marienbad


                                                      ricardo pinto de souza


número 3

Beatriz nua. No terceiro capítulo da Vida Nova, Dante descreve seu primeiro sonho com Beatriz. Após tê-la encontrado uma vez na infância, a revê nove anos depois. Seus olhos recebem um cumprimento e isto basta para que, emocionado, se recolha ao quarto para pensar. Acaba dormindo, e sonha. Sonha com um homem alegre, uma figura do amor, formidável e, segundo sua descrição, “paurosa”, pavorosa, que tem em seus braços uma mulher nua que dorme, mal coberta por um pano diáfano cor de sangue. A figura do amor declara “Sou teu senhor”, e, inquieto, acaba despertando a mulher, ela mesma, Beatriz, e lhe oferece um coração que queima. “Olha teu coração”, diz a figura para Dante, enquanto Beatriz, um pouco assustada, come aos poucos o órgão em fogo. Amor não se contém e começa a chorar, ao que Dante desperta.

Aqui, no território do sonho, termina uma literatura, aqui começa uma literatura. Apesar da dificuldade em perceber a Beatriz teológica da Comédia neste breve sonho erótico de um adolescente, não é tanto a nudez ou a crueza deste corpo nu e também adolescente de uma mulher que marca a ruptura entre Dante Alighieri, humilde estudante florentino e o outro, que funda a literatura moderna e que os únicos termos de comparação possíveis são Homero ou a Bíblia. O erotismo carregado da descrição não é incomum na literatura provençal e na do italiano vulgar, as fontes para as “rimas” de Dante. Nem o recurso à alegoria, nem a figuração ambígua de um amor terrível e jocoso ao mesmo tempo. Não é o tema nem o estilo que abrem um abismo, mas, como o abismo, o que é gerado e imaginado e recorrido incessantemente é um onde, um local, que não é nem o local realista da vida vivida, o preferido para os poetas das línguas vulgares, nem o local suspenso e imutável das alegorias, fábulas e catecismos, mas um terceiro local, que nasce de um corpo que partilha tanto o lugar da vida quanto o lugar do divino, e que, nascendo de um corpo, se amplia frágil para gerar uma literatura: o sonho.

Um corpo nu sonhado parece pouco, mas é desta nudez mínima, abrigada no compartimento ainda mais exíguo de um outro corpo, de uma outra vida, que mais tarde vai permitir o surgimento do céu e do inferno e de todos os territórios do absurdo, e do cortejo de outros corpos mutados e transfigurados que Dante imaginou. A distinção que Dante irá impor é que, apesar de o imaginado não possuir limites, e é disto que a fábula e a alegoria tiram sua força, é necessário que sua raiz esteja na matéria vivida, que não apenas se refiram a ela de uma forma simbólica e abstrata, mas que sua própria tessitura seja feita pela mão mais pesada da história dos homens, de seu cotidiano e realidade. Beatriz abrigada no sonho de Dante, seu corpo intrincado no trabalho mais privado de outro corpo, como o império de Deus intrincado nas lutas e derrotas dos homens históricos. Mas, observem as mãos do tecelão: não é o humano que se espreme e adapta à forma do divino, mas o exato contrário, o divino sendo moldado pelo suor dos homens. Da mesma forma que a nudez do corpo de Beatriz, mais que revelada, é sonhada, o que vale dizer que os seios que acaso o jovem Dante tenha visto não eram aqueles palpáveis e reais, mas antes uma outra coisa, um objeto novo posto no mundo, gestado no útero do sonho.

O corpo sonhado, mais que uma metáfora, mais que uma referência vaga a um corpo amoroso, mais que uma alegoria do corpo amado, é um segundo corpo, como a Beatriz Portinari de Dante é um ser novo, que é sugerido pela respeitável Bice Portinari, mas que tem a capacidade de ser muito mais que ela, não por um déficit qualquer que seu corpo palpável tivesse, mas pelo fato do corpo imaginado ser o único que tem o potencial de superar a incomunicabilidade de nosso passeio pela vida. Quando Dante sonha a nudez de Beatriz, quando molda seu corpo nu de acordo com seu engenho, de uma forma muito exígua consegue superar o silêncio fundamental que acaso envolve dois corpos. Formá-la é dizê-la, como nunca diria se estivessem de fato juntos em um quarto. Obviamente, estará dizendo algo bastante diverso do que seria a Beatriz real, ou uma Beatriz com seus próprios botões, mas a opção a isto seria o silêncio e o vazio. E assim é criado este ponto sem retorno, em que revelação se mistura com invenção, e a verdade do real só pode ser alcançada através do gesto incansável de conquistar novos territórios onde possa ser reconstruída, onde se dá sua refundação, sua remodulação: sua transfiguração.



Ricardo Pinto de Souza, professor, escritor e editor-artesão da Oficina Raquel. É autor de CULTURAS.

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