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luis maffei
JAZ O NOME, O FRUTO JAZ
recensão a Um forte cheiro a maçã, de Pedro Eiras. Porto, Campo das Letras, 2003.
no ensejo da primeira encenação brasileira da peça, a 25 de julho de 2007, pelo grupo Taruíras Mutantes – Vitória/ ES
Todos os nomes são bíblicos. Os nomes, assim, algo dizem. E sem demora dirão que não têm dito nada fora da cena. Assim é, assim seja: o ficcional faz com que a realidade apareça ainda mais absurda do que ela, nua, gosta de ser, fingindo, ela própria, a naturalidade das coisas que simplesmente passam. Esta ficção, logo, acusa, acusa: primeiro, uma lista de nomes, os das personagens; na seqüência, a descrição do cenário. É aqui, precisamente aqui, que a obra de Pedro Eiras mostra parte de sua face: é teatro, mas é literatura autônoma. Isto se encena, claro, mas isto se lê.
E isto acusa: “Apartamento burguês (…) .A riqueza é um hábito” (p. 11). Não se trata de uma obra de intervenção, em hipótese alguma. Se bem que toda obra intervém, de um modo ou de outro, na realidade, mas me refiro a um clichê militante, negando-o: Pedro Eiras está longe dele. Um forte cheiro a maçã, é evidente, também. Mas a realidade dos nomes será, no drama, uma realidade para além dos nomes, e os nomes, enfraquecidos, acusarão que, na realidade extrapeça, nomes são meros e neutros identificadores. É aqui que o drama acusa, é aqui que, não necessariamente intervindo, acaba por fornecer uma dimensão terrível da realidade.
Elias é o eixo de Um forte cheiro a maçã. Tópico nodal: no drama, Elias mata-se; na Bíblia, o arrebatado Elias é aquele cuja morte mostra-se, talvez, a mais difícil no universo dos Testamentos: teria ele reexistido em João Batista? Caso sim, faz sentido supor, pelo nome, que é um sacrificado, na peça de Pedro Eiras, quem se mata sem que nenhuma das outras personagens – exceto, ao final, sua mãe – se inconforme. Caso não, ainda pelo nome o profeta que, nas palavras do Cristo, veio “para colocar tudo em ordem”, morre, voluntariamente, diante de uma inarrumável realidade: trazem uma herança a que são incapazes de fazer jus os nomes das personagens de Pedro Eiras: assenta-se, pelos nomes, o vazio; assenta-se, pelos nomes, a defasagem.
É, pois, um núcleo desajustado o “apartamento burguês” – exemplo ilustrativo: “Um quadro: A Última Ceia, de Leonardo da Vinci, numa reprodução barata (no entanto, é óbvio que mandaram fazer de propósito uma moldura cara” (p. 11) –, e o movimento que
aparta impõe-se como movimento único: tem lugar, jamais casualmente, uma “sucessão vertiginosa de acontecimentos” (p. 12), pois ninguém se entende e conversa alguma acaba por fazer sentido. Tampouco ocorre qualquer prática remissiva à compaixão ou àquilo que pode ser entendido como um dos lugares-comuns – no mais benfazejo dos sentidos – bíblicos: o amor. Emanuel, pai de Elias, é quem afirma, num raro momento de lucidez: “A História está cheia de episódios que terminam no vazio” (p. 106).
Como este: a “História” é mimetizada pela “história” de Um forte cheiro a maçã, e nada é mais acusativo do vazio final – não tanto no sentido de fecho, mas muito no sentido de termo – que a celebração motivada pelo comunicado de Elias (“Vou matar-me” (p. 82)): “Um uníssono ‘ah!’ de alívio e satisfação percorre todos” (p. 82). Reitero: nomes bíblicos fora da Bíblia, nomes bíblicos a acusar que nomes são apenas nomes. Mas estes nomes falam dentro duma outra narrativa, e falam que, fora dela, nada falam, nada têm a dizer. Emanuel é pai de Elias: por que anúncios? Magdalena é mãe de Elias: por que redenção, se não existe redenção em Um forte cheiro a maçã? Fora do mundo, apenas parte do mundo: uma chuva de estrelas que, no limite, é capaz de matar; diz Elias: “Quando eu era pequeno (…) pensava que elas iam rebentar em cima de mim” (p. 89). Não rebentam, mas analogizam: algo rebenta “em cima” da personagem, e ela se mata sem que nada a seu redor sofra grande alteração: mui atento ao absurdo de kafkiana inspiração está Pedro Eiras.
Magdalena é a única que realmente se sensibiliza com o suicídio de Elias. É comovente o depoimento final da mãe do protagonista – talvez seja um despropósito chamar a Elias
protagonista, pois ele, ainda que seja o eixo do drama, é quem, por exemplo, menos fala, menos tem voz –, mas, a todos os títulos, baldado: “falámos tanto, tanto, Judite, e não ouvimos nada, nunca ouvimos o Elias a pedir-nos socorro, noite após noite, desde há anos (…), e ele é meu filho, e está agora no quarto a morrer, Judite, no quarto a morrer” (p. 141). Pois bem, Elias, ainda que Magdalena passe a se dar conta do poder corrosivo e corroído do que anda a sua volta, de fato morre, sem que ninguém, nem mesmo sua mãe, o salve. Agora sim, a culpa. Agora sim, a grande metáfora da desarrumação incontornável dum (do?) mundo: há uma festa, convocada por Elias, para que ele anuncie que vai matar-se; acaba a festa, e, antes da longa fala da mãe de Elias, “Magdalena e Judite vão limpando e arrumando” (p. 135).
Tudo há a ser arrumado, mas nada pode ser arrumado, exceto os talheres, exceto o que tem pouquíssima importância. Neste contexto burguês, alguma memória do Eça d’O primo Basílio se levanta, pois, num primeiro momento, pensa-se que Elias relatará aos amigos e parentes a peça que terá acabado de escrever. Do mesmo modo que no romance queirosiano, na ficção de Eiras é mostrado um contexto aparentemente seguro que, no entanto, se acha à beira da destruição. O fim das respectivas personagens principais e marginais, Luiza lá e Elias cá, é, e só poderia ser, a morte. A diferença é que Ernestinho, no romance de Eça, tem um drama quase pronto, e Elias, no drama de Pedro Eiras, não, apenas a vaga idéia dum massacre de índios estadunidenses. Mas o massacre é outro, e a vítima é quem escreve(ria) a peça jamais a encenar.
Que peça, então, terá lugar no “desfile (…) patético” (p. 53) que são as personagens de Um forte cheiro a maçã? Diz Simão, primo distante de Elias, num gesto nada apostólico – nomes, na realidade, fracos de si próprios, a grande força da obra –: “Sem um bocadinho de espectáculo” o suicídio “também não vale a pena!” (p. 84). Há um outro sentido que se ganha, por perda, no “vazio” construído por este encontro bizarro: a ceia que tem lugar não é a natalina; não obstante, é à meia-noite que ocorre o suicídio de Elias: um da Vinci baratamente reproduzido circundado por uma “moldura cara”? O relógio de pêndulo que marca as horas cria uma atmosfera fortemente representativa, como se contasse o que resta de vida não só para o suicida, mas também para cada um dos comensais – penso, de passagem, numa Liv Ullmann assombrada pelo tic-tac de seu pequeno relógio no Bergman de Cenas de um casamento. A ambiência, logo, acerca-se do horror, acentuado pela progressiva escuridão que se adona dos momentos finais da peça.
“A sombra aumenta no palco, apenas Magdalena e o corpo de Elias ficam iluminados” (p. 141): sim, é sombria a atmosfera. E solitária, pois a realidade real que se coloca é a da solidão, anulada que está a criatividade do pecado original: é na hora da morte, não havendo redenção ou transcendência divisada, que Elias sente “um forte cheiro a maçã” (p. 131). O encerramento do drama revela uma Pietà dilacerante, de personagens fora de lugar, e uma indicação tremenda do literário em autônomo estado que é esta obra: aparece um coro? Um coro falso? Uma desesperada ladainha mundana a não ser encenada? Um mantra impossível que gostaria de ser um refrão? Isto, agora, não sei se se encena, isto agora se lê:
O corpo de Elias jaz no colo de Magdalena.
O corpo de Elias jaz no colo de Magdalena.
O corpo de Elias jaz no colo de Magdalena.Silêncio. Escuridão. (p. 141)
Luis Maffei (Brasília/DF, 1974), poeta, lançou seu livro de estréia, intitulado A (editora Oficina Raquel, RJ), em 2006. É também compositor e músico, tendo lançado, em 2005, o disco na mesma situação de blake, em parceria com Marcelo Gargaglione. É bacharel em Letras pela UFRJ, mesma instituição pela qual é mestre em Literatura Portuguesa – tendo defendido a Dissertação de Mestrado Do mundo, de Herberto Helder – e onde também realiza seu Doutoramento, que se dedica ao todo da poesia herbertiana. Ainda na Faculdade de Letras da UFRJ, lecionou Literatura Portuguesa em 2004 e 2005. É ensaísta literário, com trabalhos publicados em periódicos especializados como as revistas Camoniana, Metamorfoses e Gragoatá, e colaborador regular da revista Forum Democratico, para a qual escreve sobre música.
