reverência e irreverência na tradução - marcelo jacques de moraes
Ao contrário de muitos colegas, sempre me referi à minha “tarefa de tradutor” como a uma modalidade de escrita que tende a ser especialmente prazerosa. Costumo dizer que ela me permite experimentar menos ambiguamente o prazer implicado pelos desafios, impasses e dificuldades inerentes à atividade da escrita na medida em que nela fica um pouco atenuada a angústia da autoria.
Por quê? Simplificando um pouco, eu diria:
Em primeiro lugar, porque a tradução de um texto implica a tradução de algo menos inefável do que aquilo a que visaria uma escrita primeira, autoral: um texto a ser traduzido constitui um ponto de partida mais material, mais consistente, mais objetivo, do que os fantasmas mais ou menos encarnados que impulsionam em nós o desejo de escrever. É claro que essa escrita a ser transformada em escrita também é assombrada por fantasmas, e estes podem ser terríveis, chegaremos a isso, mas é algo reconfortante saber que a escrita tem, no empreendimento tradutório, um roteiro pré-traçado, um volume pré-definido…
Em segundo lugar, a responsabilidade de apostar na relevância de se tornar público aquilo que se escreveu, no caso do tradutor, é, por definição, compartilhada. Ainda que venhamos a traduzir, por iniciativa própria, um texto inédito na própria língua em que foi escrito, compartilhamos essa responsabilidade quando menos com o próprio autor.
Assim, esse prazer do tradutor, pelo menos o prazer que eu experimento como tradutor (esclareço que não sou um estudioso da tradução e por isso não quero generalizar; falo de minha experiência, e vou tentar manter a primeira pessoa), me parece estar associado a esses dois fatos: ter parâmetros materiais para balizar meu desejo de escrever, livrando-me de certos problemas fundamentais de uma escrita autoral (como e de onde começar, como e onde terminar, o que retirar, o que acrescentar ao longo do caminho: na experiência da tradução, um outro já decidiu por mim…); ter, portanto, referências concretas para dar à escrita uma dimensão no espaço e no tempo (isso pode ser muito enganoso…); e além disso, ter com quem dividir a responsabilidade pela iniciativa de dar a ler o que escrevo, e poder gozar, por antecipação, da identificação com cúmplices mais ou menos próximos, vivos ou mortos, que, assim, povoam a solidão do gesto originário – ainda que não necessariamente original – que constituiria uma escrita autoral. Ou seja, ao contrário do que acontece quando decido ceder ao meu desejo de escrever alguma coisa minha, não estou só quando me lanço à escrita tradutória. (E mesmo quando não me identifico com o original que vou traduzir, ou com aqueles que se fazem seus cúmplices, deixo de ter cúmplices para ter álibis: mas são ainda os outros, agora como leitores potenciais de mercado, ou como agentes do mundo editorial, são ainda esses outros que me pagam que me acompanham e me justificam em minha escrita…)
Claro que isso tudo tem seu avesso, e todos sabemos que a angústia do tradutor tem outras faces, e que, bem entendido, ela pode se aproximar bastante da angústia da escrita autoral, pode até mesmo ser – e freqüentemente o é – mais terrível e mais paralisante do que ela. Chegarei lá.
Mas faço esse preâmbulo por duas razões. A primeira delas, que não discutirei aqui, mas que não creio ser destituída de importância nos estudos de tradução, é a seguinte: parece-me mais ou menos óbvio que a escrita na tradução tem suas especificidades e não se confunde plenamente com a escrita autoral. É claro que há nuanças, mas quero dizer que há problemas específicos da tradução de textos entre línguas que não se confundem com o uso muito amplo que se vem cada vez mais fazendo do termo tradução. Assim, como ouço vez por outra dizerem, em nome de Benjamin ou de Derrida, que todo original já é tradução, pois todo texto filosófico já é tradução de outro texto filosófico, que todo poema já é tradução de outro poema etc., mas sem dar a essas afirmações sua devida dimensão metafórica, acho que é importante lembrar que é preciso manter vivo o esforço de distinguir as coisas (da mesma maneira como, nos estudos literários, o “tudo é texto” da explosão da semiologia criou uma tendência a indiferenciar tudo o que se escreve, e de repente, a partir dos anos 1970/ 1980, tudo virou “escritura”, e todos nos tornamos escritores… acho que todos saberão do que estou falando). É claro que certamente se pode dizer que um filósofo desempenhará melhor a tarefa de traduzir filosofia e um poeta a de traduzir poesia etc. Mas trabalhar na “floresta interna da língua”, para usar a expressão do próprio Benjamin, com uma “intenção” “ingênua, primeira, intuitiva”, como faz o escritor de um original, é completamente diferente de trabalhar entre línguas, com uma intenção “derivada, última, intelectual”, como faz o tradutor.
A segunda razão do preâmbulo, que é a que me interessa mais particularmente (e que também seria, é claro, fundamental desenvolver para tratar da questão da escrita autoral – aqui vou me limitar à escrita tradutória), é a seguinte: parece-me que são essas relações de afeto com estes outros mais ou menos concretos que estão ao nosso lado desde o primeiro momento no empreendimento tradutório – o editor, o autor, seus leitores, seus críticos etc, estes outros que, para nós, o texto a ser traduzido materializa objetivamente –, são essas afinidades eletivas que determinam nossa postura como tradutores naquele empreendimento específico, nosso modo de fazer face às dificuldades de tradução naquele projeto.
Dizendo de outra maneira, é a relação transferencial com o texto original, e, naturalmente, com os fantasmas que, para nós, o assombram – relação esta que não é estática, e que, evidentemente, se desenvolve ao longo do processo –, é essa relação que acaba determinando a preponderância de uma postura mais reverente ou mais irreverente com o original. Bem, chego assim ao título proposto…
É essa relação transferencial que vai modular, naquele processo tradutório específico, as manifestações do desejo de afirmação de uma escrita que, como eu dizia, sempre assombra a tarefa do tradutor. Em outras palavras, e voltando à primeira pessoa: minha postura, como tradutor, não é sempre a mesma. (Estarei ignorando aqui um dado fundamental, mas que certamente tem um peso decisivo nessa equação: a postura do editor, que é também modulada por uma relação transferencial com o texto. Sem esquecer a relação transferencial que temos com ele e que deriva, evidentemente, para o texto.)
Como varia essa postura? Quanto mais tenho a sensação de que, por trás daquele texto, há um trabalho de escrita, de que aquele texto constitui não um modo de dizer específico daquela língua estrangeira, mas, para dizer como Proust, uma língua estrangeira dentro daquela língua estrangeira; ou seja, quanto mais tenho a tendência a considerar que estou diante não do sintoma de uma língua (isto é, de um modo de dizer a que uma língua obriga), mas de um estilo naquela língua (isto é, de um modo de dizer que se impõe àquela língua e que, de certa forma, amplia suas possibilidades), mais reverente se torna minha atitude em relação a esse texto, mais impotente me parece minha língua para restituí-lo, e mais resistente fico diante da tarefa de traduzi-lo.
Mas vamos começar pelo que é mais fácil. Pelo que nos parece mais fácil de traduzir, e que, portanto, nos deixará antes irreverentes em nossa tarefa. O texto fácil se caracteriza pelo fato de que minha mente e minha língua o abraçam mais ou menos espontaneamente. Tomadas algumas decisões relativas à transposição do registro lingüístico do original, aquilo que leio praticamente só me apresenta questões em torno de um vocabulário, do léxico. Mesmo uma ou outra expressão, um jogo de palavras, que se afigure literalmente intraduzível me coloca apenas a questão: como alguém diria isso em minha língua? Se houver coisas que eu considere que simplesmente não se diriam daquele jeito em minha língua… compenso ali para fazê-la dizer o que ela não pôde dizer aqui, mostro suas possibilidades etc. E nada que uma nota do tradutor não resolva. (Paradoxalmente, sinto-me menos fracassado ao usar uma nota de tradutor – essa confissão de impotência – em um texto que me parece traduzível do que em um texto intraduzível.)
Em suma, não me sinto lingüisticamente castrado, nenhum ressentimento em relação a minha língua. Ao contrário, num texto cuja leitura me afeta pouco, justamente porque seu “modo de significar” (sempre Benjamin…), sua materialidade específica, não me parece desempenhar um papel relevante na produção de sentido do texto, redescubro com prazer os recursos de minha língua, sinto-me à vontade nela. Fico menos inquieto com a literalidade da tradução. Permito-me mudar certas coisas, e às vezes tenho até mesmo a impressão de que a tradução melhora o original, que deveria ser reescrito com base nela… O que se colocaria então como questão é o seguinte: em que medida essa tradução irreverente (e muitas vezes arrogante) – que pretende encobrir os fracassos do original em relação ao sentido que depreendo dele como um todo – em que medida essa tradução não nos leva a reforçar um regime absolutamente normativo de nossa língua – e escrever em uma língua que, originalmente, ninguém de fato produziria? Muitas vezes, temos a impressão, ao ler uma língua tão reverente com a própria língua – e isso acontece com freqüência em traduções –, que ninguém jamais escreveria aquilo… Por outro lado, nessa tendência irreverente de hipercorreção do original, podemos ler um dos dilemas do tradutor: como todos sabemos, de um mau texto traduzido, sempre se dirá que é provavelmente uma má tradução. Ao passo que as boas traduções sempre são mérito do autor traduzido… Mas independentemente desse problema (que o tradutor vive em parte como uma questão de vaidade, em parte como uma questão de mercado…), fica o dilema sobre a responsabilidade teórica e prática do tradutor diante do que ele considera um original passível de ser melhorado na própria língua de origem – o que ele de fato só pode fazer em sua tradução.
A diferença em relação a um texto que tomamos como difícil – que, para simplificar, eu diria que são aqueles que supomos que implicam um trabalho poético em sua produção – é que, neste caso do texto fácil, não acreditamos que nossa tradução irreverente modifique de maneira relevante a dimensão significante daquele texto. Se eu fosse usar a célebre metáfora benjaminiana do vaso, eu diria que acreditamos produzir não um fragmento que se ajustaria, em suas irregularidades, ao fragmento constituído pelo original – como Benjamin define a tradução de uma obra de arte – , mas uma espécie de fac-símile do fragmento original (eventualmente até mais bem polido e pronto para contribuir para a recomposição do vaso total que esse original).
Bem, e como ficamos diante desse texto difícil, desse fragmento de língua do qual nos parece impossível fazer um fac-símile? Em primeiro lugar, como o reconheço? Quanto mais um texto parece aderir inevitavelmente, em sua materialidade própria, àquilo que diz, mais ele parece tornar-se intraduzível, mais a tradução que começo a arriscar me parece por princípio destinada ao fracasso. Aqui seria o caso, a meu ver, de desenvolver o argumento de Benjamin sobre a dimensão paradoxal deste “intocável” que a materialidade do texto original permite vislumbrar, mas está longe de traduzir. Argumento que leva Benjamin a afirmar que o sucesso do original – remeter ao intocável sem, justamente, tocá-lo – implica paradoxalmente seu fracasso: ele exige tradução. Daí a necessidade, para o filósofo, de uma “depuração do original”, a coincidência entre ato tradutório e ato crítico etc. que leva às vezes aos mal-entendidos que já referi. Mas não é possível aqui levar essa reflexão adiante.
Quero apenas sublinhar que na experiência de leitura de uma obra como essa, há algo que nos afeta a partir daquela materialidade, e que parece ser intrínseco a ela. E é isso que é um pouco sem nome – o sublime, na tradição kantiana, ou aquele sotaque estrangeiro dentro da própria língua de que falava Proust – é isso que se impõe, junto com aquela materialidade lingüística, a minha tarefa de tradutor. Mas esse “intocável” só se deixa ler naquela literalidade, com aquele sotaque, e assim aquela adaptação irreverente – “em minha língua eu diria assim” – deixa de funcionar. Entro, então, em relação de conflito com minha língua, com sua capacidade expressiva. Em minha língua, não se diz isso. Nem com nota de tradutor… Tenho, então, que criar nela um sotaque estrangeiro. (E é aí que a angústia do tradutor se confunde com a angústia autoral.)
Assim, um texto profuso em sotaques de língua estrangeira dentro de uma língua exige, para que eu o traduza, a ampliação da potência significante de minha língua. Exige, de mim, como tradutor que eu a torne estrangeira. Deixa de importar se aquilo se diz ou não se diz: tenho que forçar minha língua a dizê-lo. A confrontação com o indizível da língua estrangeira me obriga, portanto, ao esforço de ampliar as margens da língua. Mas se o original revela, na língua do tradutor, a necessidade de buscar uma alteridade possível, o sucesso da tradução – refletido, segundo Haroldo de Campos, na possibilidade de “transformar, por um átimo, o original na tradução da tradução” – esse sucesso implica justamente o movimento contrário: ele altera irreversivelmente o original. Nesse sentido a tradução, enquanto tal, só faz realmente sentido para quem conhece o original. Original e tradução se iluminam reciprocamente, se suplementam.
É evidente que as coisas não são simples assim. E que tais posturas se alternam, e que as fronteiras da língua são muito tênues etc Mas a impressão geral que minha experiência de traduzir tem me dado é a seguinte: se a irreverência com o original, nossa impaciência para com ele, muitas vezes mascara a reverência em relação a nossa própria língua – nossos sintomas lingüísticos – , ela também nos leva a nos interrogar sobre suas fronteiras e sobre as fronteiras da língua desse original. Seus silêncios. E por isso é importante não ter a reverência ao original como parti pris (parêntese: deliciosa expressão francesa que o Houaiss tomou o partido de dicionarizar…) Por outro lado, essa reverência com o original também força uma relação irreverente com nossa língua, incita-nos, justamente, a recuar suas fronteiras, a borrá-las…
Quando, irreverentemente, suspeito do original, reencontro freqüentemente – e reverentemente – as virtudes estabelecidas de minha própria língua. O que não é pouco… Ao passo que em minha reverência à língua do outro, ao modo como ela me afeta, sou forçado a brincar com minha língua, a deformá-la, a explorar suas virtualidades insuspeitadas… O que é ainda mais…
Talvez seja por isto, afinal, que gosto de traduzir: me dá a ilusão de que, entre uma prática e outra, entre a reverência e a irreverência de uma língua para outra, reaprendo, a cada dia, a ler e escrever…
Marcelo Jacques de Moraes, pós-doutor pela Université de Paris VIII, é professor de literatura francesa na UFRJ, pesquisador do CNPq, ensaísta e tradutor.
