só voa alto o que tem peso - mayara ribeiro guimarães
“O homem é um ser político por natureza” (Aristóteles, O político)
A escrita de Clarice Lispector, desde Perto do coração selvagem, publicado em 1943, até A hora da estrela, última obra lançada em 1977, e mesmo nos textos publicados post mortem, problematiza o que se não for a principal preocupação da literatura e da filosofia é, sem sombra de dúvida, o foco de maior especulação do ser humano: o que é o homem. O tema de toda a vida literária da autora é um e o mesmo, do início ao fim, e fundamentalmente o tema da filosofia e da poesia em geral - o que é o ser, o que é o real, o que é o mundo, qual a origem do ser, do mundo e das coisas. O leitor ideal de suas obra não pode deixar de observar a tentativa de posicionamento do Homem no mundo por meio da criação de personagens que, lançando as perguntas básicas da vida, tornam a narrativa clariciana um texto poético, com memória lírica e conteúdo filosófico. Entretanto, se Clarice o faz, como parte de sua crítica acredita, isenta de propósitos e posicionamentos sociais, ela jamais deixa de pensar o indivíduo enquanto ser político [1], o que leva à grande dificuldade de compreensão do registro clariciano, uma vez que a autora ao falar do ser humano trata também do ser social.
Em 1969, em Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, a autora provoca a revolução do indivíduo ao buscar no Outro, pela via da relação amorosa, o lugar de reformulação da própria existência, uma vez que neste Outro - espaço da diferença - e na linguagem reflete-se o sintoma do eu. Se a relação amorosa é a via, a linguagem se torna o ponto de chegada no qual o sentido da existência pode ser alcançado, mesmo que parcialmente. Para Lacan, a palavra introduz no real a dimensão da verdade e do erro e, como a linguagem é insuficiente para dar conta do ser, ela pode encontrar no erro a forma de falar com mais vigor, o que permite a abertura para uma nova verdade.
Com isso, observa-se que, como em outras das obras da autora, a paisagem ou o espaço em que se desenrolam as narrativas constitui-se como o próprio ser. O período em que Clarice surge assiste ao desenrolar de duas linhas literárias: a de romances regionalistas e intimistas [2]. O cenário literário de Clarice Lispector, no entanto, é composto de espaços não-específicos, como o banheiro em Perto do coração selvagem (1943), a fazenda em A maçã no escuro (1961), o quarto da empregada em A paixão segundo G.H. (1964), o mar em que Lóri se banha em Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres (1969), ou pequenos espaços habitáveis que não são expressamente urbanos, mas que servirão de ponto de partida para o desvelar de metamorfoses existenciais ou, segundo Carlos Mendes de Sousa (2000), que se deixam existir como um modo de veicular o vasto espaço da escrita. Trata-se, portanto, do lugar da abstração.
O que se poderia mostrar como espaço de territorialização apresenta-se como espaço de desterritorialização e abstração desreferencializadora, segundo terminologia cunhada por Deleuze e Guattari, já que não se define e tampouco se apresenta como espaço concreto. O não-lugar é, portanto, projetado no território da escrita e do Outro. Com isso, constrói-se uma narrativa poética com ênfase na narração, mais do que no narrado, e nas impressões e digressões, mais do que nos fatos ocorridos, na qual tempo e espaço devêm escrita. O exílio interior torna-se um tema e abre caminho para a perscrutação da interioridade e para a travessia da paixão.
Da tensão entre um espaço de clausura e outro de amplidão, que perpassa inclusive a biografia da autora, inserindo-se em uma narrativa onde o autobiográfico se faz presente em jogo de revelação e ocultamento e congrega em si toda a energia criadora, encontramo-nos diante de um conflito que se estabelece no plano da existência e da literatura. O não-lugar, o sem território, estão dentro de nós e constituem um caminho, como bem aponta a narradora de A paixão…: o vazio é um meio de transporte. Portanto, sua escrita será também sobre a incumbência de se buscar um lugar, lugar esse de travessia, que conduz às origens e cujo questionamento é o mesmo proferido pela escrita e pelo escritor. Segundo Sousa, o espaço da escrita de Clarice Lispector se dá na tensão entre o efeito do não-lugar e a instauração de um espaço nos limites da língua a que deseja pertencer. É na própria linguagem que se dá a travessia.
O desamparo humano, identificado pelo sentimento de solidão experimentado pela protagonista de Uma aprendizagem… (e por outras personagens claricianas), é universal a todos e presentifica-se pelo reconhecimento da identidade perdida da humanidade. Tal sentimento é acentuado por uma característica bastante específica da narrativa de Clarice: o contraste entre a amplitude e a restrição do olhar. De forma a decodificar a escrita hieroglífica de seus textos, a mesma que se apresenta como inscrição na parede em A paixão…, o leitor clariciano deve adotar uma estratégia de leitura sugerida pela própria autora: a de encarar o texto como uma meditação visual. Meditar visualmente – tarefa realizada em suas narrativas – implica associar o que a meditação oferece de mais perigoso: a reflexão e inteligibilização, por meio da categorização do inteligível, e o que apresenta de mais atraente: a visualização de imagens sem o recurso das palavras, utilizando apenas o sensível. G.H. afirma que: o menos perigoso é, na meditação, ‘ver’, o que prescinde de palavras de pensamento. Assim, Clarice associa palavras a imagens, na tentativa de construir o conhecimento de si e do mundo, constituindo uma escrita sinestésica para além do sistema lingüístico convencionado.
A estratégia visual ganha força em A paixão… a partir da imagem da queda, experiência de verticalidade vivida por G.H. na travessia do humano ao inumano (que é divino). Seguindo as pistas de Bachelard e, antes, de Nietzsche (a referência é extremamente relevante uma vez que a própria Clarice evoca o super-homem em Uma Aprendizagem…), não é possível separar o impulso para o alto da queda para baixo. Para erguer-se como super-homem em direção ao alto e à claridade, o homem deve antes ser árvore e pender-se para a terra e suas profundezas. A profecia de G.H. – só voa alto o que tem peso – é a mesma de Lóri – quereria, mesmo com medo, subir cada vez mais alto ou descer cada vez mais baixo.
Como discípulas-mênades, as narradoras e personagens claricianas (e as obras em si) experimentam outras lições de Zaratustra: a adequação entre conteúdo e forma como realização do projeto de fabricação e criação de uma poética particular aliada à liberdade propiciada pela vontade de poder que gera vida e a de que a antinomia dos valores e acontecimentos deve ser superada, de forma que o espírito humano esteja aberto para a redefinição de novos horizontes, implicando a coexistência de forças contrárias em interação.
Em seus textos, Clarice recupera a memória cultural a partir da recusa do que é individualizante em nome da reinstauração de um passado comum e originário ao homem. Somente com a fusão entre a sensação de amplitude cósmica, que impõe a eternidade circundante, o ilimitado e Uno, e o olhar restritivo da solidão humana, que intensifica a condição mortal e insignificante do homem diante do Todo, é que o ser pode instaurar um novo horizonte, para além dos limites do céu e da terra. O grande obstáculo para a constituição da nova identidade é o próprio sujeito, o humano limitado, encharcado de uma falsa humanização que impede o homem e impede a sua humanidade. A distinção entre humanidade e humanização é explícita e o impedimento de concretizar a primeira deve-se ao gritante favorecimento da segunda.
Novamente, a queda do homem é o ato máximo que permite a instauração da única “condição” humana possível e desejada, a “missão secreta” do ser de todos os seres: a do humano divinizado. Com ela vem a revelação de que a desistência é o grande sacrifício humano válido, gradual deseroização de si mesmo, abdicação da subjetividade totalizante que forja valores e marginaliza o outro.
O banho de mar protagonizado por Lóri ganha destaque central do romance, uma vez que figura a técnica de amplitude e restrição adotada por Clarice em seus romances: a vastidão do mar em fusão com a exigüidade do corpo. O banho se torna libação que introduz o despojamento do sujeito e coroa o nascimento do novo homem, evocando ao mesmo tempo a profecia bíblica e a fecundação humana. Em outras palavras, a conjugação entre a impersonalidade soberba do mar e a individualidade da mulher, missão proferida por Lóri.
Após cumprir a coragem de abdicar da terrível máscara ficcionalizante do sujeito, no coração do desamparo, Lóri marcha ao encontro desse Outro que é memória e cultura, em busca de uma identidade própria, de um nome. A memória da ancestralidade leva à revisitação de mitos e figuras da tradição literária ocidental: a esfinge, Ulisses, Penélope, as sereias. A revisitação, no entanto, tem um objetivo: inverter os mitos da tradição, criando o seu próprio. Nomeadamente e não por acaso, Clarice menciona que o “nome” de sua personagem origina-se de um lendário personagem do folclore alemão imortalizado por Heinrich Heine e, depois, celebrado em inúmeras composições musicais e referências artísticas. Trata-se do poema “Loreley” ou “Die Lorelei”, que evoca o mito das sereias, seres que seduzem os pescadores com sua formosura e seu canto, levando-os à morte. Se, na tradição, a Musa eternizada pela imagem da sereia tem caráter destrutivo, ao mesmo tempo que encantatório, no mito clariciano é a sereia – símbolo da imortalidade e da harmonia celeste – que morre pelo cântico do mar e dos pescadores somente para renascer como Poesia e com nova identidade. Lóri deve ser abandonada para ressurgir Loreley. O nome introduz a identidade.
Assim é que a memória cultural retorna em função do ressurgimento do novo homem, senhor de seu próprio destino. O mito da sereia refaz-se como anúncio do encontro do divino dentro do humano; transcendência na imanência. Depois da investigação da alma humana, a autora deixa explícita a sua arte poética ou, em outras palavras, por que razão o texto (criatura) – palavra, nomeação - foi trazido ao mundo pelas mãos do escritor (criador). A palavra poética possibilita o exercício da alma e a investigação do pensar-sentir transportado pelo texto, que deve ser também música porque é arrebatamento. Somos deuses em potencial. Em direção ao humano divinizado encontra-se o super-homem ou, como aponta Ulisses, a supermulher. Mas a condição a que se deseja chegar só pode ser alcançada a partir da não separação corpo-alma e da aceitação do mal, do erro, do temporário como necessários à realização do ser. Só quando o humano atingisse os limites divinos, qual Zaratustra, é que poderia encontrar o novo homem.
Em A hora da estrela, a violência social é condicionada pelo tema da marginalização e vitimização da personagem nordestina Macabéa. A denúncia é feita por meio do tema, mas também pela estrutura da obra, propondo que o real ou a verdade não são dados constituídos, mas construídos: constrói-se para o bem ou para o mal, para os abusos ou para as aberturas.
A abertura a outras liberdades que ameaçam, p. e., a estrutura da burguesia, os valores e morais ético-religiosas vitimizam tanto Macabéa, quanto as personagens de A via crucis do corpo, bem como as empregadas, taxistas, e mesmo o escritor, que se submete à pressão do mercado e das editoras, à literatura de massa, ao consumo/produção acelerados de coisas e sentimentos. O fato das denúncias saírem da boca de personagens burgueses como Lóri, Ulisses, Joana, G.H., entre outros que ironizam sua própria condição, ou de oprimidos e vítimas de violência social, não diminui a potência da denúncia. Aproximar o estatuto do escritor ao personagem criado por ele – e para fazer a mimese da realidade deve vestir por vezes a roupa de capataz ou de vítima - leva ao questionamento da própria ficção: é ela de fato pura invenção ou se torna o real? O escritor se torna vítima do seu personagem, da fúria de sua narrativa, do fragor de sua compulsão.
Em Uma aprendizagem… ou em A paixão…, as personagens ironizam a classe burguesa à qual pertencem, buscando o abandono das máscaras sociais de forma a caminhar em direção ao outro, ou ao outro de si mesmo. Quem tem fome vive o amor, ou só os privilegiados? Abandonar a estrutura humanizante não é tarefa agradável e, muitas vezes, requer ir ao encontro do subterrâneo de si mesmo, das maldades e sadismos, angústias e assassinatos diários. Não é só a vida do oprimido que afronta os olhos da sociedade, mas a vida de qualquer um porque a vida em si é um soco no estômago. As forças que esmagam Macabéa, despossuída, nordestina, retirante, são as mesmas que oprimem o indivíduo universalmente, seja ele uma criança (Joana), uma dona de casa burguesa (G.H.), uma fazendeira (Lucrécia), um escritor (Rodrigo S. M.).
Clarice impede que quaisquer de suas dramaticae personae (autor, leitor, narrador, personagem) ocupem posição confortável porque sua tarefa, sua urgência, é escrever os irrespiráveis [3]. O desamparo é de todos. A fome também. Não só o oprimido é massacrado, mas aquele cuja existência é um pouco menos bruta e insensível, um pouco mais suave e vulnerável. O homem, enquanto autor de suas próprias ficções e afecções, pode matar ou salvar o outro, uma vez que o poder de construção e destruição a ele delegado é o mesmo condicionado ao escritor.
Mas a travessia deve ser universal e particular ao mesmo tempo ou, diríamos, social e individual, esse o posicionamento ético e político de Clarice. A revolução interna e subjetiva deve ser também revolução externa e coletiva. Nesse sentido, Clarice foi mal compreendida. Considerar que sua obra toca no tema social apenas em A hora da estrela é um erro. O social mostra-se, no desenvolvimento da obra, como o que revoluciona uma estrutura fechada, fazendo-a superar sua condição estática e limitada, seja ela de burguês ou desfavorecido, tornando-o livre das convenções e valores constituídos por essa mesma humanidade perdida. Clarice é, do início ao fim de sua obra, uma autora que trabalha o homem como animal político, uma vez que ofende a estrutura social com a enorme liberdade que faz nascer na alma de cada personagem, na busca incontida de cada um por libertar-se não só dos tabus sexuais, no caso de Uma aprendizagem…, mas dos condicionamentos e valores instituídos do belo, do bem, da verdade, da vida, da morte. Essas liberdades provocam o desencadeamento de muitas outras liberdades, como diz Ulisses, o que constitui um risco para a sociedade. Devemos lembrar que Clarice Lispector publica esta obra em 1969, em plena ditadura política, em plena censura e perseguição política no Brasil.
[1] Longe de tentar nesse artigo dar conta do conteúdo do termo politikós, que remete a toda a tradição filosófica grega, entenda-se aqui apenas uma das acepções mais diretas e superficiais do vocábulo, segundo o Greek-English Lexicon: o indivíduo que, vivendo em uma comunidade, se torna observador da ordem social.
[2] Usamos o termo intimista com relação aos romances de cunho neo-realista, que produzem uma literatura de interrogação psicológica, como no caso de Lucio Cardoso, Cornélio Penna, Octávio de Faria. Tais autores, porém, ainda desenvolvem uma paisagem territorial bem marcada e, de certa forma, deixam entrever o tema da brasilidade, o que difere bastante da narrativa de Clarice.
[3] Expressão utilizada em palestra proferida por Ana Cristina Chiara.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia 2. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995.
LIDELL, H. G. & SCOTT, R. Greek-English Lexicon. Oxford: Claredon Press, 1996.
LISPECTOR, Clarice. Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres. Rio de Janeiro: Sabiá, 1969.
_______ A Hora da Estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
_______ A Paixão Segundo G.H. Ed. Crítica, Coord. Benedito Nunes. Col. Archives, v. 13,2. UNESCO – CNPq, 1996.
MACHADO, Roberto. Zaratustra, tragédia nietzschiana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.
NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
_______ Ecce Homo. Como alguém se torna o que é. São Paulo: Cia. Das Letras, 1995.
PEIXOTO, Marta. Ficções apaixonadas. Gênero, narrativa e violência em Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Vieira e Lent, 2004.
SOUSA, Carlos Mendes de. Clarice Lispector. Figuras da Escrita. Braga, Universidade do Minho/Centro de Estudos Humanísticos, 2000.
Mayara Ribeiro Guimarães é aluna de doutorado em Literatura Brasileira na Faculdade de Letras da UFRJ, Mestre em Literatura Brasileira pela mesma instituição e professora licenciada da Estácio de Sá.
