marienbad
ricardo pinto de souza
número 2
A NOVA ENCICLOPÉDIA. POSSESSÃO. Como em estar possuído e soltar um grito mudo, ou estar possuído e se dobrar de dor. Também: com os olhos vazios adivinhar a revolução da vida, ou simplesmente flutuar no tambor do ouvido enquanto o espírito que fala te possui. Sinônimo de amor violento, também de pedras na garganta (dizem que Sólon, para superar sua gagueira, ensaiava discursos com pedras na boca: possessão política cf verbete loucura de pedra). Sinônimo também de dor, mas de êxtase, como no filme agonia e êxtase, bom filme, ótimo título. Apenas os possuídos possuem um sentido mais profundo. Entretanto, por estarem totalmente afundados na própria possessão, à moda de um náufrago, e por não terem de fato a palavra exata para partilhá-lo, acabam por soltá-lo no tal grito emudecido, ou seja, perdido no ar, inaudível. A possessão é um segundo estágio do fantasma de eros, talvez sua carnalidade, em que abandonamos a melancolia e alegremente caminhamos para a morte, no massacre e no afago. O possuído possui pouquíssima visão, está isolado em uma ilha deserta, inalcançável (cf Dahmer, André. “A cabeça é uma ilha”) e suas escolhas (e sua vontade de escolha, e sua energia, dado que a possessão o consome) se reduzem à conspícua paralisação da memória no momento da possessão, ou pior ainda, no estado letárgico que chamamos de “sono do possuído”, em que também há a paralisação da memória no momento da possessão, mas dessa vez em câmaras muito secretas, de um erotismo negro e insalubre.
É comum dizer que o possuído não possui alma, o que seria inexato. Não é que falte alma ao possuído, é que esta se desvaneceu nas energias que a fusão possessora gera. Antes, temos uma alma mista, confusão do possuído, do possessor e da ausência de ambos, que é o estado de espírito mais natural e diríamos mais confortável do possuído. Talvez reste dizer que a dieta do possuído, dados os humores estranhos que circulam por seu sangue, e dada a grande quantidade de calor, real e metafórico, que o processo todo produz, é não apenas restrita, mas exclusiva. Um possuído pode consumir apenas pequenas bolachas circulares chamadas “bolachas do possuído”, alimento estranho, de farinha suada, fermentada e lavada com fel. Seu sabor é repugnante, mas parece haver, devido a um processo bio-químico ainda desconhecido, uma espécie de afinidade eletiva entre os possuídos e este biscoito parecido em odor, sabor e consistência, com merda.
Quanto ao tratamento, exorcismos são inúteis, como qualquer outra forma de afeto. Antes, o possuído sente-se menos possuído nas manifestações violentas da vida, domesticada ou não: pornô bestial, S&M (de preferência com a presença de sangue), terremotos, tsunamis, cenas de guerra e qualquer coisa que envolva risco e sofrimento. Sabe-se de uma paciente que após assistir durante 24h ininterruptas ao filme “A paixão de Cristo” conseguiu melhorar, embora com seqüelas terríveis, como o hábito megalômano de gritar “Eu sou a filha do homem”, ou um indesculpável apetite por postes de madeira e pregos.
Há, obviamente, a possibilidade da despossessão, quando o espírito que possui e o próprio possesso entram em acordo, na harmonia bela de um idílio. Mas esta seria esperança (cf infantilismo), como todas, vã. Mais valeria acreditar em fantasmas.
Ricardo Pinto de Souza, professor, escritor e editor-artesão da Oficina Raquel. É autor de CULTURAS.

