literatura e futebol: entrevista com mauricio murad


Mauricio Murad é sociólogo formado pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS/UFRJ), doutor em ciências do desporto, professor adjunto da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e professor titular de sociologia do esporte no mestrado da Universidade Salgado Filho (Universo). Publicou em 2007 o livro A violência e o futebol.

Entrevista concedida a Fernando Miranda e Raquel Menezes.

Assim como a literatura, as artes plásticas e o cinema, o futebol pode traduzir características de uma cultura, tanto pelo caminho da sociologia, quanto pelo caminho da história. Como o futebol é capaz de mimetizar uma cultura?

Apesar de o futebol ser um conjunto de técnicas desportivas, físicas e corporais, ele é muito mais uma arte que um esporte, por traduzir uma simbologia humana: a vida e a morte. O que é a vida humana, do ponto de vista filosófico? Uma síntese que resulta em movimentos conflitantes, entre o construir e o destruir, entre o estar e o desaparecer. O futebol traduz isso porque a vitória de um é a derrota do outro, o gol, êxtase da alegria de um lado, simboliza a tristeza do outro, o grito de uns é o silêncio de outros, o desespero do goleiro em face à alegria do atacante. O futebol é muito imprevisível, portanto, como a própria vida, que você programa hoje e não sabe o que vai acontecer amanhã. Então, no caso brasileiro, ele ajuda a traduzir a exclusão social, os preconceitos de classe, os preconceitos de raça, os preconceitos contra gênero, contra a mulher. Afinal, futebol ainda é um ambiente muito masculino, tradutor da sociedade, que também é. Costumo dizer que esse esporte tende a mostrar apenas o positivo – “futebol é democrático”, “futebol permite que o pobre e o negro, que o baixinho e o alto joguem”, e isso é bom. Mas futebol também é opressão, é exclusão, futebol é exploração de marketing. O futebol é o grande tema, pois, porque ele é o tradutor da vida coletiva; um tradutor avançado, porque traduz a vida coletiva pelas suas contradições. E, do ponto de vista da sociologia, é o “fato social total”. O que seria um fato social total? É aquele fenômeno que consegue sintetizar toda a vida social, por isso ele traduz a idéia de coletividade.

O caráter coletivo do futebol é tratado em A violência e o futebol. Quais as características desse esporte que articulam a idéia de coletividade?

O coletivo é uma das grandes dimensões do futebol, desde a psicologia à história, incluindo a cultura, sobretudo a sociologia. O futebol, logo, articula a idéia de coletividade; mais do que isso, ele integra a idéia de individualidade com a coletividade. Procurei montar uma equação para facilitar, coisa didática: “Eu sou Vasco”. “Eu”, individualidade, “sou”, verbo de identidade, e “Vasco”, uma equipe, um símbolo, algo que está além do indivíduo. Nessa pequena frase descobri que a individualidade, a identidade e a coletividade estão juntas, integradas. O futebol permite isso, tanto dentro das quatro linhas quanto fora das quatro linhas. Por exemplo, o futebol é o esporte que melhor realiza o ideal grego de jogo, o ideal olímpico. Para os gregos, a melhor forma de ludicidade é aquela em que o jogo é coletivo, sem eliminar o brilho individual. Portanto, tem-se a individualidade, a idiossincrasia, como eles costumavam dizer, e essa individualidade pode brilhar, decidir, esperar ou se antecipar, pode chegar antes ou parar, lançar ou completar. A individualidade é aquele último lance em que o brilho e a inteligência são escolhidos, indicam o que fazer. Para chegar a este último lance, houve todo um processo coletivo. Afinal, futebol é jogo coletivo, como se diz. Sendo que, dentro de campo, o caráter coletivo não elimina o brilho individual, pois este se calca sobre o conjunto, sobre o global. A lógica interna do jogo já favorece isso.

A frase “Eu sou Vasco” traduz a identidade do indivíduo com seu clube. Com o marketing, o pragmatismo e o capitalismo exigindo do futebol limitar-se a um negócio, o torcedor não perderá a identidade com seu clube?

Isso é um processo muito geral. Massacrou o futebol mais artístico. Massacrou as formas de arte, não só a literatura, mas também o cinema. Isso tudo é um processo empobrecedor da criatividade, das artes, das iniciativas pessoais. É o “ser” substituído pelo “estar”. Há uma contradição, porque, num mundo absolutamente burocrático, absolutamente marqueteiro, absolutamente capitalizado, homogeneizado pelos Estados Unidos, pelo imediatismo restritivo, os artistas conseguem, ao mesmo tempo, se impor. O que há hoje é o imediatismo, resultado, talvez, do padrão americano. Qual é o resultado disso? É a diminuição da criatividade; o preparo atlético melhora, a criatividade diminui. Entretanto, há um espaço para a resistência. As artes e os esportes são grandes instrumentos dessa resistência. Porque através das artes e dos esportes pode-se propor um outro mundo, um outro sentido para as coisas, para a vida e para as maneiras de produzir, realizar, sobretudo os desejos, as utopias.

Além do futebol há, também, a redução da criatividade no próprio meio jornalístico. Não há mais o José Lins do Rego, o Drummond, o Nelson Rodrigues. Assim, o que temos hoje é um texto jornalístico pseudo-objetivo, que trata do jogo da seguinte forma: “O fulano de tal entrou na área chutou, defendeu, ponto. Aos vinte e quatro, cruzou, gol. Saiu na frente, está em vantagem”. E fica um empobrecimento textual…

O meio jornalístico, quando vai tratar de futebol, focaliza mais a quantificação – quantas faltas, quantos “não-sei-que”, qual a precisão disso, daquilo – e menos a criatividade. O jornalismo esportivo e a análise do jogo, tão enriquecedores para a literatura brasileira, morreram com o José Lins do Rego, o João do Rio, o Drummond, o Paulo Mendes Campos, etc.

Interessante ver como as artes se apropriam do futebol. Por exemplo, você citou João Cabral, Drummond, Nelson Rodrigues, e, hoje em dia, isso vem sendo retomado por autores como Luis Maffei, Sergio Nazar David…

Hoje em dia, além desses citados, temos o Luis Fernando Veríssimo, o João Ubaldo Ribeiro, e tantos outros. A literatura brasileira melhorou o texto esportivo, e, por outro lado, o texto esportivo deu farto material para a literatura brasileira. Embora ela não tenha aproveitado tanto no romance: Água mãe, do José Lins do Rego, de 1941, e O Goleiro e a Bola, um livro juvenil do Jorge Amado, são raros exemplos. Talvez um pouco mais na crônica, na poesia e no conto. Na crônica, todos os grandes da literatura brasileira trataram do futebol, e não foi um tratamento episódico, foi um tratamento constante. O João do Rio, o Barão de Itararé, o Arthur Azevedo, o Coelho Neto … o José Lins do Rego escreveu 1572 crônicas sobre futebol no no Jornal dos Sports. José Lins, Flamengo até morrer, aliás, é um livro do Ediberto Coutinho, outro nome de grande destaque na nossa literatura que se dedicou ao tema do futebol, pois ele ganhou, com Maracanã, adeus, o prêmio Casa de las Américas, o Nobel da literatura latino-americana, em Cuba, antes do Jorge Amado.
Entre os cronistas mais recentes, posso citar o Rubem Braga, o Paulo Mendes Campos, o Fernando Sabino, o Drummond, etc. O conto também tem uma fartura de futebol. A poesia, muita coisa, um pouco menos, mas muita coisa. Então, na poesia, no conto e na crônica, nessa ordem, debaixo para cima, a literatura brasileira tratou e tratou muito bem o futebol. Entretanto, Nelson Rodrigues não fez uma grande peça sobre futebol. Em suma: a arte brasileira não deu ao futebol um peso equivalente ao que o futebol representa para nossa vida coletiva, para nossa vida cultural. Porém, tratou muito. Eu também tenho uma modesta contribuição: escrevi um livro chamado Todo esse lance que rola, uma história de namoro e futebol, que é uma ficção. Através do namoro entre dois adolescentes, conto a história social do futebol brasileiro. Esse livro, publicado em 94, foi premiado pelo MEC, em 97.

E talvez o futebol não se deixe ser mais apropriado pela crônica por ser mais ligeiro. Já a poesia tem como características o ritmo e a métrica. Falo de Luis Maffei, que tem um poema sobre o Ronaldinho Gaúcho, cujo verso “tem-de, dá-se” é um drible, e é um drible do Ronaldinho.

É possível que sim, você levanta uma coisa interessante, o próprio jogo rítmico da poesia talvez facilite isso. Você estava citando o Drummond, há o Vinicius também. O Vinícius tem um poema em homenagem ao Heleno de Freitas, que foi um grande jogador dos anos 40, uma figura trágica, uma figura altamente literária. O Ediberto Coutinho escreveu uma peça, Heleno Gilda, sobre o mesmo Heleno. O Garrincha também é um personagem riquíssimo. Eu acho que há personagens muito fortes, mais do que prontos para a literatura. De qualquer maneira, eu quero chamar atenção para o fato de dizer que “A literatura brasileira tratou mal o futebol”: é uma generalização, mas, na verdade, não é tudo. Podemos explicar, talvez, por esse critério que você coloca. Eu penso que, embora eu não seja da área, se alguém quiser escrever um livro, um bom romance, denso, um romance-romance, sobre futebol, escreve.

Já na música o futebol é um tema mais recorrente.

A música brasileira, certamente, foi a arte que mais trabalhou o futebol. O Pixinguinha, considerado um dos maiores músicos do século XX, foi o autor da primeira grande música sobre futebol, o choro “1×0”. O Wilson Batista, flamenguista doente, foi o grande polemista com o Noel Rosa, fez várias músicas sobre futebol. O Noel Rosa, que nunca declarou seu time – mas tudo indica, para a alegria do Luis Maffei e minha, que era vascaíno –, fez alguns lances sobre futebol: “vá perguntar a seu freguês do lado qual foi o resultado do futebol”. Descobri, numa pesquisa que fiz no morro da Mangueira, chamada Mangueira: duas estações, futebol e samba, um diálogo no qual Seu Aloisio do Violão, fundador da Ala dos Compositores, revelou ter visto numa birosca, na Mangueira, o Noel Rosa e o Cartola, conversando e dizendo “temos uma dívida com o futebol”. Além disso, há o Wilson Batista e depois vem toda essa geração de que aprendemos a gostar e é espetacular: o Tom Jobim, o Chico Buarque, o Gilberto Gil, depois o Jorge Ben Jor.

Não podemos deixar passar o Lamartine Babo, que fazia as marchinhas para os clubes e elas passavam a ser os hinos – mais conhecidos que os “hinos oficiais”. É um processo de apropriação ao contrário: sai-se do futebol, vira-se música, e, por ela, retorna-se ao futebol. Como muitas canções são apropriadas pelas torcidas, modificando a letra e um ou outro detalhe…

Penso no Wilson Batista, “Flamengo joga amanhã, eu vou pra lá, vai haver mais um baile no Maracanã”. Antigamente, “baile” era quando um time dava um chocolate no outro. Depois, João Nogueira regravou, “Flamengo joga amanhã, eu vou pra lá, vai haver mais um barulho no Maracanã”. Wilson Batista dizia, “o mais querido, tem Rubens, Dequinha e Pavão”. E o João Nogueira, “o mais querido, tem Zico, Adílio e Adão”. Então, o Lupcílio Rodrigues, que foi um dos grandes compositores da música brasileira, fez o hino do Grêmio, que pela pesquisa do Ibope foi considerado o mais bonito.

Tratando do afastamento das pessoas do estádio, sem querer entrar no mérito se a frase “brasileiro não gosta de futebol” é correta ou não. A violência, que está no título do seu livro, é o ponto central disso, mais que, por exemplo, o preço do ingresso ou falta de infra-estrutura no estádio?

Eu te diria assim: a principal causa de afastamento do público dos estádios é a violência. Nós fizemos pesquisas na UERJ, articulada com o Ibope, consultamos pesquisas da USP, da Federação do Pará, e, na Europa, participei por dois anos de um grupo da UEFA, que cobria 16 países europeus, oito efetivos, oito observadores – isso está no livro – justamente para pesquisar a violência e medidas preventivas. A principal causa é a violência, mais que o preço, mais que as condições de transporte, as condições dentro do estádio, mais que o afastamento de craques, mais que a política interna dos clubes. Tudo isso também contribui, não estou negando, mas a questão central é mesmo a violência.

Mas você fala da violência das torcidas organizadas?

Exatamente. Ela sai dali e se alastra. No caso da violência dentro de campo, segundo todas as nossas pesquisas, o torcedor, de um modo geral, não gosta, ele gosta de ver o futebol limpo, bonito. Mas o que ameaça, o que deixa o cara em casa é a violência das torcidas organizadas. Porque é uma violência seriíssima, que tem que ser contida, porque ela está minando como cupim esse grande entretenimento, esse grande lazer popular que é o futebol. Por outro lado, a mídia generaliza todo esse troço, o que aparece é só a violência. Então, a impressão que temos é a de que os europeus estão muito à frente da gente, e não é. Entretanto, essa sensação da violência é muito pior que ela própria, porque é ela que anestesia, que gera o tédio, o medo. O medo pode gerar uma reação. Mas a sensação de violência gera o tédio, o esvaziamento, a sensação de impotência, e essa é deprimente, ela te deixa em casa. Cito uma frase do Montaigne: “Pior que os fatos são as opiniões sobre os fatos”, e a mídia é muito responsável por isso, porque ela glamouriza para vender jornal. Há uma campanha dentro das torcidas organizadas contra a violência, eles dizem que não conseguem um minuto no ar, o cara que vai com tchaco, com soco inglês aparece na primeira página do jornal. E eles dizem, nós temos depoimentos gravados na UERJ, “A gente ganha as menininhas”. Ou seja, a violência é glamourizada, espetacularizada e generalizada porque vende. Mas é uma minoria que faz isso, que tem que ser contida, tem que ser controlada, porque ela é perigosa. E a sensação de que ela é maior do que efetivamente é gera o afastamento das pessoas.

Para uma pessoa que gosta, para a qual o futebol é uma paixão, fica uma perspectiva boa ao publicar um livro que se chama A violência e o futebol?

Acho que fica. Você poderia perguntar, “Fica uma esperança em você?”. Fica. Eu tentei ser jogador de futebol, não consegui. Eu tenho um livro, Dos pés à cabeça, elementos básicos de sociologia do futebol. O que eu não pude fazer com os pés, faço com a cabeça. Apesar de tudo de mau que abordamos, ainda acho que é pelo esporte e pelas artes que temos as maiores possibilidades civilizatórias, ou, no mínimo, as maiores possibilidades de contribuir para uma resistência minimamente civilizatória. Essa barbárie que anda por aí, no mundo, no Brasil, nas estruturas de poder, nas estruturas empresariais, nas universidades, essa competição desenfreada, selvagem, absurda de um pisar o outro, pode ser minimizada pelas vias do esporte. O futebol, por exemplo, por ter uma grandeza cultural, simbólica e existencial, tem que ser aproveitado. Homero dizia, e eu coloco no livro, que o esporte é bom porque você tem sempre que olhar o outro, respeitar e pensar no outro. Esse é um limite ético e uma lição ética que o esporte pode trazer.

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