talvez roland, talvez roberto - alberto pucheu


A leitura antes da leitura – há livros que nos requerem quando ainda estão fechados, que nos provocam, já então, o desejo de escrita. Ainda embrulhado, o livro é livro, ensinando uma nova modalidade de leitura. Escrever, mesmo antes do que se habitua chamar de ler, quando a pré-leitura já é leitura, quando olhar, tendo o pensamento impulsionado à deriva, já é escrever: estupefação da vigília ser toda voltada para a coisa livro, favorecedora, enquanto obra, de novos sentidos. Misturando-se à escrita, uma forma dela, a leitura está para ser inventada. Se quem a inventa é o leitor, há, entretanto, a força primeira do livro a ser lido se oferecendo violentamente à criação, força de materialidades – ainda que amorosas, agressivas, ainda que agressivas, amorosas – a atravessarem quem se coloca em seu caminho. Não apenas o livro é uma reinvenção da leitura, como, na abertura de suas possibilidades, a leitura é uma invenção do livro. O livro inventa a leitura enquanto invenção. Onde a leitura se acreditava uma janela translúcida para o livro, ele a cerra com um tapume, oferecendo diversas latas de tinta para que o leitor impulsionado piche a madeira com derivações cada vez mais originais, saturando o texto anterior com sobreposições suplementares até torná-lo ilegível, até conquistar, pela força, a exigência de sua própria legibilidade, que, por sua vez, da mesma forma, deverá ser suplementarmente saturada até uma nova ilegibilidade, e assim por diante. A leitura, de fato, criadora entra num livro entendendo-se obrigatoriamente como desvio – seu poder é tornar esta apartação drástica, numa requisição de, com a nova acomodação das palavras, estabelecer sentidos que, tais quais os do livro lido, se mantenham ousadamente primeiros, jamais secundários.

Em nenhum momento de Barthes em Teclas, a narrativa plástica, maneira de tornar o pensamento visível e tátil, denega o modo de articulação do pensamento discursivo no dizível do teórico-literário, nem este, aquela. A fusão entre o plástico e a escrita, entre o visível-tátil e o dizível, caracteriza a intensiva indiscernibilidade de tal livro. Mesmo assim, talvez seja menos um livro de um completo indiferenciável entre escritor, artista plástico e designer do que de um escritor em um devir-artista plástico e em um devir-designer; não porque estes últimos estejam submetidos ao anterior ou sejam qualitativamente inferiores àquele, mas pelo fato de que, nestas experiências ou nas performances, por exemplo, ser escritor é o de que o artista-teórico em questão jamais pode se livrar, estando todo o tempo presente de modo irrevogável e irredutível. O escritor escreve uma obra que se deseja atravessada por alteridades, cujas evidências plásticas ou performáticas só desdobram as desde o começo existentes, enquanto escrita, na escrita. Seja ao fora das performances, das artes plásticas, de si ou de qualquer outro, lançada ao exterior, obrigando a tensão a se materializar, a escrita é a conquista de uma saúde, que traz, entre os seus modos, o de saber se outrar. Para diferir-se de si, para rachar-se enquanto um igual a si mesmo, para transformar o que se é em movimento ou devir, outrar-se nas forças mencionadas, mas, também, em outras, como nos parceiros com quem cria o projeto e a execução gráfica do livro, Adolfo Oleare e Lucenne Cruz.

Pelo artifício rigorosa e ludicamente construído, o livro leva a festa da beleza da diferença do sensório a soterrar, com seu brilho, a indiferença de uma profundidade imperceptível. Escrever é embrulhar, construir um invólucro que, na medida em que o dentro – o livro – já é o fora – o embrulho – e vice-versa, seja um elogio à superfície densa, a tudo o que, inapreensível, é visível, tátil, olfativo, audível, degustativo, legível, pensável… Embalando o livro, o papel-manteiga tanto absorve sua forma e suas exalações quanto transfere de si sua elegância translúcida, fazendo com que os suspeitados elementos distintos sejam inseparáveis. Mantendo uma força de atração na desconexão virtual dos dois corpos, o silêncio material intervalar os articula no espaço permissivo do embrulhar e do desembrulhar. Com as dobras, a delicadeza do branco do embrulho e a insinuação magenta do que está resguardado têm a voltagem de sua tensão ampliada ao extremo no lacre vermelho. Ponto de biblioporosidade erótica, fluido aparentemente solidificado na única encruzilhada das dobras (onde, mais opacamente, nas finas extensões de suas faixas, o branco sobre o branco recusa, ao olhar externo, o que está no interior e se anuncia pelo resto do papel), o lacre sangüíneo coagulado salta à vista, garantindo o desejo da violação e todo o cuidado necessário a este momento. Enquanto greta ou passagem, a coagulação é o estopim sinalizador para a libido atiçada vará-la, em busca do que, apesar de embrulhado, e mesmo no embrulho, continua fluindo.

Não se trata de embrulhar para melhor guardar uma essência – finalmente, o livro verdadeiro – que, quando descoberta, tornaria o papel do embrulho, como o de inúmeras embalagens de produtos mercadológicos, descartável. Industrial e artesanalmente, o embrulho e o embrulhado compõem a coisa livro, uma inerência de superfícies diferenciáveis. Sem um de seus termos, papel envolvente e papel envolvido desenvolvendo uma mútua permeabilidade no mais amplo sentido do livro, como palavras a comporem frases na sintaxe da obra, não existe Barthes em Teclas. Uma presença plasmadora os mantém em um arranjo prenhe de dobramentos e desdobramentos. Como abri-lo, preservando a força tensiva da obra? Como, depois de aberto, guardá-lo – reembrulhá-lo, relacrá-lo? Em seu invólucro, a coisa livro não permite que se retire o livro pela lateral, num desejo puritano de, preservando-o intacto, não romper a prega e a resina. O livro é libertador. Eis o jogo: ainda que delicadamente, é preciso assumir a violação, arroubar-se diante da cera rubra e do fino papel branco… A sensação inusitada de, sem qualquer traço metafórico, abrir o corpo erótico de um livro, nele mesmo, performático. É preciso tê-lo entre as mãos, olhá-lo, admirá-lo, manuseá-lo, tateá-lo, ficar com ele em suas tais superfícies.

Aberto, o livro: o branco do embrulho e, do antes embrulhado, um vinho embriagante com as letras impressas do título e do subtítulo em mancha mínima de uma outra cera (desta vez, transparente) sobre a parte inferior da capa – BARTHES EM TECLAS; Notações de Teoria da Arte. No canto superior à esquerda, com a mesma transparência, em letras de tamanho significativamente inferior ao do título, equiparando-se ao do subtítulo, o nome do escritor. A única variação colorida à monocromia da capa: discreta e atraente, ligeiramente acima do nome próprio impresso, roçando nele, a assinatura de autoria em letras douradas manuscritas. Ela não foi assinada pelo autor para assegurar a este livro de baixíssima tiragem sua raridade ainda maior, mas por um de seus duplos que, inautenticando o próprio da identidade da assinatura, o outram. A já mencionada Lucenne Cruz, cuja grafia, ao longo de todo o livro, nos espaços vazios atentamente escolhidos para compor a beleza do sentido do todo, repetirá, em sua diferença, a impressão transparente, completando o artístico editorial da coisa livro, marca sua presença na capa. No mútuo devir, Roberto Corrêa dos Santos empresta seu nome a Lucenne Cruz, que, assinando-o impropriamente, lhe empresta sua grafia, fato cujo desdobramento ocorrerá por todo o livro com o texto publicado. O que mais sugere essa dupla trajetória da escrita a colocar o pensamento em ação, cujas frases se fazem, a cada página, simultaneamente, impressas e gestuais, na mancha da transparência da cera e no colorido corporal de uma escrita única?

No vetor da mancha da cera transparente, um mínimo de escrita, uma escrita mínima, quase a se confundir com o silêncio do fundo da página, suficiente para, dele, conseguir se distinguir. Primeiro traço da escrita: a sutileza maior do relevo de um mínimo vibrátil. Por, para caracterizar plenamente a escrita, não bastar tamanho silêncio de tão pouca distinção, sobreposta à quase transparência das frases impressas, surge um segundo vetor, a elegância do manuscrito ouro redigido manualmente em cada exemplar, lembrando o grafismo pictórico de Barthes. À escrita, parece igualmente necessária uma saturação maior. Se o gestual da grafia requer lê-la por fora do sentido, antes do sentido e depois dele, no movimento mesmo de sua escrita corporal, de sua forma irrepetível, de sua cor resplandecente, no lugar estratégico de seu posicionamento, ele requer lê-lo também no sentido da escrita enquanto propiciador de pensamentos abertamente construídos. Para usar o termo, tudo aqui é escritura. Da quase transparência à saturação maior de seu valor interventivo, o sentido, ao mesmo tempo em que, por um triz, se mistura a ela, quer ensolarar a página. A um só tempo, embriaguez e luminosidade, transparência e saturação, silêncio e ruído, lampejos que eclodem dando a perceber por todos os cantos, de si, em si, seu próprio reverso. Eis a escrita em seu duplo traço constitutivo.

Com o livro se mexendo por entre as mãos, acaba-se por descobrir que o título fora lido apenas pela metade; a outra parte, bem como, logo abaixo, o nome da editora, encontra-se na quarta capa: Talvez Roland. Talvez Roland Barthes em Teclas, o título integral com o livro aberto em seu meio expondo simultaneamente a capa e a quarta-capa, de tal maneira que, se não fosse, ainda que fina, a dobra da lombada, o nome e o sobrenome do pensador francês apareceriam grudados. Grudadas, também, outras letras, e, mais do que grudadas, interpermeando-se umas nas outras no procedimento exemplar do livro. Há, entretanto, a dobra, e havê-la requer a refeitura do título: Talvez Roland / Barthes em Teclas. Um título barrado pela lombada a criar uma espécie de enjambement, cuja interrupção sonora e plástica, oferecendo os dois momentos segregados, também presenteia o leitor com o sentido corrido da continuação sintática. A dinâmica da continuidade e da interrupção como procedimento reflexivo a impedir uma leitura desatenta atravessa o jogo da capa e da quarta-capa para adentrar as páginas textuais. As duas primeiras exigem uma leitura horizontal de cada frase prolongada retilineamente da página da esquerda à da direita para, só ao fim desta, retornar ao princípio da da esquerda. Quando, ao lê-las, nos habituamos a tal conduta, tentando prossegui-la automatizadamente nas páginas seguintes, somos obrigados a nos desautomatizar, pois só nas duas últimas retorna a leitura da frase atravessadora das páginas abertas, enquanto que, ao longo do plano intermediário do livro, ou seja, desde a terceira página até a antepenúltima, o sentido da frase se estabelece em apenas uma página.

Talvez, Roland, porque o criar - em roland barthes não é apenas um criar em Roland Barthes; ele se dá em Roland, em Roberto, em Friedrich, em Clarice, em Sigmund… O talvez remete o leitor, infinitamente, a mais um, + 1, + 1, + 1… Talvez, R., talvez, F., talvez, C., talvez, S., talvez, R., talvez… Roberto e Roland, cada um intensificando o outro na diferença da criação. No livro, se fala do criar na mesma medida em que criar, no livro, fala. Talvez, em Roland. Talvez, em Roberto, que escreve um Barthes em Teclas de máquina de escrever ou de computador; nele, o dito é o que se tem de bater repetidamente nas mesmas teclas, desde que as notações, de teoria da arte, sem querer se estabelecer fixamente, soem musicais, poéticas, flexíveis, deslizantes, em busca de múltiplos futuros. Em Barthes ou em Corrêa dos Santos, as teorias, sempre plurais e criativas, modificadas por notações que constantemente as lançam em devires, nascem quase de um nada; são percepções sutis que se enformam subitamente, que assumem sua força, sem que intervenha nenhum conceito duro e prévio; apenas lampejos[1].

A cada início de página, a cada princípio de frase, a musa poética do texto, a música do livro, requer, monótona ou monocordicamente, uma repetição: criar - em roland barthes… criar - em roland barthes, criar - em roland barthes, criar - em roland barthes. Sabendo que o criar – em roland barthes é um criar talvez Roland Barthes em teclas, recriando-o, o que se cria é a criação mesma. Deixar a criação ser criada para, a todo instante, se desdobrar. A escrita ensolarada de Roberto Corrêa dos Santos-Lucenne Cruz adverte que o dourado ensolarado da letra leva a teoria ou a crítica a recusar qualquer espécie de auto-sombreamento em relação àquele a partir de quem se fala. De Roland a Roberto, tudo é sol, tudo quer iluminar, tudo quer se impor. Em busca da fluência afirmativa da renovação de um afeto cada vez melhor, de uma escrita cada vez melhor, um livro da vida em seu êxtase, jogando para longe o peso do pré-estabelecido. Nem origens nem teleologias; pulsões do agora expandindo e intensificando o corriqueiro habitual.

Chegará o tempo de ler outro volume do livro – não um segundo, mas simplesmente outro –; por enquanto, ele se mantém, tal qual o aqui trabalhado quando recebido, inteiramente embrulhado. Desembrulhá-lo é perder o lacre, não mais o poder abrir, perder o momento passageiro, fortemente erótico, da abertura, que, de modo diferente, se preservará num texto sempre por se abrir. Como o momento do primeiro beijo na beleza, dá-lo, saber que será dado, mas estender ao máximo o movimento dos rostos se aproximando, delongando ao extremo a experiência, aproveitando a eternidade dos poucos segundos que passam e só retornarão diferenciadamente. Neste momento, antes de abrir um outro volume para ver do que trata, penso: um livro fechado, um aberto: eis o livro único, em sua força maior.

[1] SANTOS, Roberto Corrêa dos. “Barthes, A Força, A Brandura”. In: Modos de Saber, Modos de Adoecer. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999. p.91-100. p.95.


Alberto Pucheu nasceu no Rio de Janeiro, em 1966. É escritor e professor de Teoria Literária da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Publicou os livros Na cidade aberta (Rio de Janeiro: Editopra U.E.R.J, 1993); Escritos da freqüentação (Rio de Janeiro: Editora Paignion, 1995); A fronteira desguarnecida (Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 1997); Ecometria do silêncio (Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 1999); A vida é assim (Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2001); Escritos da Indiscernibilidade (Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2003). É o autor de Guia conciso de autores brasileiros (Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2002), com Caio Meira. É o organizador de Poesia (e) Filosofia, por poetas-fiósofos em atuação no Brasil (Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 1998). Traduziu Tagore, Rabindranath. O Coração de Deus (Rio de Janeiro: Ediouro, 2004), poemas místicos. No momento, A Fronteira Desguarnecida (Poesia Reunida - 1993-2007) e o livro de ensaios Pelo Colorido, para além do Cinzento estão no prelo, pela Azougue Editorial. Mais em seu site.

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