poemas - maurício matos


a mão apócrifa

escrito à mão apócrifa em anexo,
já não se sabe como ou em que dias
se foi na solidão das noites frias
por outra se no amor durante o sexo

escrito em louvação às ventanias
ou para promover o desconexo
encontro entre o real e seu reflexo,
ao livro das terríveis agonias

perplexo encontro um livro de linhagens
e em branco o labirinto dos selvagens
humano ora concreto ora abstrato

e fico a contemplar suas viagens
das mênstruas e uterinas estalagens
ao peso sepulcral do anonimato


e,    move-se

e agora o que fazer?

engenheiros por todos os lados
descendo nos elevadores
subindo pelas escadas

e ao mesmo tempo

eu vejo as máquinas
matemáticas e físicas
a técnica e o cálculo

e tudo é belo

exibe-se o possível
percebe-se a verossimilhança
as engrenagens
o movimento

e,    move-se

é a terra
o carro alegórico de um mundo inteiro
o engenheiro integral
a máquina e a idéia da máquina

é o homem

é um homem sozinho
e a humanidade toda
e todos os mortos
e os que nunca nasceram
e jamais nascerão

e mais

e mais o eco de tudo
o que foi feito
e do que faço agora, pois
fazemos todos
e mais o efeito do que não farei

e,     move-se




Mauricio Matos (Rio de Janeiro, 1973) é Bacharel em Comunicação Social - Jornalismo (FACHA-RJ) e Doutor em Letras - Literatura Portuguesa (PUC-Rio). Foi Professor Substituto de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras da UFRJ (2004-2005). No Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, integra também o PPRLB - Pólo de Pesquisa sobre Relações Luso-Brasileiras.Como ensaísta, conta com diversas publicações em livros e periódicos especializados, no Brasil e em Portugal. É pesquisador de Pós-Doutorado na UFRJ pelo CNPq (2006-2007).

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