poemas - rui pires cabral
CANTIGA
as palavras repousam fermentadas
na geometria do meu lagar
é uma guerra e está dentro de mim
como um bicho emboscado
agora já tenho quatro versos turvos
e uma dor longínqua no intervalo
dos ossos
com o que sobra
invento outra mitologia
VILA REAL
para a Daniela e a Viviana
Estamos sentados entre o xisto e a caruma
no chão da montanha. Os choupos são uma impressão
riscada no cenário à nossa frente, mas nós temos as mãos ocupadas
com outros pensamentos. Às vezes era doloroso viver atrás
das montanhas, pressentíamos a distância do mundo como uma faca
e usávamos o mesmo gume para dividir entre nós
as enormes tarde de domingo.
Nós os três contra o ar duro do Marão, os braços em torno
dos joelhos. Quase uma imagem para a música das cassetes
que eu levava para todo o lado (alguma desenquadrada peça de Satie
entre Polly Jean e Tom Waits a uivar como um cão). Tínhamos vindo
à procura da neve debaixo dos troncos, atirámos pequenas pedras
às fundações do vale. E como parece branco e nítido o inverno.
PEACE FESTIVAL
Espanta-espíritos e legumes biológicos
no parque da biblioteca, nas barracas brancas
à volta do coreto onde se oferecia comida
mexicana, leituras do Tarot e artesanato nepalês
produzido nalguma comuna hippie para os lados
de Cardiff. Íamos indecisos, predispostos a olhar
muito de fora a comoção, mas que sentimento
nos alcançou afinal, na relva entre os quacres
de Warwick e os membros do Grupo Europeu
para a Harmonia Global, a ouvir funk, salsa
e rock “céltico” – seria alegria ou apenas a glória
de uma tarde de Junho na Terra?
Tu experimentaste as sedas dos indianos e eu
comprei um pisa-papéis com três escaravelhos
lá dentro, garantiram-me que era da Zâmbia
ou do Zimbabué, já não me lembro, para mim
há-de ser sempre do coração da Inglaterra.
DIANA OF LOVE
Estávamos em Londres naquele dia de Setembro
em que foi a enterrar a Princesa do Povo. Não havia
barulho nos passeios, não havia casa aberta
onde pudéssemos comprar qualquer coisa
para merendar na relva de St James ou Kensington
Gardens: os próprios parques tinham mergulhado
num lutuoso torpor. Sentados à sombra, nós os dois
estávamos exactamente a meio da nossa história.
Para trás, a lenta cadeia de acasos que culminou
no encontro a desoras sob os astros duma gruta;
pela frente, todos os maus passos que, somados,
haveriam de ditar o nosso fim. Mas nessa tarde
de sol e silêncio, enquanto a Inglaterra chorava
aquela que na morte teve o nome do amor,
estávamos juntos ainda – e sei que fomos felizes
na cidade mais triste do mundo. Era sábado,
uma mulher que passava vendeu-me um ramo
de rosmaninho (for remembrance, dear): largos meses
murchou numa gaveta. E quando dele me desfiz
já não era um memento por Diana, mas o último
vestígio de um amor tão morto quanto ela.
NÃO HÁ OUTRO CAMINHO
para o Vítor
Os poemas podem ser desolados
como uma carta devolvida,
por abrir. E podem ser o contrário
disso. A sua verdadeira consequência
raramente nos é revelada. Quando,
a meio de uma tarde indistinta, ou então
à noite, depois dos trabalhos do dia,
a poesia acomete o pensamento, nós
ficamos de repente mais separados
das coisas, mais sozinhos com as nossas
obsessões. E não sabemos quem poderá
acolher-nos nessa estranha, intranquila
condição. Haverá quem nos diga, no fim
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda
assim. Regressamos a essa solidão
com que esperamos merecer, imagine-se,
a companhia de outra solidão. Escrevemos,
regressamos. Não há outro caminho.
Rui Pires Cabral nasceu no Outono de 1967 em Macedo de Cavaleiros, pequena cidade do nordeste transmontano. Estudou História e Arqueologia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Os seus primeiros livros de poemas – Geografia das Estações (1994) e A Super-Realidade (1995) – foram publicados em Vila Real, em edição de autor. Seguiram-se entretanto quatro outros livros: Música Antológica & Onze Cidades (Presença, 1997), Praças e Quintais (Averno, 2003), Longe da Aldeia (Averno, 2005) e Capitais da Solidão (Teatro de Vila Real, 2006). Vive desde 1995 em Lisboa, onde trabalha como tradutor de inglês. Alguns de seus poemas estarão na antologia brasileira do autor, segundo volume da série Portugal, 0 a ser lançada, pela editora Oficina Raquel, no dia 29 de agosto, quarta-feira, a partir das 20h, na TABERNA DO JUCA, Rua Mem de Sá, 65. O evento contará com um recital, no qual serão lidos poemas do autor.
