editorial

A literatura tem que ver, em contrapartida, com o informe, com o inacabado, como disse Gombrowicz e como o fez. Escrever é uma questão de devir, sempre inacabado, sempre a fazer-se, que extravaza toda a matéria vivível ou vivida. É um processo, quer dizer, uma passagem de Vida que atravessa o vivível e o vivido. [...]

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                                                            luis maffei

A MÚSICA DA AURORA, A MÚSICA DO INFERNO

Recensão a Ésquilo na tormenta, de Santo Souza. Aracaju: Edição de Autor, 2006

São muitas as memórias que se lêem em Ésquilo na tormenta. De partida, uma cruz com sangue: “Brilha nas mãos a lâmina fatal,/ e as bruxas deslumbradas se levantam/ para beijar a cruz ensangüentada” (p. [...]

marienbad

                                                      ricardo pinto de souza

número 3
Beatriz nua. No terceiro capítulo da Vida Nova, Dante descreve seu primeiro sonho com Beatriz. Após tê-la encontrado uma vez na infância, a revê nove anos depois. Seus olhos recebem um cumprimento e isto basta para que, emocionado, se recolha ao quarto para pensar. Acaba dormindo, e sonha. Sonha com um [...]

de como exorcizar fantasmas: sem nome de helder macedo – teresa cerdeira

L’oeuvre moderne fournit son propre mode d’emploi.
– Antoine Compagnon,
Les cinq paradoxes de la modernité [1]
O último romance de Helder Macedo publicado em março de 2005 chega-nos com um duplo apelo ao insólito: o título desconcertante – Sem Nome [2] – e a sua abertura com um clássico qüiproquó digno de uma cena tragicômica de [...]

cadernos brancos – rodrigo linares

Texto de Maria Clara Carneiro.

Como tantos que vêm das bordas pelo trabalho, pelo estudo, todos os dias, e se acostumam. Às vezes, entre um cochilo e um livro, olhava a paisagem. Sempre me parecia meio cinza para os lados do Cristo. Aos poucos, me descobri voyeur de ônibus.
Porque, seu moço, esses dias não estão [...]

uma senhora contemporânea do futuro: entrevista com cleonice berardinelli

Cleonice Berardinelli é a maior lusitanista brasileira. Conhecida carinhosamente como Dona Cleo por seus alunos e discípulos, Cleonice está há mais de sessenta anos exercendo o magistério. Graduada pela Universidade de São Paulo em 1938 e professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Pontifícia Universidade Católica do mesmo estado, é autora, [...]

nietzsche e o “caminho do criador”: um breve interlúdio entre a atriz e o filósofo – andrea copeliovitch

Nietzsche e o “Caminho do Criador”: um breve interlúdio entre a atriz e o filósofo [1]

Se alguém perguntar o porquê do se fazer,
Responde-se o porquê do perguntar.
O tecer não tem um porquê enquanto ato de entrelaçar.
– José Eduardo Gramani [2]

Disse a atriz ao filósofo:
- Não entendo bem o que tu falas. Meu pensamento não atua [...]

leitura fenomenológica de sampa – lucia santaella

A leitura de uma letra de canção é sempre uma espécie de mutilação. Diferentemente de um poema impresso, código escrito e re-escriturável pela leitura, a letra da canção é — inseparavelmente da música — sopro da voz no ar, instante presente da fala cantada ou do canto falado — a sua presença.
Nessa medida, muitos dos [...]

quatro poemas de patrizia cavalli

Fra tutte le distanze la migliore possibile
è quella di un tavolo di normale grandezza,
di ristorante per esempio o di cucina,
dove possibilmente io possa raggiungerti
ma in verità non lo farò.
E fuori la stessa luce di ieri, lo stesso azzuro
aprono altre distanze
e chiedo alla gentilezza delle nuvole
di intervenire, meglio grigie che bianche,
per svelare l’imbroglio degli azzurri
che fingono [...]

poemas – antonio carlos secchin

Auto-retrato [1]
Um poeta nunca sabe
onde sua voz termina,
se é dele de fato a voz
que no seu nome se assina.
Nem sabe se a vida alheia
é seu pasto de rapina,
ou se o outro é quem lhe invade,
com a voragem assassina.
Nenhum poeta conhece
esse motor que maquina
a eclosão da coisa escrita
contra a crosta da rotina.
Entender [...]