cadernos brancos - rodrigo linares
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Texto de Maria Clara Carneiro.
Como tantos que vêm das bordas pelo trabalho, pelo estudo, todos os dias, e se acostumam. Às vezes, entre um cochilo e um livro, olhava a paisagem. Sempre me parecia meio cinza para os lados do Cristo. Aos poucos, me descobri voyeur de ônibus.
Porque, seu moço, esses dias não estão pra flanerias. As coisas comendo o tempo, o tempo comendo as coisas e, pelas janelas, vou consumindo os pedaços dos outros que alcanço, longe. Assim, as frases desfeitas pelos muros e a doce graça de plantas e bichos que descivilizavam a avenida arrebataram-me.
Nas fotos do Rodrigo Linares reencontrei meu assombro com a rua. Não apenas um ângulo admirado da paisagem, de cores, de formas. Sim, em suas fotografias, há certa urgência para cores. Mas também há algo apontando o inesperado que se apresenta ali, na frente.
Árvores rasgando a calçada. Uma folhinha que suja de cor o asfalto. A flor que perfura o muro, drummondiana. Asas de metal que se abrem à frente dos carros. E as aranhas que teceram uma abóbada no poste. Cores que, um dia, nos salvarão dos cinzas. O olho desse fotógrafo também me pareceu ter certo gosto pelas coisas que cortam o sentido da cidade. Cortam o sentido de cidade.
O que não é mais.
Rodrigo Linares fotografa casas e ruas em desconstruções, aguardando essa salvadora primavera.
E as letrarias. Grafia estrangeira persistindo em metal; palavras de ordem anti-urbe; letras apagadas de um papel molhado; letreiros desbotados e letreiros ausentes; recados em liquid paper sobre o portão e coloridos no banquinho da pracinha; rabiscos no muro; desenhos na calçada; placas alteradas; placa que ele mesmo alterou: pARe. Na verdade, o torto da letra, aquelas que não servem mais para o que eram. Letra morta. E qualquer letra que apareça a perturbar a imagem pura-imagem. Mas o branco escandalosamente vazio do outdoor (a ser preenchido, talvez, mallarmaico, pela constelação de luzes acesas ao longe, à noite).
Porque lhe interessa o desvio dos sentidos, o que não se con-forma. No seu trabalho com os papéis, altera as letras de jornal, dando asas, por exemplo, às letras a.
A lente do Linares busca retratar o combate contra os sintagmas da rua. A anarquia que se instaura a passos de formiga, silenciosa. Cores e letras que vêm para rejeitar “o tédio, o nojo, o ódio”.
Não é a poesia esse torto da linguagem?
E ele procura o que há nas entrelinhas das calçadas e dos canteiros.
Em meio ao trânsito e às árvores, Rodrigo nos presenteia com a beleza inquietante de fragmentos da rua que quase passam por banais. E descubro, a cada dia, o mesmo espanto, dos pedacinhos descolados do que era para ser quotidiano.
Rodrigo Linares é poeta e um dos fotógrafos da página coletiva www.cadernosbrancos.blogger.com.br
Maria Clara Carneiro ensaia alguns rabiscos em indecidable.blogspot.com
