poemas – eucanaã ferraz

Paisagem para Anna Akhmátova
O corpo, ainda corpo,
sabe de cor
a dor. Dizer adeus,
carpir, esconder,
bater palavras contra o muro.
Ruas de São Petersburgo
sob a neblina – o corpo
sabe de cor
onde se morre.
Mas, por entre o estridor
de soldados e funcionários,
cava uma saída:
o próximo poema
(promessa de delicadeza e silêncio)
- ouve cantar uma cereja.

(Passando em frente)
Passando em frente
ao antigo, imponente
prédio:
o leão, [...]

não me rendo ao fracasso – leonardo vieira de almeida

Mantenho-me em posição limítrofe, sensação de completa entrega e inércia, bebendo de um copo o líquido demasiado forte, tentando esquecer os últimos dias, mas sabendo ser impossível.
O certo é que tudo passou muito rápido. Deixei que esse momento se esfacelasse, destruindo aquilo em que acreditava ainda ser meu esteio, não passando agora de um rastro [...]

marienbad

                                                      ricardo pinto de souza

número 1
Democracia e melancolia. Há uma gravura de Goya chamada “Modo de Voar”. É possível que vocês já a tenham visto: homens atados a um tecido, espécie de asa, e a cordas, soltos no espaço, voando com seu aparato, batendo asas. Há tensão e esforço na única face visível, misturada a um [...]

portas e janelas: a simples beleza – fabiano rangel pasold

Objetos do cotidiano são constantemente desprezados quando estamos em busca de algo para fotografar. Na verdade, acredito que nossa busca está sempre inconscientemente apontada para coisas intangíveis, o que freqüentemente resulta em frustrações e decepções para com nossa veia artística e nossa necessidade de expressão.
Utilizo a fotografia como uma forma de tornar visíveis meus pensamentos [...]

entre este mundo e as outras coisas – fernando miranda

Omne ignotum pro magnifico est. — Tácito
Ernst Theodor Wilhelm Hoffmann, nascido em 24 de janeiro de 1776, em Königsberg, passa à História da Literatura como autêntico representante do Romantismo. Talvez, muito mais pelo seu espírito verdadeiramente romântico – no sentido estrito – que por suas obras, afastadas do “cânone” da Literatura Universal, e vistas, nos [...]

cinco perguntas para antonio fernando borges

Nascido no Rio, vencedor do finado prêmio Nestlé em 1994 por sua coletânea de contos Que fim levou Brodie?, autor de dois romances publicados pela Companhia das Letras – Bras, Quincas e Cia. (2002) e Memorial de Buenos Aires (2005) -, Antonio Fernando Borges destaca-se por conseguir, em seus livros, misturar a reflexão sobre a [...]

a imagem-questão – manuel antônio de castro

A linguagem
Numa palestra em 1954, Heidegger disse: “A linguagem fala, não o homem. O homem só fala quando corresponde à linguagem”. Na medida em que a obra, toda obra poética, é feita de e como linguagem, a obra opera falando. Cabe ao autor escutar, cabe ao leitor escutar. A escuta da fala da linguagem é [...]

poética: a mente é graciosa, a arte é graciosa – allen ginsberg

Poetics: Mind Is Shapely, Art Is Shapely
I really don’t know what I’m doing when I sit down to write. I figure it out as I go along (and revise as little as possible). I see the writing is interesting if there are a lot of awkward poetic ideas made up by accident in the course [...]

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                                                            luis maffei

COME PÃO, POETISA

Recensão a Le vitrail la nuit * A árvore cortada, de Adília Lopes. Lisboa: & etc, 2006
O poema de abertura do livro dá-me pistas, e é dele que parto, pois, sendo ele o primeiro, é dele que gosto de partir; “A casa”, pois: “Os defeitos dos vidros/ das minhas janelas/ são tão [...]

editorial

dois colegas de graduação se abraçam por uma causa, e a cada dia, colocam suas idéias e pensamentos do mundo real para o virtual, ou/e vice-versa.
chamam amigos, afins; pensam, escolhem, e percebem que, a cada dois meses, terão de recolher estilhas. continuam a labuta.
na terceira edição desvendam os olhos para enxergar a fotografia; e ainda [...]