as letras e o mercado das letras em portugal e aqui: entrevista de jorge henrique bastos


Jorge Henrique Bastos nasceu em 1964, em Belém do Pará, Brasil.
É jornalista, crítico literário, poeta e tradutor. Em 1989 mudou-se para Portugal, onde colaborou em revistas e jornais tais como Diário de Lisboa, Independente, LER, Colóquio-Letras e Camões.
No Brasil, colaborou na revista CULT. Organizou, em 1994, a edição de A criação do mundo segundo os índios Ianomami (ed. Hiena) e a primeira edição portuguesa de Macunaíma - o herói sem nenhum caráter (ed. Antígona, Lisboa, 1998). Publicou o livro de poemas A idade do sol (Fenda Edições, Lisboa, 1998) e a antologia Poesia brasileira do século XX - dos modernistas à actualidade (Antígona, 2002). Em 2000 foi responsável pela primeira edição brasileira do poeta Herberto Helder, O corpo o luxo a obra (Iluminuras, São Paulo). Co-editou a revista Construções portuárias (Íman edições), em 2002. Foi Jornalista do semanário português Expresso, entre 1994 e 2004. Atualmente, é editor da Editora Martins Fontes, no Rio de Janeiro.


Entrevista concedida a Raquel Menezes.

Eu gostaria de saber, para começar, acerca do mercado editorial português: como ele recebe, e você pode falar como editor, a literatura brasileira?

Eu vivi 16 anos em Portugal, e trabalhei primeiramente no meio editorial. Depois atuei como jornalista, nos últimos 10 anos. Se eu fosse fazer um panorama atual dessa situação que você coloca eu, sinceramente, diria que é bastante positivo. Se eu fosse, entretanto, fazer um retrato mais retrospectivo, diria que, por exemplo, entre 1989 e 97, 98, a presença da literatura brasileira em Portugal era mínima, só encontrávamos por lá nomes como Jorge Amado, Érico Veríssimo e pouco mais que isso. O Jorge Amado, nomeadamente, dominava a cena como, digamos assim, uma espécie de representante da literatura brasileira, devido ao sucesso de que ele desfrutou desde Gabriela, Cravo e canela, que virou, inclusive, novela de televisão, e também pela amizade que ele travou com diversos escritores portugueses. Entretanto, a partir de 97, 98, o panorama alterou-se completamente. Começou a haver uma grande atenção, por parte dos editores portugueses, em relação à literatura brasileira. Aí se começou a publicar Raduan Nassar, Clarice Lispector, poesia brasileira… Eu creio que isso se deu em virtude das comemorações dos quinhentos anos da chegada dos portugueses ao Brasil. Houve, então, um momento de intervenção e de, digamos, um encontro suave entre Brasil e Portugal, e entre as duas literaturas conseqüentemente. Aqui passou a haver também o mesmo trânsito, certos autores portugueses começaram a ser publicados – hoje, você sabe, a jovem literatura portuguesa é já publicada aqui: Gonçalo M. Tavares, Jose Luiz Peixoto, Inês Pedrosa, são autores que já têm publicação aqui. Em relação a Portugal é a mesma coisa. Portanto, o balanço que eu faço é bastante positivo. Eu não diria tanto que o publico português em geral é um voraz consumidor da literatura brasileira, nem sequer na área acadêmica, apesar de contarmos com trabalhos como o do Arnaldo Saraiva, na Universidade do Porto, e o do Abel Barros Baptista, da Universidade Nova de Lisboa, absolutamente irrepreensíveis. Mas, de fato, nessa área a literatura brasileira ainda não goza duma intensidade como, por exemplo, no Brasil. Porém, justamente por esse reencontro que tem havido nos últimos anos acho que a coisa vai melhorar, e o balanço, de fato, é positivo.

Você foi o responsável por uma edição de Macunaíma em Portugal. Até que ponto essa edição concorreu para o balanço positivo que acaba de fazer? Que outros fatores concorrem para isso, além dos quinhentos anos?

Minha contribuição é mínima, eu fiz apenas uma edição do Macunaíma depois de setenta anos, o que era uma lacuna grave em Portugal se nós pensarmos que naquele ano, 1998, Macunaíma tinha tradução para, se não me falha a memória, dez línguas. Logo num país como Portugal não haver edição desse livro era uma falha bastante notada. O que aconteceu foi que o editor da Antígona, para quem eu fiz este projeto, tem um certo veio, digamos, subversivo, ele publica sempre livros de ordem revolucionária, é uma espécie de editor utópico. Quando ele me fez o convite eu, de imediato, aceitei, e fiz uma edição que creio ser bastante interessante, pois preparei uma introdução e um vocabulário. A edição foi saudada na televisão e nos principais jornais – o Público, o Expresso, o Diário de Notícias –, mas, apesar de todo o aparato midiático, a edição não esgotou, não houve um sucesso de vendas do livro, tanto que até hoje continua vendendo aos pouquinhos, “pingando”, como se diz no meio editorial. Mas foi uma contribuição minha, e creio que os quinhentos anos foi, de fato, o grande impulsionador dessa atenção necessária que começou a aparecer dos dois lados do Atlântico.

Você viveu em Portugal durante dezesseis anos, e talvez confirme o que eu penso, que é o fato de em Portugal se ler mais que no Brasil. Entretanto, o Gastão Cruz, em certa entrevista, diz que, mesmo sendo assim, o que se lê em Portugal deve-se em grande medida a fatores extraliterários, como, por exemplo, a biografia interessante de certo autor, o que ocorre, e ele cita, com a Florbela Espanca, considerada por ele (não por mim, ressalto), uma poeta menor. Que pensa disso?

O impacto midiático sempre influencia a leitura, e isso acontece seja no Brasil, seja em Portugal, seja na Espanha, seja na França… Na verdade, isso é um movimento internacional que tem a ver com a própria presença da mídia em nossas vidas, normalmente propagandeando coisas que não têm grande valor. Eu nem acho que Portugal leia tão mais que o Brasil, nem acho que em Portugal se traduza tanto quanto no Brasil – esse mito, alias, caiu já por terra, pois a partir da metade dos anos 80 passou-se a traduzir muito mais aqui do que lá, cenário que era diferente até então. Além do mais, nos dias de hoje surgem frequentemente novas editoras, com projetos na área da ficção, da poesia, de ensaio… E nessa última área, a do ensaio, o Brasil, por assim, passou a rasteira em Portugal. A partir de certo momento, além de passarmos a ter acesso a coisas a que não tínhamos, por exemplo, até os anos 70, passou-se a publicar muita poesia no Brasil. O que aconteceu em Portugal foi um movimento contrário: a qualidade editorial piorou, no caso daquilo que se publica, e, hoje em dia, se você entrar numa FNAC do Chiado ou numa Bertrand, você observa rapidamente a situação do que se publica em Portugal. É verdade que tem havido um boom de autores jovens, mas isso tem a ver justamente com a queda de qualidade. É o caso, por exemplo, da Margarida Rebelo Pinto, uma ex-jornalista, loura, que tem uns romances muito fracos que vendem, entretanto, 500.000 exemplares, o que é um caso para se analisar pois, em Portugal, nem o Saramago vendia isso antes do Nobel. Mas é uma literatura, a da Margarida e afins, muito leve, a chamada “literatura pimba”. Evidentemente, as teorias da comunicação explicam bastante bem esse fenômeno, e o mau-gosto também o explica, é claro.

Fale um pouco das três vias – a do leitor, a do editor e a do poeta – pelas quais se dá sua relação com a poesia.

Meu primeiro livro de poemas foi publicado em Portugal. Eu nasci em Belém do Pará, de onde fui para São Paulo; de lá, vim para o Rio e só então me mudei para Lisboa. Mas em Belém em já tinha publicado uma parte de meu livro, através da Secretaria de Cultura, numa pequena coletânea de quatro autores. Quando eu me mudei para Portugal, eu já tinha escrito, entre São Paulo e Rio, um novo livro, mas quando cheguei lá reescrevi-o todo, e publiquei-o em 1998: é o Idade do sol. Ou seja, eu acabei, de certa forma, debutando lá em Portugal, como um autor brasileiro mas vivendo lá. Meu interesse pela poesia, nestas três vias que você apontou, traduz aquilo que é minha preocupação sobretudo com a linguagem, com nossa matriz, onde vamos encontrar toda a nossa origem, todo o nosso passado mítico, cultural e literário. Queiramos ou não, a língua nos foi dada por este passado; felizmente, herdamo-la e fomos capazes de desenvolvê-la e recriá-la, o que eu acho ser nossa grande força em termos literários.

Eu gostaria que você falasse um pouco da geração de poetas surgida nos anos 80.

Vamos analisar: se eu te perguntasse, qual seria o autor dos anos 80 que você citaria? Ninguém consegue citar. Dos anos 70 cita-se o Leminski, a Ana Cristina Cesar, o Cacaso, enfim, nomes que acabam por representar seu tempo. Você não pode dizer o mesmo dos anos 80, pois não há representante desta década, embora vários autores tenham publicado naquela altura, gente mesmo que estreou naquela época. Eu penso, por exemplo, no Regis Bonvicino, que estreou em 79, se não me engano, o Nelson Archer, que veio a ganhar mais peso na década seguinte. Mas eu devo voltar um pouquinho atrás porque ia esquecendo de algo importante: o que ocorre na década de oitenta se situa quase em seu final, quando o Augusto Massi lança a famosa coleção Claro Enigma, com uma série de autores, alguns desconhecidos, outros mais ou menos conhecidos, outros recuperados, como a Orides Fontela, que foi relançada mas vinha publicando desde os anos sessenta e depois em edições muito reduzidas, mas livros magníficos. Além dela, foi lançado o Ronaldo Brito, e o Paulo Henriques Brito, que ganhou o prêmio Portugal Telecom, surge aí, neste final de década quando o Massi junta esse pessoal. Mas como faltavam apenas dois anos para chegarmos à década de 90, toda a ressonância desses autores passou para a década seguinte, e isso acabou preparando o terreno para a geração que surgiu a partir dos anos 90 no Brasil, uma geração que você conhece muito bem, que vem do Carlito Azevedo ao Alexei Bueno e ao Rubem Rodrigues Torres Filho, e as mulheres surgiram também, curiosamente com maior intensidade nos anos 90. Eu acho, portanto, que só no final da década de 80 algo passa a acontecer no panorama poético brasileiro. E temos de lembrar também que a década de 80 foi quando ocorreu a abertura, que se deu em 79, e a ditadura militar acabou, a rigor, no movimento das Diretas, em 84. Foi um momento político muito importante no Brasil, os exilados estavam voltando, era importante o que estava acontecendo. Literariamente, contudo, isso não se refletiu tanto como, por exemplo, na geração de 70, que teve bastante militância política, como fez o Leminski, e que gerou para certos poeta o rótulo de marginal. Eu creio que teve de haver esta maturação até a década seguinte, mas, de qualquer forma, esses poetas que eu citei, como o Paulo Henriques Brito, o João Moura Júnior, a Orides Fontela, são poetas que ganham notoriedade aí. E são bons poetas, muito bons poetas.

E a poesia de hoje, com esta globalização e esta espécie de aceitação a tudo o que diz respeito à arte?

Para alguém como eu, que passou 16 anos na Europa embora viesse regularmente ao Brasil a trabalho ou em visita, o que mais me espantou logo a seguir a 2000 foi o surgimento de um grande número de autores produzindo no panorama brasileiro. Neste momento há um naipe bastante diverso, bastante múltiplo de autores novos, que vão dos vinte aos trinta, digamos. E vejo isso com certo contentamento. Eu, ao contrário de muitos autores que tenho lido em certas entrevistas, nos últimos tempos, criticarem a poesia brasileira, não sou tão pessimista. Eu acho que a poesia brasileira está adquirindo uma maturidade, até por esses jovens poetas que estão surgindo. E há algo notável: se analisarmos, por exemplo, a poesia espanhola, que eu conheço bastante bem, a nossa poesia não fica a dever nada. Eu creio que os espanhóis, e mesmo os portugueses, entraram mais numa via que eles chamam de poesia da experiência, ou de regresso ao real, da reinterpretação da realidade, que acaba por criar uma poesia muito fácil. Eu não vejo isso nos jovens poetas brasileiros, que têm uma certa elegância lexical. Alguns têm, é claro, essa facilidade, mas é possível congregar aí um elenco de autores que fazem uma poesia mais densa e bastante madura. Eu cito, por exemplo, o Ricardo Domenech, o Tarso de Melo, que é de São Paulo, o Sérgio Cohn, aqui do Rio… Eu acho que são poetas bastante interessantes, e com propostas literárias que, como eu disse, não ficam a dever a ninguém. É claro que as facilidades existem, e todo mudo às vezes procura estas facilidades, por várias questões, mesmo as de mercado e de mídia. Um exemplo bastante explícito disso é um certo poeta muito frágil, dono de uma poética muito tola, mas que se tornou um autor recorrente na mídia literária do Brasil. Decerto não vou citar seu nome.

Como você vê a produção atual, e talvez possamos chamar “jovem”, no cinema e na música?

No mesmo sentido em que na poesia. Outro dia mesmo um amigo me disse: “no Brasil se tem feito muita coisa ruim, o cinema brasileiro é uma porcaria, a música também…”. Eu vou num caminho diametralmente contrário ao desse meu queridíssimo amigo. Eu acho que, de fato, apesar de o cinema que se está fazendo no Brasil não ser aquele de que eu goste mais, também não acho que deva aparecer um novo Glauber Rocha, apesar de admirá-lo muito. O que ele fez está feito, assim como o que um Guimarães Rosa fez na literatura brasileira está feito; não adianta você querer ser um novo Guimarães Rosa, ou um novo Raduan Nassar. É preciso ter a liberdade, sim, mas com sua voz pessoal. E isso acontece tanto no cinema como na música, e mesmo nas artes plásticas. Há propostas tão interessantes que me sinto à vontade para dizer que, na Europa, uma realidade que eu conheço, não se vê um movimento assim. Por exemplo, se você perguntar a alguém que tenha um bom conhecimento melômano e perguntar, “qual é a música popular francesa?”, “qual é a música popular espanhola?”, eu duvido que alguém te cite um nome. Enquanto nós podemos dizer o nome do Lenine, do Zeca Baleiro, do Otto; esses artistas são jovens e estão fazendo uma música de que eu não necessariamente gosto, mas em alguns casos admiro e acho muito boa, e é música brasileira, que possui uma força incomensurável, de uma criatividade imensa. E seria bom que nossa poesia, sobretudo os jovens que estão escrevendo hoje em dia, tivessem essa criatividade e que melhorassem, apurassem, aperfeiçoassem a sua linguagem, para termos uma música e uma poesia com grande força criativa.

Então você diria que os poetas novos deveriam se inspirar nos novos músicos …

Eu não diria inspirar-se. Eu diria que o jovem poeta de hoje teria que conhecer bastante bem a sua tradição, do mesmo modo que os músicos brasileiros novos têm um sentido correto da tradição e fazem dela uma leitura, levando-a para adiante com seu olhar peculiar. Eu creio que, no caso da poesia, deveria acontecer o mesmo: o jovem ter um grande sentido do que há para trás. Na verdade o que estou dizendo não é novo, isso é uma lição poundiana: ter o sentido do make it new. De fato, é necessário todos os dias uma atitude de renovação, mas para isso é necessário conhecer o que ficou para trás. Mas isso não é nenhuma crítica à poesia brasileira, é só uma avaliação do que pode melhorar. Eu acho que ela não anda mal, ela está bem, mas os novos talentos podem perfeitamente aprofundar mais os seus projetos.

Você lançou uma antologia de poesia brasileira em 2002. Fale um pouco dela.

Este foi um projeto que fiz para a mesma editora pela qual fiz o Macunaíma. Ela foi publicada com atraso, pois deveria ter saído em 2000, na comemoração dos quinhentos anos. Mas o projeto estava numa editora, eu tive que tirá-lo de lá e publicá-lo por outra, o que atrasou um pouco. Eu sentia que, em Portugal, apesar de já terem existido antologias – uma dos anos 70, outra dos anos 80 feita pelo Carlos Nejar, uma antologia muito frágil –, elas eram poucas, e eu sentia a necessidade de fazer algo mais alentado. Eu resolvi criar dois pólos: começaria com a semana de 22, com os modernistas, e acabaria na primeira metade dos anos 90. São 64 autores, começando com o Mário de Andrade. O último poeta, já dos anos 90, é o Heitor Ferraz. O Manuel Costa Pinto fez uma crítica positiva sobre o projeto na Folha de São Paulo. Em Portugal, apesar de ela não ter esgotado, teve uma ótima aceitação e um aparato muito bom em termos de mídia. Eu considerava necessária uma antologia que perfizesse o arco entre os anos 20 e os anos 90, um espaço praticamente de setenta anos. Creio que, para o leitor novo, essa é uma antologia didática, pois eu fiz uma introdução bastante sucinta, um panorama geral dessas gerações todas, e também pequenas notas biobibliográficas de cada um desses autores, além de uma avaliação pessoal de cada um deles. É claro que, para mim, o que essa antologia tem de melhor são aqueles poetas que todos nós conhecemos desde jovens, que aprendemos na escola: Mário de Andrade, Drummond, Cabral, Ferreira Gullar, poetas por quem eu tenho uma grande admiração. Praticamente todos os poemas que eu antologiei aí têm para mim grande importância. Foi um projeto bom, que resultou, de certa forma. Eu me senti realizado com o projeto, e ele teve uma pequena ressonância aqui no Brasil. E que fique para a história isso que foi um trabalho feito em total solidão, não contei com nenhuma ajuda, fui a bibliotecas… Seria bom que agora acontecesse o mesmo aqui com poetas portugueses. Existe uma antologia, feita pelo Alexei Bueno e pelo Alberto da Costa e Silva, mas seria bom que houvesse mais.

Para encerrar: o Luís Miguel Nava é um exemplo de poeta português não publicado no Brasil. Que outros poetas você acha que faltam aqui?

Na década de 90 existem dois poetas que me parecem grandes, em qualquer perspectiva de tradição: um é o Daniel Faria, que morreu muito jovem, mas já tinha uma obra completamente feita. Outro é o Manuel Gusmão, que ainda está vivo e, apesar de não ser tão jovem, começou a publicar poesia no início dos anos 90.

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