poemas - caio meira


1.

Estou há quase dois anos em silêncio. Escuto e pronuncio vozes
que não me dizem respeito. Esse silêncio estomacal comprime
minhas estranhas e se transforma no som mais franco que pode
emitir meu corpo. Para tentar ser mais genuíno e ao mesmo
tempo interromper um circuito de dependências, passo a tesoura
nos cartões de crédito, ando a esmo pelo bairro, deito-me de costas no chão duro. Intimamente, porém, sei que não sou senão mais um espectador dessa agonia sem nenhum deus.

2.

Os móveis não rangem mais, as tábuas nunca mais vão estalar: o mundo se tornou irremediavelmente surdo. Tento segurar um lápis entre os dentes, na vã esperança de transmitir ao corpo estas últimas vibrações. Deixa estar, serei guiado agora pelo meu plexo solar, esse pequeno cérebro dentro de meu estômago. Nunca mais as senhoras perfumadas da sociedade, nunca mais os cavalheiros de bigodes torcidos! Vou agarrar o destino pela garganta: terei de ir além de minha própria tragédia, para que minha música vá além da música.

3.

Tenho apenas o que tenho, agora que minha estirpe virou bastarda. A vida não vem mais até mim, para lançar seus desafios. Sou eu quem deve ir atrás da vida, desentocá-la de seus refúgios. Devo também palmilhar os caminhos que desconheço, espreitando todo deslocamento súbito. E quando eu tiver de pôr meus bofes para fora, não terei um amigo para separar minha cabeça do pescoço. Agora, não sou mais que um caminho, nada mais que um caminho.

4.

Se eu pisar mais fundo no acelerador, nada vai correr mais rápido em minha vida. Cada coisa continuará com a sua própria pressa, ou paciência inesperada. Acidentes têm engrenagens que trabalham furtivamente, tanto à noite quanto à luz do dia. Essa música no toca-fitas canta o instante em que vivo, no meu país, na minha guerra. De dentro do turbilhão, enquanto faço a curva do mourisco, ouço subitamente a voz rouca de Jeanne Moreau: nada me deslumbrou.


Caio Meira nasceu em 1966, em Goiânia e, apaixonado pelo Flamengo, mudou-se em 1984 para o Rio de Janeiro (sem qualquer esperança, porém, de se tornar jogador de futebol). Graduou-se e fez mestrado em psicologia antes de se render à literatura. Doutorou-se em Poética, pela UFRJ, onde hoje dá aulas de teoria literária como parte das atividades de seu pós-doutorado. O percurso poético de Caio Meira é composto por 3 livros: No oco da mão (UERJ, 1993), Corpo solo (Sette Letras, 1998) e Coisas que o primeiro cachorro na rua pode dizer (Azougue, 2003). Os quatro poemas aqui publicados são inéditos, e deverão ser lançados em seu próximo livro, Outras vidas.

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