um poeta sem versos, na poesia e em muitas margens: entrevista com pedro eiras
Pedro Eiras nasceu no Porto em 1975. É investigador e docente de literatura portuguesa na Faculdade de Letras do Porto. Desde 2001, publicou em livro os ensaios Esquecer Fausto. A fragmentação do sujeito em Raul Brandão, Fernando Pessoa, Herberto Helder e Maria Gabriela Llansol, 2005 (Prémio PEN Clube Português de Ensaio), e A Moral do Vento. Ensaio sobre o corpo em Gonçalo M. Tavares, 2006, as peças de teatro Antes dos Lagartos, Passagem, Um Forte Cheiro a Maçã, Recitativo dos Livros do Deserto e As Sombras (”Slow” / “A Última Praia antes do Farol” / “Uma Carta a Cassandra” / “O Pressentimento de Inverno” / “Cultura”), o romance Anais de Pena Ventosa e o volume de contos Estiletes. Teve peças de teatro lidas e encenadas no Porto, em Lisboa, Coimbra, Bratislava, Nice, Salónica, Pont-à-Mousson e Paris. A peça Um Forte Cheiro a Maçã foi traduzida para francês, publicada por Les Solitaires Intempestifs e transmitida na rádio France Culture em 2004.
Entrevista concedida a Raquel Menezes.
No seu ensaio “O que é poesia?”, você cita Derrida: “Ao anunciar o que é tal como é, uma pergunta saúda o nascimento da prosa”. Esse conflito entre a prosa e a poesia não seria também uma conjunção entre esses gêneros, como podemos verificar em Llansol e Raul Brandão, ambos estudados em seu livro Esquecer Fausto?
…mas haverá “prosa” em Maria Gabriela Llansol ou em Raul Brandão? Apetece-me pensar que, em todos os textos que escolhi estudar até hoje, só houve poesia. A prosa, para mim, tem que ver com a insistência, com a confirmação daquilo que os utentes da língua esperam: normas, usos, comunicação, transmissão, mensagem. São prosa, portanto, até os versos que se limitam a repetir, com os desvios controlados necessários ao cliché, um uso do mundo. O verso é forçosamente subversivo. O verso rapta a nossa linguagem e devolve-a transfigurada, irreconhecível. Por isso a literatura é uma questão de vida ou de morte: ninguém pode estar certo de ainda saber falar, depois de ler um livro. Não se trata de uma questão de forma, porque escolher uma determinada mancha gráfica, em si, não adianta nada; e todavia, tudo é apenas uma questão de forma, porque o poema é uma dobra da realidade, só.
Por exemplo: a gaguez de Húmus, a interrupção da frase em O Livro das Comunidades. Não encontro aí qualquer prosa, porque prosa, para mim, é a coerção que leva as frases até ao fim, não apenas na extensão, mas também na tensão. Pelo contrário, em Llansol, em Raul Brandão, há uma fractura que não deixa continuar. Não é verdade que a literatura propicie (apenas) novos discursos: ela também cancela o discurso, retira a língua. Deve haver um imenso, terrível silêncio no fim da literatura. Meia-hora de silêncio nos céus.
Talvez isso se encontre em Derrida? “Ao anunciar o que é tal como é, uma pergunta saúda o nascimento da prosa”: “Ao anunciar o que é tal como é”, apenas tal como é, sem transmutação, transfusão dos sentidos, então “uma pergunta saúda”, e deve mesmo saudar, porque essa é a possibilidade da ciência – mas não da poesia – “o nascimento da prosa”, a importantíssima prosa do nosso urbanismo mental, que segura o mundo de pé. Seja. E contudo há os desertos, há o fundo do mar. Derrida sabe-o, tão bem o sabe! Ainda ao anunciar o reino da prosa, não é poema o que ele faz? A linguagem fica difícil depois dele.
A literatura não existe para ser fácil. Mas sim para ser difícil, talvez dolorosa.
Em Esquecer Fausto, trata da pós-modernidade de forma nada desesperada. Acredita que esse pode ser o nome do nosso momento histórico-literário?
Sinceramente, não sei: não sei sequer se estamos num momento. Só existe o presente (no espaço-tempo euclidiano em que julgamos viver, ninguém pode revisitar o passado nem antecipar o futuro, dir-se-ia), mas esse presente é já um cruzamento de presentes, de datas e profecias. Nem sempre, por exemplo, a crítica literária sabe atingir o presente do poema; assim, podem coexistir uma crítica moderna com uma poesia pós-moderna (e o contrário também? não sei).
Prefiro pensar que o moderno e o pós-moderno (e o pré-moderno, o pós-pós-moderno…) são instrumentos muito úteis, não necessariamente opostos. Permito-me ler um texto modernamente ou pós-modernamente; e os dois textos assim lidos serão textos diferentes. Como recusar essa possibilidade extraordinária? Dito assim, a pós-modernidade não é um tempo, mas um gesto; ela pode ser usada para completar a modernidade (não é o que acontece hoje em termos de emancipação de minorias?), do mesmo modo que a modernidade pode ser usada para alicerçar a pós-modernidade (donde novos combates políticos a uma escala global: a ecologia).
Por quê optar entre modernidade e pós-modernidade? Por que não combinar esses gestos enquanto instrumentos para objectos novos, imprevisíveis? O pensamento deve ser radical e libérrimo, abrindo caminhos inéditos para problemas inéditos. E não vejo, a esse nível, nenhuma categoria do pensamento que deva permanecer fora de debate: da ética à política, da religião ao sujeito. Um exemplo apenas: a ideia de História pode ser frutífera, mas não quando se torna obrigatória. O conceito de História é fulcral para muitos movimentos, de Hegel a Jameson, mas também pode obrigar o pensamento a categorias teleo-cronológicas pobres. Claro que não estou a subscrever a exaltação delirante de um Fukuyama neo-liberal quanto ao fim da História. Mas não quero recuperar a ideia de História só porque houve o fenómeno Fukuyama, há muitos outros caminhos entre duas polarizações extremas e opostas. Procurar o meio, que é infinito, contra os dois lugares rígidos da dicotomia. Assim, a História serve e não serve. Não opto – mas escolho sempre, porque estar no meio é escolher.
E talvez este seja um gesto pós-moderno.
Estaria o sujeito poético em estado de fragmentação, enquanto a personagem de um texto em prosa em estado de totalidade ficcional? Penso no Pessoa da “Autopsicografia”…
Se poesia for esse lugar de perda da linguagem (portanto, mesmo em textos “em prosa”), sim, esse sujeito poético está em estado de fragmentação. Mas ainda haverá sujeito poético? De resto, “sujeito” é uma palavra complicada, porque tem tacitamente o valor de “agente”: nenhuma submissão, antes o máximo de poder. Ora, nesse caso, que poder tem o sujeito-poético-numa-escrita-de-perda? É claro que a poesia é o lugar mais extremo do domínio da linguagem; mas é também o único lugar onde a linguagem é dominada para ser perdida e transfigurada em acontecimentos inauditos. Penso em “Autopsicografia”: é um lugar de domínio, sim, o poeta “finge tão completamente”… Mas esse fingir não conduz a nenhuma autópsia do real: é um fingir que difere sempre, “chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente”… Se sente deveras ou não, o leitor só pode acreditar ou desconfiar. Dessa dor ninguém pode dizer uma única palavra. Resta a dor fingida, e essa é apenas feita de palavras.
O que é uma “totalidade ficcional”? Certamente uma confirmação de si: eu sou aquele que sou, etc., num ciclo interminável. Conceito que serve talvez Descartes; mas não Rimbaud, Dostoievsky, Nietzsche, Freud, Artaud, Lispector, Llansol… A mim, interessam-me os espelhos, as sombras, os cacos, a turbulência. Em que totalidade caberia tudo isso?
Há partículas na matéria que podem ser separadas (por exemplo: uma fica na Terra e a outra é levada para a Lua) e ainda assim uma alterará o seu comportamento quando a rota da outra for modificada, em condições laboratoriais. É uma ideia fascinante, que demonstra talvez a inexistência do espaço, essa ilusão antropomórfica… Sim – mas eu vivo maravilhado com a ilusão. Talvez nem a distância exista, mas os pontos de fuga, a perspectiva, a lonjura são todo o nosso encantamento.
À fragmentação, é preciso dizer sim.
A poesia não se basta no verbo “ser”. O mesmo com o teatro?
O mesmo com o teatro, absolutamente! O teatro e a poesia não querem afirmar o ser, mas transtorná-lo: oferecer ao que é um jogo de sombras. Mas na poesia julgo que essa recusa assenta mais depressa numa vontade de figura, torção pura da linguagem que se desvia dos seus usos. O teatro é mais impuro, porque a linguagem verbal não está só. Outros ritmos entram em confronto, e é bom que assim seja. Mas nunca para dizer o ser, antes um acontecer.
Só o verbo ser não pode existir no palco. Ou esse ser deve estar em movimento, parado; por exemplo, uma personagem no palco, imóvel, recorda a sua infância, e essa recordação é suficiente para fazer explodir uma vida. É dificílimo conseguir esse movimento imóvel. Como está parada a seta em cada instante da sua trajectória, advertia Zenão. Ou a atenção de Arjuna ao apontar a seta ainda no arco mas já destinada ao olho do pássaro, redução do universo ao único ponto existente.
Outro exemplo: vi uma peça em que Luís Miguel Cintra fazia o papel de um criado, digamos, sem qualquer valor nuclear para a acção. A certa altura, este criado apanha gratuitamente uma bofetada de um patrão. E o modo desamparado como Luís Miguel Cintra ficava, imóvel, com a sua própria mão a sentir a dor na cara, de boca aberta, de olhos abertos, debaixo do peso de toda a injustiça do mundo, eis o teatro. Não gosto do verbo ser: o criado não era um criado injustiçado. O criado imóvel acontecia no movimento da descrença no mundo. Sem se mexer, ele mostrava o terramoto ético que derruba as muralhas mais altas. Ele não era. Ser é pobre. Ele ruía, literalmente. Alguém podia morrer de vexame – e de fúria. Só isso havia ali, a fúria e o vexame transformados em movimento num corpo parado. Eis o teatro.
Escrevi, escrevo peças de teatro. Procuro que uma imensa estrutura sirva para ir chegando a um lugar de imobilidade desses. Pode ser uma encenação do nascimento; pode ser o anúncio de um suicídio. Aconteceu uma ou duas vezes em toda a minha escrita.
Enquanto a filosofia grosso modo tenciona encontrar a verdade, a poesia, não precisa, não quer, não lhe cabe…
Tudo na poesia é verdade e contudo ela não procura a verdade. É verdadeiro o que podemos comparar com o mundo, os dados dos sentidos, a medição mais consensual ou mais laboratorial, a intuição; mas a poesia não quer ser comparada. Ora, para ser franco, acho que a verdadeira filosofia também não: ela deve preocupar-se com a sua própria construção, não com a adequação ao mundo, que de resto deve ser sempre um resultado dessas linguagens, e não uma fonte. A filosofia não deve querer explicar o mundo, aconselhar os leitores, servir uma política ou uma ética; deve ser completamente gratuita. Esquecemos depressa de mais o valor do inútil, porque a tudo damos um preço. Chega a ser escandaloso defender o que é inútil.
Sou muito avesso ao valor da verdade. É verdadeiro o que eu medir por uma regra minha, isto, ocidental, contemporânea, etc. Nada é mais transitório do que a verdade, em suma. A poesia, a filosofia, pelo contrário, nunca envelhecem. Ulisses fascina-nos hoje como há 3000 anos. Há passos de Ovídio que comovem em 2007 como na Roma Antiga. Platão continua a tirar-nos o sono.
Herberto Helder versa: “a poesia é um baptismo atônito”. Sendo um leitor de HH, como entende esta “definição” herbertiana de poesia?
Curiosamente, Herberto Helder não diz que o ente baptizado está atónito por receber o nome, mesmo se essa figura, recebendo de Adão o seu nome verdadeiro, me interessa também. Não. Herberto diz que o baptismo – o próprio baptismo é atónito. Figura muito mais difícil de pensar. Como se a dádiva do nome caísse no seu próprio abismo, poesia fascinada por si mesma, Narciso sem culpa nem unidade. O poeta será quem menos existe aí, só um mundo baptizando-se a si próprio.
