marienbad


                                                      ricardo pinto de souza


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Até onde nos leva uma palavra? Ouro, glória, amor, deus, as grandes, seus paliativos, desvios e opostos, e também sua especialização lenta e desgastada em fantasias musicais: um apartamento, ou celebridade, ou modelo ou milagre. Finalmente, seus restos fantasmáticos na vivência, o espaço pode ser preenchido por cada um. E até onde nos levam, as palavras?

Uma palavra por exemplo: Marienbad. A anedota conta que um Goethe de 74 anos se apaixona por uma jovem de 19, Ulrike Von Levetzow. Conta também que o velho a pede em casamento, ao que a garota obviamente recusa. Deste conjunto meio ridículo de circunstâncias, nascem três poemas, conhecidos geralmente como “trilogia do sofrimento”, ou “trilogia da paixão”. O segundo movimento, a Elegia, é chamado também de “Elegia de Marienbad”. É essencialmente o contrário da sabedoria, e bastante faustiano: um Goethe que trocaria as suas sete ou oito obras primas por uma noite com Ulrike, a possibilidade de ser jovem de novo, de não ter o jogo já feito e ganho, de poder arriscar, mesmo perder, mas de não ser Goethe velho e meio divino obrigado a se recolher. Uma palavra é este diabo no corpo, este apego e desapego construindo o ridículo e o espanto? Marienbad? O contrário da sabedoria, Goethe grudando-se a seus ossos fracos, Goethe recusando tudo que o torna Goethe, e toda sua grandeza jogada em aposta em uma e por uma noite em Marienbad. Qual palavra entre as muitas usadas ao longo da vida dá conta desse jogo? Amor, ora, e o velho Goethe não compreenderia o absurdo da situação, não aceitaria algo platônico, como convém? Tesão? Mas não existiam putas em Marienbad? Glória, deus? Nada mais distante, mais errado do que estender o siso pomposo destas palavras ao caso Goethe-Ulrike. Os que chegaram a supor senilidade não têm a mínima idéia do personagem a que estamos nos referindo. Às vezes quando penso nas coisas ridículas e brilhantes que fiz em certos momentos fecho meus olhos meio epilético, tentando afastá-las e a seu fulgor desarmado. Agonia e êxtase, claro: Marienbad, e o contrário da sabedoria. O sublime.

Até onde nos leva uma palavra? Digamos que em sua aposta o velho tivesse ganhado, conseguido se casar com a bela Ulrike. O que seria de nós, os que não passaram um verão em Marienbad, e que nunca pudemos de nossa velhice apostar o peso de uma vida, se o velho tivesse ganhado a mocinha? Se, por alguma estranha reunião de circunstâncias, o sublime tivesse funcionado não como drama, mas como comédia, com um casamento no final? O que seria dessa minha palavra, Marienbad, jogada tão delicada à memória de um velho deitado sobre a pele fina de uma jovem? Ah, merdienbad, e imagino que isso poderia muito bem ter se dado. E não teríamos a Elegia. Por outro lado, é exatamente o fantasma dessa imagem, que chamaria a princípio de grotesca, que gera a Elegia. Sublime então a imagem, e sua ausência, e o fio tênue que separa imagem e não-imagem e sua reunião estranha e bastarda aqui, 183 anos depois, e o que a condensa e que me leva pulsando a tentar domar a matéria da vida e da arte: Marienbad.

E é por isso, por ter encontrado uma palavra, que é uma imagem, que é um espinho cravado no tecido do tempo e um poema, que talvez possa buscar outras para dar-lhe de cortejo. Daqui, dessa singularidade de palavra e imagem e poema, é que seja possível contrariar a sabedoria. Não a realidade, entendam-me, que essa não se interessa por um afeto bizantino a palavras, mas simplesmente o hábito tranqüilo de esperar a morte e o silêncio, saudando-os com doce submissão. O contrário disso, e Marienbad, ainda é o lugar que se constrói.



Ricardo Pinto de Souza, professor, escritor e editor-artesão da Oficina Raquel. Lança seu primeiro livro de poemas, CULTURAS, em 14 de março, na livraria Dantes.

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