expressões, adágios e repetições. O idioma passa fazer ou a revelar uma cultura, e não o contrário. Como um interventor moralista, MEC utiliza algumas estratégias para identificar e qualificar certos costumes a partir do idioma. Um deles é o de analisar e psicologizar o uso de expressões pré-construídas, cestos idiotismos da língua e certas frases feitas. Neste caso o uso serve para classificar ou comprovar uma tese sobre determinado tipo de comportamento. Este fato traz-me à memória uma cena de Viagens de Guliver, na qual em uma das terras visitadas não existe a palavra “mentira”. Trata-se de um povo tão civilizado que ninguém possui o hábito de omitir ou falsear a realidade, portanto não precisa duma palavra para classificar tal conduta. Hábito que noutros casos, a partir de terminado tipo de comportamento, preferencialmente algum que o autor reprove, cria-se um novo uso para uma expressão já existente ou cria-se uma nova expressão para servir de ironia ao comportamento. Exemplo vivo desta pratica é uma crônica cujo título é “Micro-ondas”. O leitor desavisado há de supor que o tema a ser abordado pelo autor tem sua base no uso de certo eletrodoméstico. Contudo, o cronista apega-se ao sentido original de micro aplicado ao que é diminuto e o uso que se faz do termo “Ondas” significando “moda” ou “mania”. Enfim, no substantivo composto micro-ondas, o termo não se refere ao engenhoso aparelho elétrico de uso caseiro mas, sim, ao gosto médio do português por miniaturas (1995: 13/14):
O fenômeno das micro-ondas é infelizmente muito vasto. As minicantinas dos centros comerciais, as croisantreries, os restaurantes de vão de escada com louça verde-alface e copos maiores que as garrafas, as lojinhas de “brindes” e de Snoopies, de ervinhas e sabonetinhos… é desgraçada praga da gracinha. (…) A mania das miniaturas reflete uma mentalidade minimal. Em vez de crescer, descresce-se.
Na crônica “O problema do biscoito”, Esteves Cardoso parte da premissa de que há nomes demais para depreciar os homossexuais. E quase nenhum que se aplique ao comportamento bissexual que, por uma série de argumentações discutíveis, o propõe como sendo mais condenável.
Tudo no texto leva a crer que a insuficiência de nomes ligadas ao bissexual e o excesso de nomes pejorativos ligados aos homossexuais refletem um comportamento social a ser criticado, por criar uma injustiça que deve ser reparada. O arremate do texto mais acentua a questão da linguagem e o jogo das palavras. Ele chama o bissexual de biscoito e explica:
Pessoalmente proponho que lhe chamemos biscoitos atendendo a facilidade com que os bissexuais praticam os dois tipos de coito, isto é, seja com homens seja com mulheres, que lhes chamemos biscoitos. E porque os biscoitos também dão para os dois lados. Para além domais independentemente do sexo, qualquer pessoa lhes pode dar uma trinca. (p. 20)
O autor deturpa uma etimologia valendo-se de uma coincidência — coito tem como origem coitus, que significa cópula, e também tem como origem coctus, que significa cozido. Biscoito não significa dois coitos, e sim cozido duas vezes.
Cultivando um gosto pelos chistes e jogos de palavras o autor percebe a língua como reveladora do caráter de um povo. Dessa premissa parte boa parte dos textos de Miguel Esteves Cardoso. Uma premissa visível a partir da crônica-texto “Haver”, no qual o autor afirma existir uma ontologia especificamente portuguesa que se deflagra a partir do uso do verbo haver. Este tipo de afirmação se faz possível a partir da peculiar distinção entre ser e estar que não existe, por exemplo, nas línguas anglo-germânicas. No português pode-se “estar parvo toda a vida sem por isso deixar de ser inteligente” assim como “Portugal pode estar na miséria e ser glorioso”. Feita esta distinção o autor menciona outra: “o haver de aplicação universal” e o “haver- haver”, exclusivamente português. Miguel Esteves apanha uma expressão comum na fala do português que costuma ser uma resposta a indagações do tipo: “Há cinema em Portugal?”, onde se responde “Haver há…” significando “há, mas não existe”.
O autor estabelece, então, uma distinção entre o “haver” e o “existir”. Portanto, a expressão “há, mas não existe” perderia seu caráter de paradoxo por ser de natureza semântica distinta. “Haver” e “existir” não são sinônimos e pertencem a categorias semântica autônomas. Este tipo de jogo é possível a partir do princípio que norteia a semântica mais elementar, que afirma não haver sinônimo perfeito. Para MEC, esta imperfeição abre interstício para criação de uma antinomia entre duas palavras de aparentes significados. Lança-se em uma enviesada explicação para sustentar sua tese (2001:295):
Há por aí muitas coisas que, apesar de existirem no sentido restrito do haver-há, não existem no sentido mais alargado de haver mesmo. Para alguma coisa existir é necessário que o seu desaparecimento altere a realidade – senão o seu aparecimento não foi existência, porque nunca alterou a realidade. Por outras palavras foi como nunca tivesse existido. (p.122)
O jogo entre o haver e o existir serve a uma pilheria com a escassez portuguesa e a maneira de dissimulá-la. O uso do “haver –haver”, por sua vez, deflagra o que Eduardo Lourenço chama de fixação hipnótica só no passado, reforçado pelo uso do pretérito imperfeito do verbo dever.:
O passado para o português é o sítio onde as coisas existem no sentido absoluto da palavra. Pode não existir, por exemplo, uma política externa portuguesa para as ex-colônias (embora, evidente, lá haver, há e, com Jaime Gama, lá vai havendo) –, mas existiram os descobrimentos, os vice-Reis do império…Enfim, tudo o que houve, há.
Assim sendo, podemos finalmente conciliar as duas vertentes singulares da ontologia portuguesa – o Ser e Estar, por outro lado, e o Haver e o Haver-Haver, por outro – para entendermos o seu significado completo. Tudo aquilo que não há, que haver, há e que lá vai havendo diz respeito àquilo que Portugal está. Tudo aquilo que há, que já houve e que devia haver, diz respeito a aquilo que Portugal é.
Também não é por acaso que se utiliza o pretérito imperfeito (em vez do condicional correcto) do verbo dever. Devia com o infinitivo do verbo HAVER.
Mais adiante, o autor faz uma especulação gramatical estapafúrdia estabelecendo um jogo nada inocente entre “dever” e devir”:
Será que o Devir português é, no fundo, pretérito imperfeito do DEVER de Portugal (a sua História e Cultura quase perfeitas)? Será que os portugueses evitam utilizar o condicional (deveria haver) porque, presentemente, em Portugal, não há condições para que haja seja o que for? Ou será que vai havendo? (A discussão continua em qualquer volume da actual Filosofia Portuguesa – haja lá o que houver – e dura aproximadamente mais oitocentos anos). (p. 123)
A metalinguagem se faz e se desfaz já que a explicação para o termo e seu uso embaraça-se numa confusão que se provoca o riso e não a elucidação.
Miguel Esteves Cardoso, além de jogos de palavras, tem o gosto pela classificação e etiquetação de comportamentos, o que se manifesta em crônicas como “Os caras de cu”, na qual o autor cunha o termo “culambista”, equivalente a “puxa-saco”. O culambista é alguém que se humilha para conseguir atingir status social ou aceitação:
Noto com desagrado que se tem desenvolvido muito em Portugal uma modalidade desportiva que julgara ter caído em desuso depois da revolução de Abril. Situa-se na área da ginástica corporal e envolve complexos exercícios contorcionistas em que cada jogador procura, por todos os meios ao seu alcançar, correr e prostrar-se de forma a lamber o cu de um jogador mais poderoso do que ele.
É interessante que este texto apanhe uma expressão inglesa que representa uma ofensa quase que homo-érotica. A utilização do “lick my ass”, algo como “lamba meu cu”, é traduzido como “vai se foder” ou “vai à merda” por falta de correspondência em nossa língua. No trabalho supracitado, fica evidente que tanto quem lambe o cu quanto quem permite que o cu seja lambido são espécies desprezíveis. Mais adiante o autor prossegue com uma classificação dos tipos resumindo, numa frase só, o caráter do culambista: “Para o culambista não importa onde o cu esteve - importa saber onde o cu esta no momento do contato.”
Assim, entre jogos e “trapaças”, MEC faz da palavra um instrumento ridículo que diz aquilo que provoca o riso.
Bibliografia:
CARDOSO, Miguel Esteves. A causa das coisas, Lisboa: Assírio & Alvim, 1992.
______________________. A vida inteira, Lisboa, Assírio e Alvim, 1995a.
______________________ . Minhas aventuras na república portuguesa ,1995b
______________________. O amor é fodido.Rio de Janeiro:Francisco Alves 1995c
______________________. O cemitério das raparigas.Lisboa: Assírio & Alvim,1996
______________________. Último volume, Lisboa, Assírio & Alvim, 1993.
______________________.”Fica na Arábia Saudita, no deserto”. Lisboa, 1995.
Entrevista concedida a Tereza Coelho em Público em 30 de fevereiro de 1995
______________________. [Opinião sobre a "O cemitério das raparigas"]. Lisboa
1996. Entrevista concedida à Tereza Coelho no jornal Público em 7 de
dezembro de 1996.
_____________________. [O filósofo da Alcova], 1995. Entrevista
concedida a Fernando Venâncio em Jornal de Letras e Artes em 18 de
janeiro de 1995.
_____________________. [Tornei-me um eremita] Lisboa, 1999. Entrevista
concedida a João Paulo Cotrin em O independente em 24 de setembro de 1999.
Alilderson Cardoso nascido em 1972 , em São João de Meriti, Rio de Janeiro e formando em Letras pela UFRJ é Mestre em Literatura Portuguesa pela mesma instituição, autor da dissertação A comicidade crônica e o amor fodido na prosa de Miguel Esteves Cardoso.
