o jardim de beterrabas - victor paes


Tão velho o maestro, que no espaço das mãos cabia apenas uma alucinação em miniatura de sua orquestra, ainda assim, às vezes escapando-lhe de laterais algum solista mais comovido. Há dois anos ainda, regia de milho os pombos da praça (questão de alimentar também de terra, muito de ar a música). Mas hoje, poucos gestos precisos: cama à sala, cama ao sol, sol à cama, cama à cama. Esvaziou-se aos poucos, maestro aos tacos. Até enfim nada mais dele a família lavar dos lençóis. Por anos, nem suor. Vidrou-se. E a orquestra seguiu em novo maestro.

O único à cabeceira de sua cama era um jovem flautista seu, que, sob ganas de luthier provocado, após os ensaios, o esquadrinhava. Lia por ele, ditava-lhe regras para uma vida jovem (de um manual médico caseiro do Doutor Werner, encontrado ali em uma estante). Ditava-lhe também as amarguras do novo maestro. Exagerava-lhe descobertas sobre flautas medievais. Mas os olhos do maestro pendiam do teto. O flautista, entre uma história e outra, parava a tentar ouvir um movimento que fosse. Às vezes, olhava-o.

Um dia, trouxe em partitura algo que lhe compôs e tocou para ele. Em dado glissando, desafinou. Em susto, o maestro sentou-se na cama, um braço enfiado no tempo de uma nota cortada ao meio. O rapaz pouco se moveu. Mas após esse silêncio, o maestro deitou-se de novo, os olhos expirando de novo, o corpo se esquecendo de novo. O flautista voltou a tocar, mas olhando-o bem e transferindo o glissando para outra parte da música. Susto de novo, o maestro retornou, já o regendo. E lhe pareceu resmungar que retirasse totalmente o glissando. Enquanto regia, dizia notas, gritava. Até que a música acabou.

Sentado na cama, abraçando-lhe as mãos, o rapaz imaginou-o de volta à regência, sendo levado desacordado aos ensaios e às apresentações, até que fosse posto no palco. Seria acordado lentamente pelo aquecimento dos instrumentos até que pudesse dar o sinal de início. Após os trabalhos, deixariam-no de volta em casa. Mas imaginou que os outros músicos, se tão amigos do maestro quanto ele, achariam alguma crueldade na idéia. Ele não achou.

E não disse nada à família do maestro e, passando a vir todos os dias, tocava alto para que ninguém ouvisse sua voz. Pois descobria aí uma nova relação com o mestre: flautista de não haver nunca conseguido decorar uma peça, naqueles momentos, improvisando nas palavras desconexas do maestro, parecia compartilhar uma espécie de partitura truncada com ele, recalculando juntos algumas matemáticas da música. O maestro, ainda recostado, chegava a ensaios de dançar.

No entanto, a cada dia o efeito da flauta veio esmorecendo, se acostumando, até que o maestro não mais agiu. O rapaz pensou em levar outros músicos até ele, mas a idéia possuía para ele qualquer paradoxo de negligência. Então voltou a visitá-lo com seu instrumento na cintura. Mas agora não lhe trazia mais nada para contar.

Em uma manhã, quando o rapaz já se despedia do mestre a não voltar mais, cruzou a rua uma multidão em festa de inauguração de uma loja e, na frente dela, uma pequena banda de metais. O maestro saltou dos cobertores, mas não a reger: apavorado, meteu-se debaixo da cama e de lá lhes xingava a estrondosa desafinação. Em poucos minutos, toda a família estava no quarto. O rapaz jurou que isso nunca havia acontecido.

Por uma semana o maestro recebeu, sempre desacordado, um médico e seu estagiário de neurologia, que se revezavam entre medir-lhe a pulsação e, diapasão em punho, medir a acústica do quarto. No fim dos exames, recomendaram silêncio total ao paciente.

O flautista, após muito insistir com a família para deixarem que voltasse a vê-lo, na primeira visita foi posto a esperar à porta, pois já havia alguém com ele. Era uma funcionária da escola de música. Estando sozinho, encostou à porta e ouviu a voz da mulher. E a do maestro.

Quando ela saiu, agarrou-a aos sussurros:

– O que você cantou para ele?

– Nada. Minha voz só serve pra falar. Eu só perguntei e ele me respondeu.

– Impossível!

– Eu só perguntei o que ele tanto olhava para o teto. Ele disse que estava ali tão quieto tentando lembrar de uma coisa que ele tinha esquecido. – e lhe entregando um papel – Ele escreveu isso pro senhor.

Ele leu: “jardim de beterrabas”.

– O senhor é de flauta, não é?

Ele perguntou ainda algumas vezes ao maestro o que aquilo dizia. Mas a voz do rapaz não servia pra falar como a dela.

Por anos, mesmo após a morte do maestro, o flautista guardou aquele papel e muitas de suas composições tiveram como tema “jardins” e “beterrabas”.

Um dia, no palco, quando tocava em um grande recital, lembrou-se de repente, chegando a cometer erros grosseiros, que havia lido quando criança, em uma enciclopédia, que “Shakespeare” significa “lanceiro”, “Boccaccio” significa “bocarra” e “Beethoven” significa “o do quintal das beterrabas”.

Após o vexame do recital, ao chegar em casa, rasgou o papel, como se rasgasse uma partitura.


Victor Paes é escritor, ator e mestrando em poética pela Faculdade de Letras da UFRJ. É um dos editores da revista Confraria e da Editora Confraria do Vento. Integra e faz a direção cênica do grupo de texturas poéticas e realidades experimentais Arranjos para Assobio. Foi publicado pela Editora Record, no Prêmio Nossa Gente, Nossas Letras, e recebeu o Prêmio Jovem Artista, da Rioarte, por texto teatral depois encenado no Projeto Nova Dramaturgia, no teatro Carlos Gomes. Seu primeiro livro será lançado ainda neste ano. Publica alguns de seus trabalhos em seu blog: asdistracoes.blogspot.com

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