poemas - maurício chamarelli


Cantiga para ninar papagaios

                     Para Luís Augusto

Sempre que falo, falo do que sou
Não porque seja, mas, sim, porque fale.







Por exemplo o beco cinza

Quando passo o beco cinza,
Quando volto os olhos pelos passos dados dentro do beco cinza,
Quando penso que volto os olhos pra reconstituir os passos que transpuseram o beco cinza,

As ruas mudam de lugar,
e os paralelepípedos

Atrás de mim
à minha frente

E sou um desaparecido







Primeiro corpo ou escrito sobre a casa

A casa é o primeiro corpo que acorda em mim. Posso senti-la; por todos os lados e em lugar nenhum. Não acolhe, nem conforta. Abraça o vazio que me separa de suas paredes. A casa é um incômodo, ponto negro na visão de suas coisas.

Enquanto a manhã é o olhar reinante, ela se faz sentir suave, fome que não sacia, sono que não adormece. Mas quando o dia avançado lança por seu corpo luzes inesperadas, a casa não pára de me querer aprendiz de sua alquimia obscura.

Não escapo a seus limites. A casa é de jeito que não sei mais nada. Caminho por seus cômodos e é preciso escolher o que é meu dentre tantas fotos e pertences. Amanheço sem história, a casa é o pensamento do espaço. Abole o tempo no volver dos ciclos, quando a memória mesmo se torna um transporte geográfico: sinto um cheiro e estou no quarto, uma melodia me devolve à sala.

Algumas coisas que ficaram muito tempo paradas – as coisas ficam muito tempo paradas – algumas coisas que ficam muito tempo paradas, é nelas que encontro a maior aceleração. O matraquear das estátuas, às vezes uma pintura no quarto. As paredes.

Subindo e descendo em velocidade infinita, desenhando uma fuga de pincel estatelado, monocordismo obsessivo.
Corpo inteiriço correndo, imóvel, em todas as direções. Delírio espiralado a reinventar a física.

Assim a casa. A me tropeçar no mistério da vida a caminho do banheiro.
Ou sentindo o esvoaçar de pombas na espuma branca da pasta de dentes.

Um incômodo no pano da calça logo se tornará ser vivente
Me tomará pela mão e dará lições de estagnação.

É sempre a mesma coisa que aprendo da casa:
Como olhar-me no espelho.
Ou como não me ver, ou como sair às ruas, e é tudo o mesmo.

A casa me ensina suas verdades
E é sempre de paredes que elas falam.

Maurício Chamarelli nasceu em 1984 na cidade do Rio de Janeiro onde mora até hoje. Estuda Letras na UFRJ, toca saxofone nas horas vagas. Publicou alguns poemas em revistas e periódicos e lançou, recentemente, seu livro Corpo Tênue pela Editora Oficina Raquel.

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