lembranças de natal - renato mautempo


Céu azul. As mesas do bar com os coroas da área, a mulecada jogando bola e as senhoras nos portões: um bairro tranqüilo, como outro qualquer. O carro passa devagar em frente à casa.

Andando devagar, a pé, com a sacola das compras feitas no mini-mercado, o homem aparece e desaparece na cadência das luzes de mercúrio. Uma ou outra vez, se confunde entre as árvores. Pára um instante, confere algo na bolsa, olha e segue o caminho, contente por não estar muito longe. O carro ultrapassa devagar, já em frente à casa.
Bola Oito devagar no meio
- Deixei o carro no Edu, ali na esquina. Um amigo disse que ele é bom.
- É. Ele é um bom mecânico
Bola Sete devagar no canto, bola branca colada na mesa.
Olha o que resta e vai para o outro lado.
- Ainda tem mais uma queda. Diz como se pedisse mais uma cerveja.
- É. Uma.
Dez no meio, devagar. Branca aberta. Quatro bolas na mesa.
De imediato vai para o canto oposto.
Sete na caçapa do canto, com pressão. Branca aberta. Na tacada seguinte, a Nove cai no meio.
- Aí. O serviço tá pronto!
- Bem na hora. Toma aí o seu. Primeira vez que se olham nos olhos – ainda faltava uma partida –, mas não há palavra. Não há, em nenhum dos dois, aquele sorriso cúmplice de bons malandros.

Da porta, o rapaz se volta para o fundo, com o perfil obscurecido pela luz que inunda o lado de fora.
- Você já viu olhos tão verdes quanto os meus? E sai sem esperar resposta.
Silêncio.
- Dinheiro fácil, hein?
- Já viu esse tipo por aqui?
- Aqui, dinheiro não precisa de convite.
- Tô sabendo… Segura o seu.

O portão range. A luz do poste ilumina os degraus da porta da sala. Casa escura, Sara ainda não chegou. Antes de subir os degraus, pensa: Já é moça e tem juízo. Em seguida, encontra um envelope pardo no chão vermelho. Volta até o portão e apanha um cabo de vassoura velho, ali encostado. Primeiro bate de leve no envelope, depois com mais força. Vira-o de um lado para o outro, até que então suspira e o apanha com desânimo. Num sobressalto de lembrança, empurra a porta com o cabo de vassoura. Fechada. Passa a mão pela cara e entra, já cansado.

No sofá, com a luz do abajur, o rosto enrugado se contrai numa tentativa de ajudar o trabalho dos óculos esperei tanto por este dia, mas para você não deve fazer diferença. O envelope, junto com outros papéis, está ao lado. Folhas de jornal, um outro papel velho… enfim, papéis sabia que eu me formei em história. Cada linha é um sacrifício, mas, ainda assim, teima em não acender a luz. Ficava te imaginando fazendo a barba. Você nem sequer reconheceu meus olhos verdes. Tanto tempo, não é? Como poderia? Sabe, por muito tempo eu vivi sem uma meta, meio que sozinho, perdido. Já faz um tempo que o Carlos morreu, e o pior é que nem sei se o nome dele era esse mesmo. As coisas sempre foram assim para mim, sem passado sem futuro, sem referência. Mas quando uma faísca de raiva iluminou a minha apatia, eu acreditei que poderia te encontrar. Com o coração acelerado, o homem se levanta e da janela espia a rua, ouve ao longe os latidos dum cachorro, uma música qualquer e nada mais. Tive muito medo de procurá-lo, mas depois percebi que precisava disso. Precisava reatar os elos, buscar você para me entender, entender tudo. Você não sabe o quanto eu estudei. Noites encaixando pistas. Ansiava por te encontrar e te olhar nos olhos. Ansiava por este dia. Ao fim, encontra: Leia o outro papel.

Rio de Janeiro, 25 de Dezembro de 1978

Aqui é tão branco converso com todos busco alegrar-me para matar as horas sinto tanta saudade, tento não definhar para não ficar com cara de doente. Lembro do seu sorriso, vestido branco, aqui é tudo azul. às vezes paro na janela, vejo as pessoas será que vivem bem, fico me perguntando. É Natal, natal nunca dei importancia mas lembrei hoje de você, sempre que quero lembrar eu escrevo, tenho escrevido muito. Cacá veio me visitar é um bom amigo, me sinto em paz quando ele aparece, tudo está corrido o capital é foda cara. Não é sempre que ele pode vir e eu ainda não posso aparecer me conformo para não ficar doente. natal e o seu vestido branco, tudo branco se nevasse seria o fim. Sinto tanto a sua falta Sara, tá doendo tanto eu não consigo esquecer Sara Sara tão bonito quero sair sara quero sair, mas me seguro eu seguro essa barra passos no corredor tem gente vindo gentee vindo sabe que eu te amo corredor eu lenbro passos no coredor sabe que eu te amo ne sabe que te amo me larga por favor não me solta beto sabe que eu te amo beto por favor não sai não beto eu te amo beto euteamo por favor por favor tira não tira tira pelo amor de deus não beto eu te amo beto é só você só você como vai professor escrevendo eim sara não quero remédio e o remédio tá na hora oje não sara sasara vamos lá professor ele vai pagar quando eu sair sara eu vou fuder com ele sara vou mmatar um por um todo dia ele vai sofrer ta bom eu espero quero sair a bara tenho que segurar a barra doi tanto agora chega vam não me toqe fique ai, rapaz

O homem passa para uma folha grampeada atrás essa foi a última coisa que meu pai escreveu naquele maldito lugar. Do diário, restou apenas esta parte, que foi usada como prova. Só depois da morte do Carlos tive coragem de ir procurar o que há de meu nesse pesadelo. Sem entender o homem prossegue leu as notícias, conferiu as datas? Como será que os parentes liam, que pensamentos passavam pela cabeça deles. Consegue
imaginar?

MULHER DE MILITAR MORRE EM ATROPELAMENTO E ASSASSINO AINDA DEIXA UMA ROSA
( 25 de Março de 1986 )

FILHO DE MILITAR MORRE E OUTROS TRÊS RAPAZES FICAM FERIDOS, EM ATROPELAMENTO NA PORTA DE UMA BOITE
( 25 de Junho de 1989 )

Arfando e com os olhos marejados lembrou dos velhos tempos? Quantos você matou assim, sargento? Sabe que quando te vi, fiquei até feliz por você estar conservado. Correspondeu àquela imagem ideal de militar. Afinal, já tinha um tempo que eu não te via. Espero que você não tenha um ataque.

Soluçando, com a carta na mão, aquele velho sargento vai para o quarto buscar a arma, disposto a ir até o inferno. Mas antes sabe que precisa buscar referências, examinar a carta ou levá-la a quem possa. Como um raio, isso, conclui, terminar de ler a carta. Porém, essa maldita musiquinha não pára de tocar?

Você até adotou uma menina, sargento. Que será isso? solidão? E, que ironia, com o nome de Sara. Você nem lembrou… Nem lembrou que esse era o nome da minha mãe. Você tem mãe, sargento? Eu tinha e só fiquei sabendo muito tempo depois.

- Sara. Tenho que ligar pra ela!
Somente o silêncio no telefone. Meu carro está aqui fora, o telefone está mudo e Sara está comigo. Sinceramente, não demore, meu pai e eu temos contas a acertar contigo. Com desejo, Eu. P.S.: Faltam duas semanas, mas: Feliz Natal… Já parou para ouvir?

Christmas bells, Christmas bells,
ringing loud an’ strong
follow them, follow them,
you’ve been away too long!




Renato Mautempo, filho de um casal simples (um imigrante italiano e uma camponesa), nasceu no Rio de Janeiro, onde morou até completar sete anos. Depois disso, mudou-se, junto com a família, para Minas Gerais: três anos em Ubá e outros quinze em Juiz de Fora, cidade onde reside atualmente. Graduou-se em Letras pela UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora). Por ora, participa de um grupo de pesquisa no Departamento de Letras da mesma universidade.

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