poemas - manuel de freitas
VOLO VIVACE*
Há noites de que perdemos
o rasto, desde a chegada
ao São Luiz a todos os bares
seguintes – geografia,
entretanto, dificilmente verificável.
Chamem-lhe nostalgia, se
quiserem. Não havia
muito mais que nos movesse
a sair de longes terras
para uma cidade com eléctricos.
(E o teu corpo, Liliana, não era
bem uma razão. Nada
que te impedisse de morrer
na sarjeta destes versos, depois
de termos gasto as asas do desejo.)
Por fim, talvez no Gingão,
encostávamos a cabeça
a um muro de garrafas
e sonhávamos ao vivo com
o violino de Blaine Reininger.
Fantasmas
sabendo-se fantasmas.
Mas o assobio de um de nós ficou gravado.
*inédito
ARTE POÉTICA I
Ao escrever ave
não estou a escrever
cigarro,
tinteiro,
vazio.
O real é contundente,
de acordo,
mas que dizer das palavras?
(De resto, será o “real”
assim tão real?)
Tinteiro é coisa que já
não se usa, ave ainda
– mas nem sempre bem.
E o cigarro entretanto ardeu.
CRONOFOBIA
Sou contemporâneo de Villon
e escrevo às vezes a Montaigne,
arguto mas demasiado absorto
no renome e na sabedoria instável
dos seus livros anotados.
Ouvi ontem, junto de Lady Nevell,
as últimas composições de Byrd
para virginal e pareceram-me
– a primeira pavana, sobretudo –
uma dádiva excessiva à posteridade.
Escrevo estas linhas agora
outrora, olhando de frente
o crepúsculo e as poucas nuvens
que toldam, por desfaçatez,
o céu irremediável de Janeiro.
Corre entretanto o boato de que
Castela se apossou de Portugal
e houve até um poeta obscuro
que preferiu morrer antes disso,
em versos de imponderável beleza.
Não sei. O vinho cola-se-me uma vez mais
aos lábios, cansados peregrinos do amor,
e um galgo aproxima-se devagar
da mão que nunca lerá José Saramago.
JORDI SAVALL, 2001
Poucos dias antes, muita gente
morrera por razão nenhuma,
num pleonasmo em directo
de que ficou somente a data.
Era difícil, mesmo na mais asséptica
sala de concertos de Portugal,
não comentar o sucedido.
A música pode e não pode refrear
a barbárie. Nessa noite, porém,
a Ária em Sol de Bach foi a melhor,
talvez a única solução
para o horror de estarmos vivos,
prontos a morrer pela pior razão
RUE DU MARCHÉ AUX HERBES
Desta vez foi o teu corpo
– não o sabias tão sensato –
quem tudo fez para impedir o poema,
versos a doer nos músculos.
A cidade adormece, num langor
de puta velha, depois de ter
anestesiado centenas de turistas
com luz inepta e música de encomenda.
Nós, de pé, apenas pedíamos sombra
e eu preferia não situar na Grand Place
uma discreta canção de Brel,
que teve a sorte de morrer
antes de ver a cidade reduzida
a estábulo dos príncipes da mediocridade;
esses que decidem o futuro que não há
e usam gravatas de seda enquanto nos exterminam.
A cidade adormece, cansada de ser puta,
enquanto nós, menos putas,
procuramos em vão esse luxo.
E há baratas, não propriamente
alaúdes, no cerco abrupto das janelas.
Manuel de Freitas nasceu em 1972, no Vale de Santarém. Vive desde 1990 em Lisboa, onde tem exercido as actividades de tradutor, crítico literário e editor. É co-director da revista Telhados de Vidro. Publicou, além de vários livros de poesia, ensaios sobre literatura portuguesa contemporânea e foi responsável, em 2002, pela organização da antologia Poetas sem Qualidades (Averno).
Alguns de seus poemas estarão na antologia brasileira do autor, primeiro volume da série Portugal, 0, a ser lançada, pela editora Oficina Raquel, no dia 29 de agosto, quarta-feira, a partir das 20h, na TABERNA DO JUCA, Rua Mem de Sá, 65. Este evento contará com um recital, no qual serão lidos poemas do autor.
