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luis maffei
A MÚSICA DA AURORA, A MÚSICA DO INFERNO
Recensão a Ésquilo na tormenta, de Santo Souza. Aracaju: Edição de Autor, 2006
São muitas as memórias que se lêem em Ésquilo na tormenta. De partida, uma cruz com sangue: “Brilha nas mãos a lâmina fatal,/ e as bruxas deslumbradas se levantam/ para beijar a cruz ensangüentada” (p. 15). Toda cruz fala de Cristo (ainda que não fale, fala), mas muitas bruxas falam de Shakespeare. Num livro em que Ésquilo aparece no título, a dimensão é inegavelmente trágica. E ocidental. E memorial: “cavaleiros malvados, magos, ébrios,/ a procissão de loucos e aprendizes/ de mantras ministrados pelo mestre/ que unge a fúria dos mares que comando” (p. 15): há um “mestre” (Cristo?), há um “comando” em primeira pessoa. A voz do poeta é construção em desespero porque falsa, porque construção, porque voz não mais representativa de tantas vozes. Mas Santo Souza faz-se representante em problema de muitas vozes alheias, vozes de uma cultura ocidental que desemboca numa forte contemporaneidade da escrita feita após a morte de Deus: “entre as margens de rios esquecidos/ por Deus, por Satanás e seus guerreiros” (p. 16): Deus morto porque morto (Nietzsche numa das epígrafes) e vivo porque Deus; Satanás, é claro, ao espelho. E Ésquilo, representado, ainda em tormenta se encontra. Ésquilo é irmão do poeta, oficioso de um trabalho radical e solitário, cujas companhias são fantasmas tão vivos quanto Deus, e como Seu Filho bastante trágicos.
Faz-se de 24 poemas, divididos em quatro partes, Ésquilo na tormenta. No entanto, trata-se de uma obra dotada de forte organicidade, e acaba por ser um poema único. E “[a] senha para a viagem é o desatino/ de arquitetar o espanto (…)” (p. 19), ato criativo e viandante, ato de recolha e dispersão. Ato humano, até de certa humanização (impossível) de Deus: “Onde o clamor e as lágrimas de Deus,/ choradas sob pálpebras queimadas/ pelo fervor de preces e relâmpagos?” (p. 21). “Mas o cadáver não desiste (…)” (p. 23), “[v]ou caminhando entre as constelações,/ com este fardo de lágrimas nos ombros” (p. 23): o espírito é de fato trágico, pois, numa mesma imagem, Prometeu e Sísifo se mesclam num maneirista “eu”, num maneirista discurso que nada tem de confessional, e muito tem de angústia acerca da tarefa mesma da poesia. O poeta, sim, é uma espécie de herói sem louros, que cumpre um subterrâneo destino: “E desço a tatear os subterrâneos” (p. 43), numa peculiar, ainda que rimbaldiana, temporada no inferno. Inferno, aliás, que, se regido por um Deus morto-vivo (“(…) onde Deus rege a orquestração do mundo” (p. 47)), e por um Satanás em semelhante condição, encontra-se num abandono idêntico àquele que marca o mundo dos homens, os “(…) que vão morrer” (p. 51), protagonistas de uma “(…) invisível procissão de vozes/ cantando nênias para um céu vazio” (p. 51).
Ésquilo na tormenta é imagético, grandemente imagético, e faz imagens até mesmo do que corporeidade não poderá possuir: “O olhar da noite indaga a ventania,/ vê multidão de lágrimas na túnica/ do estranho rei, que se escondeu na sombra/ do fantasma da morte que me ampara” (p. 25). Sempre a morte, e aqui uma imagem da morte, cuja sombra fantasmática é um dos regedores do canto desesperado e infernal. Mas ainda pode ser esplêndido um canto como este, visitante da desgraça e fundador de associações surpreendentes: “E o estranho rei, acorrentado aos pés/ da estátua embriagada do demônio/ patina imerso no fulgor da clâmide/ do arcanjo, e ramalhetes de esplendores” (p. 25). A roupa grega (sim, é bastante grego o poema em 24 poemas) passa a vestir um “arcanjo”, e a beleza deverá ser o resultado do canto, ainda que seja um canto de catástrofe, um canto de vida pela morte, de vida em morte, e de morte não apenas de Deus, mas dos homens. Por isso a figura forte da “estátua” “do demônio”, pois, assim como a fotografia, na perspectiva barthesiana, é a fixação de algo pleno de lugubridade, uma “estátua”, mais que homenagem ou remissão simbolista, também diz de algo perecido, ou, ao menos, perecível. Aliás, a capa do livro registra uma escultura, feita pelo próprio Santo Souza, que mostra uma imagem de Ésquilo: Ésquilo na tormenta, Ésquilo fixado no bronze, a voz de Ésquilo como um canto – alheio – de morte.
E de vida angustiada: “Assusta-me nascer entre esses túmulos/ tapetados de lágrimas tão mudas,/ que as flores já nem lembram quem chorou” (p. 29). Não são tão distintos o nascimento e a morte, ambos sendo realidades assustadoras, ainda mais num universo como o deste livro. Santo Souza herda um modo bastante erudito de sua (a nossa, a ocidental) cultura, e constrói um texto que, todavia, vai além da recolha mera desta herança cultural – e que cresce, justamente, quando logra este ir além, o que às vezes (mas, ainda bem, poucas vezes) não acontece. De todo modo, de início e fim se trata, “[e] estas crianças colorindo a angústia” (p. 29) acusam o quanto a agonia participa dos eventos de fundação (mundo novo, aflita independência) e finalização (termo, realidade inexorável de qualquer vivente). E Rimbaud é presença inegável ao fundo das águas do longo poema de Santo Souza, águas “em que navegam mísseis, prostitutas,/ metralhadoras inventado morte” (p. 31), metro corretíssimo sempre em decassílabo – memória dantesca, petrarquista, camoniana, etc. A propósito, uma ambiência épica encontra-se em Ésquilo na tormenta, partícipe da mesma memória dantesca, camoniana, etc., mas o barco de Santo Souza é mesmo bêbado, e uma memória de Rimbaud fornece ao canto deste poeta brasileiro um ar um tanto surrealista – não no sentido bretoniano, não num pobre sentido escolástico, mas numa recolha de tom que parte do mais surrealista dos poetas não-surrealistas, o antepassado incontornável da modernidade, Rimbaud, é claro.
Se na tormenta, se numa temporada bêbada no inferno, quer-se órfico o eu em problema do texto: “Não quero ver Orfeu dentro do ventre/ da aurora que o tufão despedaçou” (p. 35). Aqui, uma generalíssima tradição se coloca: o eu é poético, o eu é do poema, e todo eu poético é, numa medida ou noutra, órfico, sendo Orfeu o pai mítico do canto que é poético, do canto que, na escrita, vira poema. E “Orfeu relampagueia sua fúria/ no mar de estrelas das constelações,/ e a morte acorda em pânico, nas cinzas” (p. 35): Orfeu desperta a morte, não de sua condição de morte, mas sim rumo a uma vivência da morte a que se filia toda prática poética. Aqui reside uma força notável de Ésquilo na tormenta: todo canto é vital, e, por isso mesmo, todo canto é um réquiem, e o poder do canto, o oficioso trabalho do poeta é, assim, fatal. Faz todo o sentido, portanto, que a epígrafe da parte 3 do livro seja retirada do Apocalipse bíblico, que é morte e também vida, que é encerramento enquanto é revelação, Revelação. É claro que o Apocalipse do poema é outro, a Revelação do canto sempre órfico é outra, mas uma das fontes de que bebem estes versos, sem dúvida nem máscara, é a bíblica.
Quer-se órfico o eu em problema, mas sempre, por condição, em problema: “e o olhar apavorado da serpente/ cruza os rios de fogo que me assaltam” (p. 65). Medo na serpente, ou seja, medo no conhecimento, na sabedoria e num pecado que talvez não mais se veja livre de punição. Medo também nas estátuas, nas fixações do que é precário: “– Medo no olhar de pedra das estátuas” (p. 67). Medo, logo, também no canto, que tem na sua própria condição também precária, mas fixada porque em livro, sua maior força. O único dos 24 poemas que não possui duas estrofes é o de encerramento, não à-toa finalizado por reticências, como que a indicar a continuidade. Que é condição órfica, mas, sobretudo, condição trágica. Condição de poeta, é claro, “que chora as sete cores do arco-íris,/ no funeral das lágrimas de deus…” (p. 73): “quero acordar com a música da aurora” (p. 49) para poder entoar, humano, demasiado humano, a música “ (…) do homem para o inferno” (p. 61).
Luis Maffei (Brasília/DF, 1974), poeta, lançou seu livro de estréia, intitulado A (editora Oficina Raquel, RJ), em 2006. É também compositor e músico, tendo lançado, em 2005, o disco na mesma situação de blake, em parceria com Marcelo Gargaglione. É bacharel em Letras pela UFRJ, mesma instituição pela qual é mestre em Literatura Portuguesa – tendo defendido a Dissertação de Mestrado Do mundo, de Herberto Helder – e onde também realiza seu Doutoramento, que se dedica ao todo da poesia herbertiana. Ainda na Faculdade de Letras da UFRJ, lecionou Literatura Portuguesa em 2004 e 2005. É ensaísta literário, com trabalhos publicados em periódicos especializados como as revistas Camoniana, Metamorfoses e Gragoatá, e colaborador regular da revista Forum Democratico, para a qual escreve sobre música.
