poemas - eucanaã ferraz


Paisagem para Anna Akhmátova

O corpo, ainda corpo,
sabe de cor
a dor. Dizer adeus,
carpir, esconder,
bater palavras contra o muro.
Ruas de São Petersburgo
sob a neblina - o corpo
sabe de cor
onde se morre.
Mas, por entre o estridor
de soldados e funcionários,
cava uma saída:
o próximo poema
(promessa de delicadeza e silêncio)
- ouve cantar uma cereja.


(Passando em frente)

Passando em frente
ao antigo, imponente
prédio:

o leão, velho, pára
e repara, atento,
naquele seu estranho parente.

Repara nas patas
bem postas,
pesadas, afiadas,

nos pelos, nos olhos,
em tudo que, granítico,
jamais apodrece.

O leão velho vê
a si mesmo
e inveja o irmão de pedra.

Pensa, por exemplo, que
não poderia guardar
entradas de edifícios

como faz o pétreo
leão de guarda,
impávido, perfeito.

Enquanto medita, moscas
fazem festa em volta de sua juba,
um tanto suja,

não há como negar, e
todo ele, desse jeito, mostra
uma ternura engraçada,

de palhaço,
de palhaço velho,
mais doce por isso.

O leão de pedra,
ao contrário, é,
depois de um século,

todo empáfia,
um rei
que não morresse,

que não morre,
que permanece, e
mais rei por isso.

O leão de pedra, imóvel,
guarda a entrada do templo,
enquanto o outro

procura por nós, igual
a nós, dentro
do tempo.


Cabal

Desabotoa-se por fim a cena
que se desenhava no baço
da janela do sonho (o sonho
é uma espécie de vidraça?)

e tudo o que se realiza vive
da necessidade, agora que
o motor do instante se agita
e vibra sua perfeição. Enfim,

vem à luz a experiência que
se vinha elaborando no laboratório
de algum andar do sonho (o sonho
é uma espécie de edifício?):

o mar nasce de amar, e águas
sem margem usurpam a cidade,
arrastam inocentes. Os amantes
gozam, é justo que seja assim.


O doido

Diziam, verdade ou não, que fora rico e são
e que a despeito dos bens que possuíra

acabara endividado, falido e torto. Talvez
por isso, embora miserável, a cabeça

reta, o andar
de quem governa e pisa terra extensa e sua

em perambular sob o sol absoluto,
absorvido sabe-se lá por que delírios.

Absorvido sabe-se lá por que delírios,
insultava o vento e o vazio numa agitação

de cabelos e palavras e era comum
vê-lo penteando com seus dedos

encardidos a água das praias,
como se província sua,

como sua líquida mulher ou filha.
Viveu assim, entre feridas e piolhos,

até que desceu a noite
e uma pedra veio buscá-lo.


Eucanaã Ferraz nasceu no Rio de Janeiro, em 1961.
Poeta, publicou, entre outros, Martelo (Sette Letras, 1997) e Desassombro (Quasi, 2001; 7 Letras, 2002 - Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Biblioteca Nacional, melhor livro de poesia de 2002) e Rua do mundo (Cia. das Letras, 2004; Quasi, 2006).
Organizou, de Caetano Veloso, Letra Só, seleção de letras (Portugal, Famalicão: Quasi, 2002 e Cia. das Letras, 2003) e O mundo não é chato, reunião de textos em prosa. Em parceria com Antonio Cicero, elaborou a Nova Antologia Poética de Vinicius de Moraes (Cia. das Letras; 2003). Organizou ainda o volume Poesia completa e prosa de Vinicius de Moraes (Nova Aguilar, 2004) e Cinema, recolha de textos críticos e crônicas de Vinicius (Lisboa: O Independente, 2004). Assinou também a antologia Veneno antimonotonia (Objetiva, 2005), onde pôs lado a lado poemas e letras de importantes nomes da poesia e da música brasileiras. Na área ensaística, publicou Folha Explica Vinicius de Moraes (PubliFolha, 2005).
É doutor em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde leciona.

Na web: http://www.eucanaaferraz.com.br

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