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luis maffei
COME PÃO, POETISA
Recensão a Le vitrail la nuit * A árvore cortada, de Adília Lopes. Lisboa: & etc, 2006
O poema de abertura do livro dá-me pistas, e é dele que parto, pois, sendo ele o primeiro, é dele que gosto de partir; “A casa”, pois: “Os defeitos dos vidros/ das minhas janelas/ são tão antigos/ que já não se fabricam/ vidros com defeitos assim/ há muitas décadas” (p. 5). Hipótese: este sujeito lírico é antigo, antigo como, por exemplo, é antiga uma agulha de vitrola. Já não se fabricam agulhas de vitrola, “já não se fabricam/ vidros com defeitos assim”. Digo antigo deste sujeito lírico porque é ele um dos sentidos dos “vidros/ das” suas “janelas”: humano, tão quebrável como o vidro e em relação com o mundo. Adianto-me: Adília Lopes escreve uma poesia em que os sentidos de relação, e em relação, são predominantes; Adília Lopes escreve uma poesia que se vê em estado de defeito, pois não posso grafar Adília Lopes sem ter em conta que estou a lidar com uma persona, confessadamente inventada. Os vidros de Adília Lopes são quebráveis. Também seus vitrais. Também sua poesia.
É exatamente por isso que se trata também de uma poesia corajosa. Digo de outro modo: uma poesia que se assume em absoluto risco: “Os outros/ são/ uma ameaça/ uma trapaça/ um alçapão// Os outros/ são deliciosos/ como maçapão” (p. 6): o jogo de semelhanças sonoras, com um tom aparentemente tão banal, é perigosíssimo. Adília cai nesta armadilha em muitos momentos de sua obra. Adília corre riscos e, graças a Deus, por vezes é deles vítima. E, mais graças a Deus ainda, por – muitas – vezes supera o banal e alça seus versos a estágios de fino entendimento do mundo. Entendimento poético, claro. Entendimento seu. Mas entendimento, mesmo que em condição precária, estupefata ou contraditória. “Os outros/ são/ uma ameaça”, pois os outros são, ora, os outros, não são o eu. Mas “Os outros”, é evidente, “são deliciosos” como um bolo que se compra em qualquer confeitaria, pois os outros são, ora, os outros, cotidianamente, não são o eu. E assim sucessivamente. É nos outros, pois, que está o espanto. É para os outros que fala esta poesia, e aqui reside um de seus golpes magistrais (desculpem, é um disparate falar de magistralidade numa poética como esta; mas falo ainda assim): logra falar para e com os outros Adília Lopes. E fala poeticamente, sim.
Mas, se fala dos outros, fala do eu, e instiga-me saber de que eu se trata: um eu não raro desejoso e indesejável, um eu que se põe em perspectiva a diversos outros da história da poesia e da história mesma, um eu que possui uma casa: “A minha casa/ é mágica/ como Veneza/ onde nunca/ estive// Mágica e mortal” (p. 15). Passo a outra casa, a fim de iluminar e obscurecer esta: “Sol e sombras/ do cemitério// Pai e mãe/ enterrados// As coisas/ foram/ como foram” (p. 17). Ambas as casas são mortais, e um bocado de morte falam os “vidros” defeituosos, e também um tanto da natureza da morte serão as “coisas” que “foram/ como foram”, pois as coisas são como são; por isso, “Tenho uma vida/ a viver/ e uma morte/ a morrer” (p. 51): há muita coragem em trazer para o universo poético uma verdade como esta, e dar-lhe a poderosa força do simbólico. Afinal, o lugar é “A casa”, e a casa é “Mágica e mortal”. Afinal, “Quanto mais prosaico/ mais poético” (p. 60). Em risco, pois.
Pois, em relação: “Não tenho/ paciência/ para os outros// Não sou/ cristã// Ou/ não estou/ cristã// Tenho uma crista// Sou vaidosa/ como Eva// Sou má// Sou mazinha” p. 59). Não tem paciência mas tem desejo, tanto que os “outros” são “como maçapão”. Não tem “paciência” e vai à escrita dos poemas, que, no fim da contas, não farão mal nenhum aos “outros” apesar da “crista” do autor, indicação de petulância mas também dum estado rebaixado, animal. Por isso a poeta[1] é apenas “mazinha”, cônscia que é do pouquíssimo poder destrutivo que a poesia possui. Por isso a poeta encerra seu livro de poemas com um texto em prosa que começa precisamente com um elogio da bondade: “Não, não há uma beleza que nos salve. Só a bondade nos salva” (p. 81). A poesia, logo, está completamente livre de qualquer responsabilidade de salvação. Apesar disso, a “arte é feita para construir a paz”; apesar disso, a “arte é um modo de lidar com a ausência. E por isso é tão preciosa e perigosa. Nunca é a alegria da presença” (p. 82).
Para a arte para os outros, portanto, precisa de solidão o artista. Precisa de solidão Adília Lopes: “Preciso/ de solidão/ como de pão// Preciso/ de pão/ como de pão” (p. 18). O jogo é sutil, e interessantíssimo: o comparativo é comparativo mesmo. Mas não é comparativo se for verbo. A poeta, assim, precisa da sua “solidão” como precisa de sua sobrevivência – afinal, a sobrevivência do poeta é necessariamente solitária. Por outro lado, quando precisa de sua “solidão”, come “pão” a poeta, pois é isso que alimenta o homem, não versos, não espelhos: “A solidão/ é um beco/ forrado/ de espelhos/ onde o eco/ do grito/ corta/ como facas// E o beco/ é fechado/ como um cubo/ gelado” (p. 14). Um “grito”, ou o “grito” – singular, singular –, “corta/ como facas” – plural. Grito sem outros, pois, grito na solidão. Os “espelhos” do “beco” acabam por refletir o eu para o eu, e a relação está impossibilitada. E a poesia, feita. E as oposições, mantidas, mesmo as sociais: “Em cada rosto/ desigualdade// Terra da mesquinhez” (p. 32). A poesia não salva, mas acusa: não apenas quem escreve precisa do pão nosso de cada dia. E os “defeitos dos vidros” das “janelas” da poeta “são” mui “antigos”: ecos assim românticos numa “Terra” mesquinha, num lirismo despanificado, talvez andem a ficar velhos. Velhos e ruidosos como sons de agulhas de vitrola. Velhos e ruidosos como a voz de Adília Lopes.
“A poetisa/ não é/ uma fingidora”, Pessoa, “Mas/ a linguagem-máscara/ mascara” (p. 22): come pão a “poetisa”, mesmo que em estado de solidão, apesar de que, se “A solidão/ engendra/ monstros”, “A hora/ do jantar/ é a pior/ hora” (p. 62), pois não há com quem dividir o divisível pão. As oposições, por conseguinte, podem ser desfeitas: “Acabou/ o tempo/ das rupturas// Quero/ ser/ reparadora/ de brechas” (p. 24), mesmo que não se livre jamais dos “defeitos” “A casa” da poeta, ou de qualquer poeta. Graças a Deus, de novo. O que há de ético nesta poesia que “nunca é a alegria da presença” será, porventura, uma confessada vontade precisamente de presença. Digo distinto, ou melhor, diz Adília: “E todos estão/ aqui// Mortos e ausentes” (p. 56): a presença da ausência, sim, a memória, claro, mas uma contradição que não se resolve simplesmente, nem se quer resolver. Um defeito, que é, por ser defeito mesmo, uma porta, uma brecha que a vontade da poeta será tanto reparar como reparar, ou seja, será tanto observar como consertar, mesmo que na tragicidade desta poesia a busca sem fim e sem termo possível seja pelo encontro, pela relação.
Por isso a poetisa come pão e trabalha, por isso ela é uma mulher-a-dias: “Vivo/ dia a dia/ sou/ uma mulher-a-dias// Dia a dia/ perto porto parto/ da eternidade” (p. 75). A esta (baixa) trabalhadora de versos pouco resta senão um exercício diário, pois é no cotidiano que têm vez o pão e a escrita. A eternidade, essa, que tenha lugar num lugar de partida (“parto”) e de nascimento (“parto”): “A minha história/ é outra/ e começa agora// Estou sempre/ a começar” (p. 21). E, fique claro, as contradições também (re)começam: entre a solidão e o encontro, entre o dentro e o fora d’ “A casa”, e mesmo entre Deus (cujo Filho, não me quero esquecer, num mui específico pão simbolicamente se corporifica) e o Diabo – sim, com inicial maiúscula: “Vontade/ de dar pulos/ até Deus// Vontade/ de me afundar/ até ao Diabo” (p. 41), “até ao pão” que o Diabo cortesmente amassa, poetisa, graças a Deus.
[1]Prefiro grafar “poeta” a “poetisa”. Adília, no entanto, prefere “poetisa”. Por isso escrevo “poeta”, no texto, e “poetisa”, no título e alhures: de César a César, de leitor a poeta e vice-versa, com todo o respeito.
Luis Maffei (Brasília/DF, 1974), poeta, lançou seu livro de estréia, intitulado A (editora Oficina Raquel, RJ), em 2006. É também compositor e músico, tendo lançado, em 2005, o disco na mesma situação de blake, em parceria com Marcelo Gargaglione. É bacharel em Letras pela UFRJ, mesma instituição pela qual é mestre em Literatura Portuguesa – tendo defendido a Dissertação de Mestrado Do mundo, de Herberto Helder – e onde também realiza seu Doutoramento, que se dedica ao todo da poesia herbertiana. Ainda na Faculdade de Letras da UFRJ, lecionou Literatura Portuguesa em 2004 e 2005. É ensaísta literário, com trabalhos publicados em periódicos especializados como as revistas Camoniana, Metamorfoses e Gragoatá, e colaborador regular da revista Forum Democratico, para a qual escreve sobre música.
