dois elos do cânone perdido (à margem de eça de queirós) - otávio rios
A época compreendida entre o final do século dezenove e as duas primeiras décadas do vinte é costumeiramente conhecida como um período marcado pela ausência de autores que figuram no cânone literário português. Essa lacuna pode ser explicada, em parte, pela grandiosidade atingida pela obra de Eça de Queirós, o que, de certa forma, impediu que outros grandes escritores ganhassem maior destaque.
Outra questão própria do período finissecular é a existência concomitante de estéticas literárias distintas, por vezes conflitantes, o que indicia a efervescência cultural do fin de siècle e, sobretudo, a aura de crise e revolução que se instalara por toda Europa e que, aos poucos, chegava a Portugal. Dentre os mais importantes prosadores em língua portuguesa desse período, destaco Carlos Malheiro Dias e Raul Brandão, ambos esquecidos pela historiografia literária.
Carlos Malheiro Dias figura entre os mais importantes escritores luso-brasileiros do período finissecular, grande parte devido a seus esforços em estreitar os laços entre Brasil e Portugal. Iniciou sua carreira em 1893, colaborando em periódicos como A Semana e O Cruzeiro, sendo fundador deste último. Desde cedo foi comparado a Eça de Queirós por seus dotes literários, pela tendência realista-naturalista e pela repercussão que seus textos geravam: não foi à toa que Malheiro Dias sucedeu a Eça de Queirós na Academia Brasileira de Letras como sócio-correspondente, tendo tido a candidatura apoiada por Euclides da Cunha, Olavo Bilac, Salvador de Mendonça, entre outros intelectuais da época para ocupar a cadeira de número dois.
Malheiro Dias exerceu importantes atividades de difusão cultural no Rio de Janeiro durante as décadas de vinte e trinta: foi o grande influenciador e primeiro presidente da Federação das Associações Portuguesas, fundada em 1931, e contribuiu significativamente para soerguer o Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro da crise que atravessava nos primeiros anos do século XX. O romancista representou a ponte amiga entre Brasil e Portugal, vivendo largos períodos num e noutro.
A crítica julgou Malheiro Dias como sucessor de Eça de Queirós, como nos informa não apenas a dissertação de Susanne Castrillon (2002), defendida na Universidade de São Paulo (único trabalho acadêmico brasileiro, que estuda a obra deste escritor), mas também o texto de Jorge Bigotte Chorão (1992), ao referir-se a Malheiro Dias como “herdeiro” de Eça. Entretanto, é somente em 1896 que vem a lume o primeiro romance do escritor, que desencadeou uma ácida querela entre este e a crítica literária carioca. Talvez seja em grande parte devido a essa desavença que sua obra foi esquecida.
A Mulata foi motivo de rejeição até mesmo por parte de seu autor, que, ao ser questionado pela imprensa brasileira, rebateu afirmando que o romance em questão já não deveria mais ser considerado parte de sua obra literária, fato que talvez tenha contribuído para o alheamento de A Mulata em relação ao próprio microcânone de Malheiro Dias. Estamos diante de um caso de texto literário desautorizado.
Insistindo na comparação com o vate do realismo português, é curioso lembrar que Eça também negou a edição princeps de um de seus livros mais polêmicos: trata-se de O crime do Padre Amaro, versão de 1875, publicada em fascículos na Revista Ocidental. A atitude de Eça de Queirós foi decisiva para a não-vulgarização desta versão do texto [1] , cuja circulação ficou, posteriormente, mais restrita ao meio acadêmico e/ou aos editores críticos. Como se verificou, os dois autores tiveram atitudes similares, mas com resultados bastante distintos, uma vez que Eça de Queirós integra o núcleo duro do cânone da língua portuguesa, ao contrário do autor de A Mulata.
De modo semelhante a O crime do Padre Amaro, o texto de Carlos Malheiro Dias está comprometido com os ideais estético-filosóficos da segunda metade do século XIX. O próprio título já indicia o tema central da obra: a fixação de uma imagem estereotipada de negra e prostituta, personagem representativa da decadência e da degeneração do sistema nacional. Em Honorina, protagonista d’A Mulata, espelham-se as divergências e as inconsistências da sociedade brasileira daquele tempo. À luz da estética naturalista, a protagonista vive uma atmosfera de boêmia e morte, revelando tendências do escritor empenhado em explorar a questão da evolução do homem, o determinismo geográfico e a patologia social.
A inquietação que movia C. M. Dias encontra similaridade no eixo-motor que impulsionava Raul Brandão. Sua principal obra, Húmus despertou interesse expressivo nas casas editoriais e muitos foram os intelectuais que sobre ele escreveram estudos e comentários críticos em periódicos de grande relevância em Portugal à época, como A Águia, A Manhã, Diário de Notícias e Seara Nova, bem como em livros de crítica literária (Os Poetas Lusíadas, de Teixeira de Pascoaes, por exemplo). O romance, publicado inicialmente em 1917, chamou a atenção da elite cultural portuguesa durante a década de 1920 e seu autor é considerado como uma das mais presentes personalidades das letras desse período.
Raul Brandão participou da fundação da Seara Nova e integrou a diretoria do periódico até abril de 1923, foi sondado pelo governo português para compor a missão diplomática enviada à Exposição do 1° Centenário da Independência do Brasil e esteve à frente do movimento pró-Columbano de 1929 [2]. Além de uma intensa atuação política, manteve um contínuo diálogo epistolar com outros escritores e intelectuais lusitanos, com destaque para Câmara Reis, Raul Proença, Teixeira de Pascoaes e Vitorino Nemésio.
As atividades de cunho político e cultural eram freqüentemente exercitadas por Brandão, alçando-o a um lugar de grande relevância na sociedade portuguesa. Entretanto, sua produção literária, apesar de ter atingido um grau de notoriedade no primeiro quartel do século vinte, caiu no esquecimento do público leitor. Maria João Reynaud (2000), em sua introdução à edição crítica de Húmus, esclarece que uma das causas para a negligência da historiografia e crítica literárias em relação às obras brandonianas, deve-se à interpretação errônea de que o escritor do Douro não produzia textos inseridos no modelo canônico de romance oitocentista por ser inábil para a literatura em prosa, peculiaridade da escrita do autor interpretada como “o reflexo de uma deficiência estrutural e não como um inequívoco sinal de modernidade.” (Reynaud, 2000, p. 12).
Uma particularidade dessa obra-prima que deve ser mencionada é a existência de três versões distintas do texto, todas levadas a cabo pelo autor[3] . Após a princeps, Brandão refundiu Húmus por duas vezes e as novas feições do romance vieram à baila em 1921 e 1926. A escolha de uma ou de outra versão, fica ao sabor de leitores comuns, estudiosos da Literatura e editores críticos, variando de acordo com o objetivo de cada leitura. Recentemente, Maria João Reynaud empreendeu ao cotejamento das versões e publicou, pela editora Campo das Letras, uma caixa com os três volumes, sendo os dois primeiros em fac-símile e o último como edição crítica.
O texto de Raul Brandão rompe com o padrão estético exercitado por Eça de Queirós e Carlos Malheiro Dias, sobretudo na forma de composição do romance enquanto gênero literário e na temática da obra. Enquanto estes são grandes expoentes do que Vergílio Ferreira denominou de “romance-espetáculo” (Ferreira, 1965), Húmus prima pela subversão do romance canônico do século XIX e por uma tessitura permeada de divagações, ponderações e questionamentos do narrador-personagem.
Por muito tempo a crítica portuguesa acreditou que Raul Brandão não sabia contar histórias, que seus romances padeciam de uma imperfeição. Pensavam que o escritor de Húmus havia malogrado na empreitada de narrar. Foi somente após a visibilidade dada ao noveau roman francês e a publicação de estudos críticos que aclamavam a genialidade desse novo modelo que sua literatura pôde ser vista como detentora de originalidade e configuradora de um novo padrão de romance para a ficção portuguesa do século vinte.
Instigante é o texto publicado por Teixeira de Pascoaes na revista A Águia, em que discorre sobre El-Rei Junot, peça de teatro escrita por Raul Brandão em 1912 :
Eis o Verbo em delírio! E eis a Tragédia, e nova tragédia e profundamente lusíada! E assim, Raul Brandão deve ser colocado entre os nossos raríssimos gênios criadores e representativos. É triste que esta obra, tão intensa e profundamente dramática, tão reveladora do nosso Povo, não possa ser compreendida, por enquanto, em Portugal, onde o gosto literário não vai além dum certo lirismo exterior e musical… (Pascoaes, 1914, p. 31)
Pascoaes, anos antes da publicação do romance, deixa entrever certa falta de prestígio, que acompanhará Raul Brandão durante sua carreira literária. Mesmo assim, a influência deste foi decisiva ao longo do último século, posto que Húmus constituiu-se em verdadeiro romance de formação de gerações sucessivas de ficcionistas. Estão na esteira dos que Brandão influenciou decisivamente a escrita, todos confessos e nem por isso menos brilhantes, Almeida Faria, Agustina Bessa-Luís, Augusto Abelaira e Vergílio Ferreira, este para quem Raul Brandão foi objeto de estudo e modelo estético.
Estamos, portanto, diante de dois autores e dois romances esquecidos pela academia e pelo público leitor, mas inegavelmente importantes para as literaturas de língua portuguesa. São dois elos perdidos na cadeia do cânone literário, cuja receptividade das obras não correspondeu à magnitude dos textos. Se Malheiro Dias foi considerado o sucessor natural de Eça de Queirós, Raul Brandão reuniu verdadeira casta de pensadores na década de 20, e ambos se projetaram como influências para seus coetâneos e sucessores, embora não tenham gozado do prestígio que suas obras merecem. Por fim, sublinho que A Mulata ainda carece de uma edição crítica de qualidade[4] ,uma vez que após as duas edições de 1896, disponíveis juntamente com o manuscrito autógrafo no Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, apenas em 1975 o romance foi reeditado, dessa vez pela Livraria Arcádia Editora. Temas e fatos expostos, falta cumprir-se a pesquisa aqui sugerida.
[1] Quando penso em vulgarização, refiro-me ao processo de estabelecimento de uma vulgata da obra, segundo a terminologia e método da Crítica textual moderna. Para maiores informações, ver: Castro (1990).
[2] Movimento que exigia a permanência de Columbano Bordalo Pinheiro no cargo de diretor do Museu Nacional de Arte Contemporânea mesmo após o jubilamento do artista em 1929. Para maiores informações, consultar MENDES (1959).
[3]Tratam-se de três variantes autorais, como as três versões d’O crime do Padre Amaro.
[4] Diferentemente de Húmus, como foi demonstrado no decorrer deste texto.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CASTRILLON, Susanne Maria Lima. A mulata de Carlos Malheiro Dias: imagem e poder. 2002. 200f. Dissertação (Mestrado) - Programa de Pós-Graduação em Estudos Comparados de Literatura de Língua Portuguesa, Universidade de São Paulo, São Paulo.
CASTRO, Ivo. Enquanto os escritores escreverem … (Situação da crítica textual moderna). Conferência plenária, IX Congresso da ALFAL, Campinas, Mimeo, 65 p. 1990.
CHORÃO, Jorge Bigotte. Carlos Malheiro Dias na ficção e na história. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1992.
FERREIRA, Vergílio. Nota sobre o romance de idéias. In: Espaço do invisível: ensaios. 1ª ed. Lisboa: Arcádia, 1965. v. 1.
PASCOAES, Teixeira de. El-Rei Junot por Raul Brandão. In: A Águia. Lisboa, 2ª. série, n° 31, pp. 30 e 31. jul. de 1914.
REYNAUD. Maria João. Introdução. In: BRANDÃO, Raul. Húmus. 1ª ed. fac-similada (Renascença Portuguesa, 1917). Porto: Campo das Letras, 2000.
BILIOGRAFIA SUGERIDA
ABREU, Maria Fernanda. Mulata e Histérica: um Retrato Brasileiro de Carlos Malheiro Dias. In: BERARDINELLI, Cleonice. Figuras da Lusofonia. Lisboa: Instituto Camões, 2002.
BRANDÃO, Raul. Húmus; edição organizada por Maria João Reynaud. Porto: Campo das Letras, 2000. 3 v.
DIAS, Carlos Malheiro. A Mulata. 1a. edição. Rio de Janeiro: Livraria do Povo - Quaresma & Cia, 1896.
MENDES, Manuel. Raul Brandão & Columbano. Lisboa: Jornal do Fôro, 1959.
LOURENÇO, Eduardo. Dois fins de século. In: Atas do XIII Encontro de Professores Universitários de Literatura Portuguesa. Rio de Janeiro: UFRJ/Calouste Gulbenkian, 1993.
REYNAUD, Maria João. Metamorfoses da escrita: Húmus, de Raul Brandão. Porto: Campo das Letras, 2000.
Otávio Rios nasceu em 1984, em Fortaleza, Ceará. Graduou-se em Letras pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Atualmente cursa Mestrado em Letras Vernáculas (Literatura Portuguesa) na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), recebendo financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) para o desenvolvimento da dissertação Variantes textuais e Construção narrativa em Húmus (título provisório), sob orientação da Professora Doutora Luci Ruas Pereira.
