leitura fenomenológica de sampa - lucia santaella


A leitura de uma letra de canção é sempre uma espécie de mutilação. Diferentemente de um poema impresso, código escrito e re-escriturável pela leitura, a letra da canção é — inseparavelmente da música — sopro da voz no ar, instante presente da fala cantada ou do canto falado — a sua presença.

Nessa medida, muitos dos recursos que a letra de uma canção apresenta, são recursos não da letra em si, mas do soletrar em tom entoado, fala em canto, ritmar sui-generis que leva o ato da fala ao extremo de seu potencial como som que é e pode ser, até se converter em música articulada nos aparelhos de sopro e fricção — boca e pulmões.

A primeira apreensão ainda vaga da letra na sua totalidade revela a dominância de uma experiência fenomenológica que a canção relata, um relato poético que, até certo ponto, justifica a leitura da letra isolada da música.

O confronto

Trata-se, no seu desenrolar, da travessia de um caminho, caminho de confronto primeiro entre a estranheza de uma cidade (gigantesco centro urbano) e a interioridade de um sujeito (subjetividade que vinha de ser objetivada na ambiência rural). Em vez de um mero confronto entre o gigantismo de um corpo urbano e os conflitos interiores de um eu que se perde bêbado e tragado pelos meandros incompreendidos da grande cidade, Sampa é, antes de tudo, a mais perfeita fenomenologia, criadoramente realizada, do impacto cidade/campo. Isto é, trata-se de como a objetividade rural, aqui encarnada na sensibilidade de um sujeito único e exemplar, vai gradativamente traduzindo o impacto e transmutando (superando, no sentido de mudança dialética: negando e, ao mesmo tempo, preservando) essa objetividade anterior nas novas formas de objetividade da grande cidade.

Como se pode ver, esse caminho é atípico. Não é aquele de alguém que invade, visita, passeia, percorre ou tateia uma cidade, ou seja, aquele de um conhecer tipo “cartão-postal” ou turístico. Não é ainda aquele de um estranho tragado na força bruta da realidade urbana desconhecida. Em síntese: alienação de ou alienação em. Ao contrário de ambas ou a ambas absorvendo num mesmo movimento de transformação, trata-se de um coração (isto é, a interioridade de um sujeito) que se deixa invadir por uma cidade transfigurando-se e transfigurando-a num só e mesmo ato, num mesmo caminho-cruzado da experiência. É a cidade, então, que caminha, viaja, penetra, percorre os estranhos corredores da interioridade. Como fruto dessa absorção pensante (sentida e pensada: “O que em mim sente está pensando”: Fernando Pessoa), a cidade é devolvida como cidade transmutada. E o sujeito exibe, enfim a cidade: ser-sensível que sua interioridade recriou, ao mesmo tempo em que se recria ela mesma.

A letra da canção diz respeito, assim, ao relato, pois que se trata de um relato — relato em (forma de) canto — de uma experiência vivida. Experiência é aquilo que o curso de nossa vida nos impele a pensar. Pensar o sentir, eis o que Sampa desfia enquanto canta o vivido: cerimônia e ritual de re-atualização do passado em presente.

Esse relato se desenvolve em três partes, nitidamente perceptíveis e, inclusive, com marcações claras de passagem e divisão entre as partes. Além dessas três partes, a letra tem uma abertura pontual que põe o relato em cena:

ALGUMA COISA ACONTECE NO MEU CORAÇÃO
QUE SÓ QUANDO CRUZA
A IPIRANGA COM A AVENIDA SÃO JOÃO

O cruzamento da Ipiranga com a Avenida São João — espécie de bomba cardíaca da cidade de SP, lugar-síntese do movimento da massa anônima, centro miniaturizado de todos os traços que caracterizam o fervilhamento de um grande centro urbano-industrial — é tomado como ponto tópico que traz de volta, faz revolver e retornar ao coração (interioridade de um sujeito) a qualidade de sentir, vaga e indefinível (ALGUMA COISA ACONTECE) de uma vivência — o impacto da grande cidade sobre o eu — experimentada no passado. Na imagem do cruzamento de dois corações, o da cidade (anônimo e coletivo) e o do indivíduo (ser singular), o impacto encontra forma de expressão para as marcas de compressão sintética — tudo ao mesmo tempo, sensação inexprimível, instante intenso da experiência — que fazem dele o que ele é, ou seja, impacto. O verbo no presente infinito (ACONTECE) aponta para o funcionamento do lugar (o coração do sujeito cruzando um cruzamento-coração do mundo urbano) como índice de retorno possível da sensação outrora vivida.

O desentendimento

Inicia-se, assim, a partir desse ponto de retorno de uma qualidade de sentimento, a primeira parte da letra

é que quando eu cheguei por aqui
eu nada entendi
da dura poesia concreta das tuas esquinas
da deselegância discreta das tuas meninas
ainda não havia para mim Rita Lee
a tua mais completa tradução

parte esta que sintetiza e cruza, num bloco único, aquilo que caracteriza a especificidade do desenvolvimento da segunda parte, de um lado, e da terceira parte da letra, de outro. Ou seja, tem-se, ao mesmo tempo, nessa primeira parte, a condensação entre a apreensão primeira indefinida da cidade no coração do sujeito (EU NADA ENTENDI) e a cidade já traduzida na e pela compreensão sensível e sintética do sujeito (DA DURA POESIA CONCRETA DAS TUAS ESQUINAS/DA DESELEGÂNCIA DISCRETA DAS TUAS MENINAS). Essa compreensão, engendrada no campo do saber sensível, comprime a operação tradutora na imagem síntese de Rita Lee.

Retorna aqui, a abertura tópica da letra

ALGUMA COISA ACONTECE…

que dá fechamento à primeira parte e abertura às segunda e terceira partes, indicando o começar de novo, ao mesmo tempo que confirma a característica sintética de absorção da segunda e terceira partes na primeira. Explicando: o retorno à abertura indica aqui, conforme se confirmará a seguir, que o prosseguimento da letra na segunda e terceira partes desenvolverá de um modo mais detalhado, de um lado, a indefinição da cidade dentro de um eu que reage e se esforça por abrir passagem rumo à compreensão fenomenológica do impacto (segunda parte) e, em prosseguimento, a visão lúcida, por fim, de uma cidade traduzida por sentidos pensantes postos em ação (terceira parte).

O sentimento no pensamento

Refaçamos, portanto, junto à letra, o percurso do jogo entre o indefinido e a busca de entendimento do sentir que se desfia na segunda parte:

quando eu te encarei frente a frente
não vi o meu rosto
chamei de mau gosto o que vi
de mau gosto o mau gosto é que Narciso acha feio
o que não é espelho
e a mente apavora
o que ainda não é mesmo velho
nada do que não era antes
quando não somos mutantes
e foste um difícil começo
afasto o que não conheço
e quem vem de outro sonho feliz de
cidade aprende depressa a chamar-te de realidade

Nítido o retorno ao passado (QUANDO) e a tentativa de recuperação do passado tal como sentido, para que agora, com o olhar do presente lançado ao passado, a sensação outrora sentida possa ser revivida no plano do entendimento. Opera-se, aí, em nível de introjeção, uma espécie de viagem para dentro do sentimento, a fim de registrá-lo no pensamento. Do registro do impacto no pensar, resulta a extrojeção em camadas de pensamentos que pensam o pensamento.

Merece sublinhar a passagem gradativa do VER (QUANDO EU TE ENCAREI FRENTE A FRENTE NÃO VI O MEU ROSTO) ao NOMEAR (CHAMEI DE MAU GOSTO O QUE VI…). O ver refratado que enuncia a perda da identidade, desencontro de si, entende como desencanto a alteridade incompreendida. Nessa passagem do ver ao nomear, fica marcada a correspondência da lenta gradação da introjeção com o desfiar gradativo do impacto no pensamento. O ato de pensar vai desfiando inversamente (de dentro para fora) o caminho do impacto (de fora para dentro).

O ato de desenredar o sentimento, visando enredar o entendimento, prossegue numa verdadeira compreensão fenomenológica do conflito: luta do ego por manter intacto seu repertório de informações já codificadas (À MENTE APAVORA O QUE NÃO É MESMO VELHO… AFASTO O QUE NÃO CONHEÇO) e a força bruta da realidade desconhecida, pedindo passagem (FOSTE UM DIFÍCIL COMEÇO/QUANDO NÃO SOMOS MUTANTES).

A luta só é abrandada no momento em que a realidade do passado cede, virando sonho (OUTRO SONHO FELIZ DE CIDADE) e, como tal, preservando-se para que o lugar da realidade seja agora ocupado pela presença irrecusável da cidade presente como real.

Fecha-se esta cena no segmento divisório ou de passagem entre a segunda e terceira partes, momento em que o sujeito busca a definição da cidade, mas, no ato de defini-la (PORQUE ÉS), indefine-a num jogo de avessos com a palavra avesso, mise en abyme que flagra a impossibilidade mesma de definir: a cidade reverbera ao infinito como avesso de todos os avessos.

O sujeito transfigurado

Inicia-se a terceira parte, esta subdividida em duas sub-partes:

do povo oprimido nas filas nas vilas favelas
da força da grana que ergue e destrói coisas belas
da feia fumaça que sobe apagando as estrelas
eu vejo surgir teus poetas de campos e espaços
tuas oficinas de florestas teus deuses da chuva
panaméricas de Áfricas utópicas
túmulo do samba mais possível novo
quilombo de zumbi

A primeira sub-parte, bem referencial, quase literal, introduz visões da cidade num ritmo veloz que aglutina, num mesmo espaço, um campo diferencial de imagens: a diversidade no mesmo.

A segunda, topicalizando o verbo no presente (EU VEJO), re-introduz o sujeito, agora transformado pela cidade, transformando-a. Sob as aparências, subjaz a essência concreta da cidade, no avesso das aparências, o movimento da sensibilidade: poetas, oficinas, deuses…, criando formas outras de sentir e de viver.

Numa síntese quase-labiríntica de alusões, elisões e junções, a imagem da cidade se forma em caleidoscópio. De dentro do feio, surge se não o belo, pelo menos um peculiaríssimo tipo de informação. Há uma paradoxal beleza no feio. O feio também produz um certo tipo de beleza.
Porque se deixou penetrar pela cidade (não é o eu que é engolido pela cidade, mas a cidade que é dificultosa, gradativa e insidiosamente absorvida pelo eu), a cidade veio a ser então, descoberta, isto é, traduzida.

Daí que no relato em canto, ao invés de ver a cidade como um referente fora de si, o sujeito a trouxe para junto de si, com ela dialogando. Interlocução que indica, nesse tom de conversa, uma familiaridade conquistada. A cidade outrora outra e estranha integra-se ao eu que nela se integra através de uma ação estratégica da subjetividade que, para incorporar, transforma, revelando avessos que as aparências não mostram. Intimidades compartilhadas. E, na intimidade, a curtição:

e os novos baianos passeiam na tua garoa
e novos baianos te podem curtir numa boa.


Lucia Santaella é professora titular na pós-graduação em Comunicação e Semiótica e coordenadora da pós-graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital da PUC-SP. Autora de muitos livros, entre os quais: Matrizes da Linguagem, Pensamento: Sonora, Visual, Verbal (Prêmio Jabuti, 2002) e o recente Linguagens Líquidas na Era da Mobilidade (2007).

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