portugal e o outro: brasileiros e chineses na obra de eça - izabela leal
Foi como jornalista que Eça de Queiroz iniciou sua carreira no mundo literário. Com apenas 21 anos, começou a trabalhar como editor no jornal Distrito de Évora, de onde posteriormente se lançou como escritor, crítico e panfletário. Dentre os vários objetivos do jornalismo, Eça destacava aquilo que realmente o dignificava: a função crítica. Quando, mais tarde, em 1871, resolve lançar As Farpas juntamente com Ramalho Ortigão, inspira-se no modelo de Les Guêpes, de Alphonse Karr, cujo objetivo era justamente o de dar uma ferroada em seus leitores. Por outro lado, Eça afirmava que, acima de tudo, sua intenção era provocar o riso, essa antiga e infalível forma de crítica. Mas a função da crítica não se reduz ao riso, e o que Eça procurava “era obrigar a multidão a ver verdadeiro” (DALCÍDIO, 1945, p. 203). E o próprio autor esclarece: “Um grande pintor de Paris dizia-me o ano passado: a Multidão vê falso. Vê – em Portugal sobretudo. Pela aceitação passiva das opiniões impostas, pelo apagamento das faculdades críticas, por preguiça de exame – o público vê como lhe dizem o que é.” (1945, p. 203)
Ver verdadeiro. Propósito que o autor sempre perseguiu, mas talvez nem sempre tenha alcançado. Pois o verdadeiro também depende de um certo referencial, e é justamente esse referencial que tentaremos buscar através da leitura de três crônicas suas. A direção tomada por nosso estudo apontará de que maneira Eça constrói uma imagem de Portugal a partir de aspectos por ele observados na cultura de outros países, mais especificamente no Brasil e na China. E o que torna esse retrato de Portugal particularmente interessante é o fato de Eça partir de um determinado imaginário desses países, uma vez que escreveu sobre ambos sem jamais ter visitado qualquer dos dois. Heitor Lyra, um grande estudioso de Eça, comenta que os conhecimentos do autor sobre o Brasil eram, na sua maior parte, provenientes de amigos brasileiros ou de portugueses que haviam viajado para este país. Do mesmo modo, os chineses com que Eça travou contato eram todos imigrantes em Havana, na época em que ele fora cônsul em Cuba.
Assim, recolheremos, nos três textos escolhidos, as várias imagens de outros povos que Eça nos apresenta e tentaremos mostrar de que forma se desenha uma outra imagem – esta, do povo português – através da identificação com determinadas características alheias, que servem mais para formar um discurso sobre Portugal do que para propiciar um real entendimento sobre as outras culturas. Para começar com a relação entre Portugal e o Brasil, procuraremos observar, na crônica LXXIII de Uma campanha alegre, bem como na Última carta de Fradique Mendes, de que forma o autor recorre a uma delimitação de certas características atribuídas ao povo brasileiro para traçar a identidade do povo português.
A crônica que aparece em Uma campanha alegre em 1890 tem uma história anterior. Eça havia publicado n’As Farpas, em 1872, uma descrição sarcástica do brasileiro, caracterizando-o como um típico palhaço aos olhos dos portugueses. Sua intenção era denunciar a hipocrisia de seus conterrâneos, que nos jornais se referiam ao brasileiro como irmão, mas que, entre amigos, chamavam-no de macaco. A reação no Brasil foi muito negativa, gerando grandes conflitos entre os dois países. Com medo de acirrar as hostilidades, em 1890, ao publicar a crônica em Uma campanha alegre, Eça decide trocar a figura do brasileiro pela do torna-viagem, isto é, o imigrante que veio trabalhar no Brasil, fez fortuna e retornou a Portugal. Ao voltar para sua terra ele chega impregnado de diversas características do Brasil - “tons de chocolate, vozinha adocicada, tamancos primitivos” e de toda uma espécie de caricatura que tem como objetivo ridicularizá-lo. Mas o brasileiro, alvo de todas as chacotas, nada mais é do que o próprio português. É então que, por oposição a tudo isso que o brasileiro é, começa a se formar, inversamente, a imagem do português. A caricatura do brasileiro tem como objetivo assinalar uma certa naturalidade de caráter, o que pode ser observado através das definições de que o autor se utiliza: “O brasileiro é a expansão do Português, é o Português desabrochado”. E, com humor, Eça acrescenta:
E quereis uma prova? É o Verão! É o cruel Verão! Então sob a temperatura germinadora - o Brasileiro interior tende a florir, a desabrochar, a alastrar em cachos. Então começais a deitar o chapéu para a nuca, a usar quinzena de alpaca, a passear depois do jantar com o palito na boca. [...] Sabeis o que é? É o Brasileiro que lá tendes dentro na entranha, atraído pelo sol, a querer romper! (QUEIROZ, 2000, p.311)
E o que significa esse desabrochar do brasileiro? Significa que ele age de acordo com um comportamento que lhe é próprio e não com um modelo proveniente do exterior. Assim é que o brasileiro usa gravatas de cores esdrúxulas, enquanto o português limita-se apenas a fitá-las. O brasileiro é visto como um ser completo, no sentido de estar plenamente desenvolvido em seus traços fundamentais, revelando-se em toda a sua espontaneidade, ao passo que o português é um ser incompleto, contido numa certa rigidez. Desse modo, acredito que nos podemos aproximar daquilo que é o ponto central de sua crítica: o brasileiro é autêntico, ao passo que o português, nas palavras do autor, repete Paris.
Eis, portanto, uma das principais críticas de Eça: a da repetição de aspectos de uma cultura estrangeira sem que seja feita uma reflexão crítica sobre essa assimilação. Para entendermos exatamente a que se refere essa crítica, é preciso que nos detenhamos por um momento no processo através do qual os portugueses da época de Eça construíram sua própria imagem.
De acordo com Eduardo Lourenço, durante o século XIX Portugal é descrito por vários autores como um país em crise, atravessando um período de decadência generalizada da qual não consegue sair para acompanhar as modificações que ocorrem nos outros países da Europa. “Quando, nas primeiras décadas do século XIX, Portugal faz o balanço da sua situação no mundo, isto é, na Europa, e, ao mesmo tempo, se volta para o passado para saber se ainda terá futuro, fá-lo como se não fosse Europa, ou então como se fosse uma outra espécie de Europa” (LOURENÇO, 1999, p. 15).
Tal sentimento de inferioridade desencadeia no espírito português uma tendência a repetir, de maneira irrefletida, a outra cultura com a qual ele deseja se equiparar, como se fosse possível, através de uma série de imitações culturais e comportamentais, adquirir o mesmo prestígio do homem europeu. Essa outra civilização, à qual Portugal não se julga pertencer, é encarada como a portadora do progresso e da modernidade e tem como expoentes máximos a Inglaterra e a França.
É por essa via, então, que podemos chegar ao sentido da Última carta de Fradique Mendes. Nessa carta, endereçada a seu amigo brasileiro Eduardo Prado, Fradique nos dá a conhecer as suas opiniões a respeito da importação da cultura européia feita pelo Brasil. Com relação à correspondência de Fradique, uma primeira observação deve ser feita: as cartas de Fradique foram inventadas com a intenção de serem publicadas. Seu destinatário é apenas uma referência fictícia, através da qual Eça visava atingir um público leitor muito mais vasto. Portanto, na carta em questão, Fradique critica as direções tomadas por um Brasil que se quer definir a partir da imagem alheia e que está afastado de suas próprias raízes. Um país onde toda a cultura chega pelo paquete e que se lança com avidez nos modismos os mais impróprios, como se pode ver na seguinte passagem:
[...] cada homem procurou para a sua cabeça uma coroa de barão, e, com 47 graus de calor à sombra, as senhoras começaram a derreter dentro dos gorgorões e dos veludos ricos. Já nas casas não havia uma honesta cadeira de palhinha, onde, ao fim do dia, o corpo encontrasse repouso e frescura: e começavam os damascos de cores fortes, [...] todo o pesadume de decoração estofada com que Paris e Londres se defendem da neve, e onde triunfa o Micróbio. (QUEIROZ, 1911, p. 367)
Entretanto, ao olharmos mais atentamente, poderemos perceber que tal crítica pode muito bem ser transferida para Portugal, embora isso não seja mencionado no texto. Portugal e Brasil sofrem de um mal comum: a importação de uma outra cultura e a deterioração da sua própria. A saída apontada por Fradique seria a valorização da cultura nacional, o que não significa um atraso, ou que não se busque a modernização. Nas palavras de Fradique: “O que eu queria era um Brasil natural, espontâneo, genuíno, um Brasil nacional, brasileiro, e não esse Brasil que eu vi, feito com velhos pedaços da Europa [...]” (QUEIROZ, 1911, p.365). O tema central da carta resume-se, desse modo, à oposição entre genuinidade e imitação.
É justamente através da oposição apontada acima que poderemos abordar a terceira crônica. Em Chineses e Japoneses, publicada na Gazeta de Notícias em 1894, Eça toma como pano de fundo o conflito sino-japonês, mas não para tentar realmente comentá-lo, e sim para tecer uma crítica da civilização européia atual. Condenando a imagem deformada através da qual a Europa contempla as civilizações orientais, Eça nos oferece uma descrição do chinês tal como ele é visto pelos olhos europeus,
Um ratão amarelo, de olhos oblíquos, de comprido rabicho, com unhas de três polegadas, muito antiquado, muito pueril, cheio de manias caturras, exalando um aroma de sândalo e de ópio, que come vertiginosamente montanhas de arroz com dois pauzinhos e passa a vida por entre lanternas de papel, fazendo vênias. (QUEIROZ, 1997, p.33)
Observa-se um fato bastante curioso no caso da imagem do chinês: mesmo após ter notado o quanto o ocidental é incapaz de compreender essa outra civilização, Eça não consegue transcender a visão ocidentalizada sobre esse povo e, ao final da crônica, é com um olhar idealizador que nos deparamos, ao descrevê-lo como o imigrante trabalhador capaz de superar todas as contrariedades.
Na Havana, nas grandes plantações de tabaco, de açúcar, de algodão, em serviço onde todas as raças sucumbem, mesmo a negra, o chinês prospera, fica mais luzidio e gordo. Sóis tórridos, chuvas trespassantes, terrenos paludosos, micróbios e toxinas não têm ação sobre aquele ser, de aparência mole e como feito de borracha. (QUEIROZ, 1997, p.62)
Por outro lado, ao descrever a China enquanto nação, o autor tentará delinear o retrato de um país de cultura milenar, marcado por um desenvolvimento artístico e intelectual em muito superior ao do mundo ocidental, e por um povo dotado de grande sabedoria e valores morais bem definidos. Apesar de todas essas qualidades, a China se vê, de um momento a outro, envolvida em uma necessidade urgente de modernização, admirando então a única qualidade por ela percebida no homem ocidental: a de mecânico.
De certo modo, a situação da China, país cuja civilização é caracterizada pelo autor como “forte e doce” e que foi gloriosa no passado mas apresenta uma grande lacuna em relação à situação dos países modernizados do ocidente, pode ser, mais uma vez, equiparada à situação de Portugal. Assim como Portugal, a China sente-se ameaçada pela modernização de outros países (no caso, o Japão) e precisa entrar em contato com a industrialização e os avanços europeus para poder sobreviver.
Mas, na visão de Eça, ao aproximar-se da civilização ocidental, o chinês busca apenas extrair as técnicas que conduzem ao progresso, mantendo vivas as suas tradições. Para eles, a modernização não é um sinônimo de assimilação da cultura européia. Na temática da genuinidade em oposição à imitação, o povo chinês representaria um caminho de conciliação, em que a modernidade não sufocaria a tradição, ou em que a imitação não destruiria o genuíno.
Uma vez recortadas essas imagens das crônicas de Eça, podemos acrescentar que nosso objetivo é também o de ver, não exatamente o verdadeiro, mas sim de procurar ver um pouco além daquilo que os textos parecem mostrar. Não importa avaliar, na análise que intentamos fazer, até que ponto Eça se aproxima ou não das particularidades reais dos povos mencionados. O que importa, para nós, no caso das crônicas citadas, é buscar a série de identificações através das quais poderemos ir desenhando a imagem que o autor nos apresenta de Portugal. Essa imagem não está explícita, mas pode ser captada como no reflexo fugidio de um espelho. Acreditamos que o último retrato apresentado, o da China, desempenhe nessa dinâmica o papel do alvo a ser atingido, o espelho no qual Eça gostaria de ver seu Portugal refletido. Um país que buscasse a modernização para atingir o mesmo nível dos outros países europeus, mas preservando o que há de mais genuíno em sua cultura.
Bibliografia:
BRASIL, J. Eça de Queiroz, jornalista. In: PEREIRA, L. M. e REIS, C. (Org.) Livro do Centenário de Eça de Queiroz. Lisboa: Edições Dois Mundos, 1945
DALCÍDIO, J. Eça de Queiroz, repórter. In: PEREIRA, L. M. e REIS, C. (Org.) Livro do Centenário de Eça de Queiroz. Lisboa: Edições Dois Mundos, 1945
LOURENÇO, E. Portugal como destino seguido de Mitologia da saudade. Lisboa: Gradiva, 1999
NEVES, J. A. As relações literárias de Portugal com o Brasil. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1992
QUEIROZ, E. Obras de Eça de Queiroz: Uma Campanha Alegre. Lisboa: Livros do Brasil, 2000
QUEIROZ, E. Últimas páginas. Porto: Lello & Irmão Editores, 1911
QUEIROZ, E. Chineses e Japoneses. Lisboa: Edições Cotovia, 1997
SIMÕES, M. J. Eça e Fradique: as cartas e os seus temas. Queirosiana. Estudos sobre Eça de Queirós e a sua geração, n.2: 13-30, julho de 1992
VIEIRA, N. H. Brasil e Portugal - a imagem recíproca. Lisboa: Ministério da Educação, 1991
Izabela Leal é Bacharel em Psicologia pela UFRJ e mestre em Estudos de Literatura pela PUC-RIO. Doutoranda em Literatura Portuguesa pela UFRJ e bolsista da Fundação Calouste Gulbenkian. Professora do Centro Universitário Moacyr Sreder Bastos.
