esquisito - sebastião edson macedo


eu tinha que fazer hora em manaus e resolvi ligar. eu sabia que era vacilo fazer. e não insisti de primeira. mas vacilo mesmo foi inventar nome e mostrar documentos burocratamente reluzentes pra locadora que me ofereceu a preço de feira uma linha de celular e uma acompanhante. foi constrangedor gaguejar em português e ainda ser tão educado. mas fiz bem em aceitar a oferta da moça: era mestiça, não me botava pilha, não era gastadeira, não era convencida, não fazia pergunta, nada. ficava lá fumando aquelas maconhas trazidas do maranhão e me esperava quando eu dizia pra me esperar. lúcia. dei pra ela o celular e usava sua leiguice como perfil razoável para uma usuária insatisfeita com os planos de previdência privada da cidade. isso me serviu de navegador. no final do almoço eu escolhi um advogado e dei a ele o número do telefone. quando eu já estava na sala de embarque, antes de começar a chover, entendi que o advogado tinha gostado da lúcia, e que a maconha poderia ser o único problema para eles nesse momento. foi quando eu comprei um cartão de telefone público e liguei pra casa. se conseguíssemos a indenização, seria melhor ficar longe dos dois, passar o feriado em marajó, ver os búfalos. mas ninguém atendeu. esquisito.


Sebastião Edson Macedo, poeta.

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