marienbad


                                                      ricardo pinto de souza


número 1

Democracia e melancolia. Há uma gravura de Goya chamada “Modo de Voar”. É possível que vocês já a tenham visto: homens atados a um tecido, espécie de asa, e a cordas, soltos no espaço, voando com seu aparato, batendo asas. Há tensão e esforço na única face visível, misturada a um sorriso, e assim temos a realização às meias de uma fantasia. Antes um gesto de concentração física, como carregar um peso, empurrar uma caixa, puxar uma corda. Isto só contribui para tirar a imagem do terreno do fantástico, pois podemos perceber algum tipo de trabalho sendo realizado. Mas retornamos a esse terreno, não tanto pelo peso insuportável que o aparato teria de sustentar, mas pelo sorriso discreto na face visível. Não expressão de êxtase, nem de satisfação difusa, nem, ao menos, de uma felicidade conformada. Algo mais, algo menos. O homem sorri de si mesmo, para si mesmo, em um gesto íntimo, quase antecipando uma foto de jornal. E aqui, neste vôo com um sorriso que é um “isso,” que é qualquer coisa nova, nesta gravura de 1820, temos um dos primeiros registros do que seria a idéia de democracia após as grandes esperanças da ilustração e das primeiras revoluções.

Goya teve grandes esperanças na ilustração, e o tornou-a um daqueles fulcros que dão conta da história de um artista. Compreendamos que um artista no fim do século XVIII era essencialmente um empregado de corte, com um status e rendimentos superiores aos de um mordomo, por exemplo, mas essencialmente cumprindo a mesma função. O gênio específico de Goya se encontra no fato de não ter aceitado essa posição plenamente e conseguido jogar o jogo crítico, e expressado a ironia e os pesadelos que o alimentavam dentro dos limites que encontrou. Nem o empregado dos grandes, nem o artista moderno, que cria antes de tudo para si mesmo. Goya conseguiu salvar a si e salvar-se para nós talvez porque ao longo de toda sua carreira soube manter um meio termo entre o artista de contrato, retratista de reis e nobres que pintava aquilo que era mandado pintar, e um artista quase obsceno no sentido mais amplo da palavra, com seus retratos populares, com suas inovações, com suas fantasias infernais, essas feitas geralmente ou para si mesmo, às escondidas, ou para a venda de gravuras em edições não muito caras. Costuma-se dizer que mesmo em seus quadros oficiais havia a novidade crítica que ele utilizaria na outra parte de sua obra, uma espécie de sutil ironia, anti-épica, anti-gloriosa, que nos casos mais agudos ridicularizava a aristocracia espanhola ou francesa que era contratado para retratar.

É deste meio lugar em que se pôs, como artista que criava uma arte que não era exclusivamente pública, laudatória e acima de tudo vendável, nem exclusivamente privada, que surge sua profunda melancolia. Goya preso ao inferno da realidade, tentando se equilibrar entre seus sonhos franceses de igualdade, liberdade e fraternidade, e o hábito de retratar a feiúra e o vazio da nobreza decadente espanhola. Eis um jogo triste, que o obriga a abdicar de um absoluto político, de ser plenamente e publicamente o artista que se sonhou como homem emancipado. E é esta meia liberdade que lhe dá o relance do que seria a democracia que se desenvolveria ao longo das décadas e séculos após a sua morte. Não o regime da liberdade plena, nem da igualdade e da fraternidade, mas tampouco uma escravidão silenciosa e cínica. Esta democracia não vem para trazer glória, anjos ou heróis, mas antes para ensinar o convívio com o monstruoso, o conhecimento possível do mal e do limite e sua crítica, como um regime que se constrói em negativo mas que tenta a cada giro e retorno arrancar dos monstros um pouco mais de seu domínio, em um longo, longo percurso. E Goya percebeu antes de qualquer pensador político, antes de qualquer artista ou escritor, que o regime democrático é essencialmente uma forma de tristeza ativa, de escravidão ao trabalho específico do humano na superação de seus limites e de seus erros e terrores. Que o fim da estrada não leva à utopia, mas, com alguma sorte, pode preparar o campo para que ela não seja destruída pelos demônios que a humanidade gera sempre e continuamente.

Nós somos os homens e mulheres da gravura de Goya, e voamos no pesadelo com o trabalho quase insuportável de manter nossas asas, estes mecanismos demasiadamente humanos. Não devemos jamais esquecer que no centro desta figura está um estranho sorriso incerto.



Ricardo Pinto de Souza, professor, escritor e editor-artesão da Oficina Raquel. É autor de CULTURAS.

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