carta ao pai: uma retórica da submissão - raphaella lira
Desafio posto ao leitor que abra qualquer de suas obras, o universo infinito de Franz Kafka se constrói com base no absurdo e na repetição. O que se encontra em jogo é a ação que nunca chega ao fim, um eterno retorno, no qual mostra-se como a vida humana é perene e sem propósito.
Os protagonistas de seus contos e novelas se empenham arduamente em encontrar uma resposta. O que encontram, entretanto, é que os múltiplos e infinitos caminhos levam a uma única constatação: a total ausência de Deus. Kafka prova, através de suas narrativas, como a transcendência é vazia. Essa transcendência ou negação de transcendência vem freqüentemente associada a imagem da lei e do poder.
O vazio que lhe era inspirado pela existência humana acabava sendo condensado através de metáforas. Como no caso do conto “Diante da Lei”, que em curtas linhas narra a odisséia de um homem em busca de uma justiça que o subjuga e o mantém à margem durante toda sua vida. Nenhum dos personagens parece encontrar aquilo que procura e a busca só encontra um fim na morte. Toda e qualquer possibilidade de ascese é negada aos personagens kafkianos, que não passam de meras marionetes nas mãos de um destino inexorável.
O mundo é constantemente retratado como uma espécie, como um tribunal, que apesar de carga de sobriedade, é repleto de absurdos que não causam estranheza a nenhum dos personagens. Uma narrativa que expressa com clareza essa construção, recorrente em Kafka, é O processo, pois nela é contada a prisão de Josef K., um cidadão aparentemente inocente que é julgado sem ter conhecimento do porque de sua prisão. (“Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum.”)
Chega-se assim a um ponto nevrálgico da obra de Franz Kafka: as constantes referências aos processos jurídicos, à Lei como uma instituição soberana e impassível. É mesmo possível afirmar que grande parte das narrativas escritas pelo autor envolvem julgamentos, prisões e punições, situações onde um determinado indivíduo se vê face a face com um sistema cujo poder é imenso e , sobretudo impossível de ser questionado.
O que seria então a Carta ao Pai?
Nessa obra, de caráter autobiográfico, Kafka dá vazão a todo sentimento de mágoa que havia acumulado durante toda a vida, em relação a seu pai. É também nesta carta que reside uma das chaves para a compreensão de sua escrita. Diversas vezes, ao longo do texto, Franz Kafka se refere ao pai como tirano, regente e mesmo Deus.
A hierarquização, a subordinação e o estar fora do mundo eram a transcrição de uma vida inteira subjugada ao pai. Numa passagem Kafka mesmo diz: “Minha atividade de escritor tratava de ti, nela eu me queixava daquilo que não podia me queixar junto ao teu peito”.
Dominador e inacessível, o pai era a Lei, sempre ostensiva e impossível de ser transgredida. Tal como a mão invisível e controladora de Deus, que é pregada pelas religiões. Assim, é possível ver como todos os sofrimentos que os personagens kafkianos trilham em busca de uma espécie de redenção só terminam por constatar que não existe redenção. É a transcendência vazia, a comprovação derradeira que nada existe, além daquilo que se pretende por real.
É importante ressaltar o papel que a figura paterna exercia nessa relação. Para Kafka, o pai era uma instância última e inquestionável, que fazia questão de mantê-lo fora de seu mundo. Todos os seus esforços nada significavam para o pai, que só chamava atenção para suas fraquezas e defeitos.
Assim, fica possível traçar um paralelo entre aquilo que o escritor viveu e como sua obra retratou isso, com base nos relatos que se encontram na Carta ao Pai. Os personagens kafkianos nunca transcendiam porque buscavam algo inexistente, da mesma forma que seu autor. Deus não existia, pois o pai era Deus e a única maneira de comprovar sua existência era o afeto, que havia se convertido no mais intangível dos sentimentos.
É provável que Franz Kafka consista num dos raros escritores dentre os quais a vida e a obra se encontram ligadas de forma tão peculiar. Essa ligação, que se dá através da Carta ao Pai, talvez transforme sua obra não só numa metáfora, mas numa alegoria da miséria e da submissão humana.
Raphaella Lira é graduanda em Literaturas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Há cerca de um ano vem pesquisando as narrativas de Kafka e Jorge Luis Borges através dos pontos de vista de grandes expoentes da teoria literária.
