nietzsche e o “caminho do criador”: um breve interlúdio entre a atriz e o filósofo - andrea copeliovitch
Nietzsche e o “Caminho do Criador”: um breve interlúdio entre a atriz e o filósofo [1]
Se alguém perguntar o porquê do se fazer,
Responde-se o porquê do perguntar.
O tecer não tem um porquê enquanto ato de entrelaçar.
– José Eduardo Gramani [2]
Disse a atriz ao filósofo:
- Não entendo bem o que tu falas. Meu pensamento não atua como o teu: as palavras remetem-me a imagens, a fatos que li ou que me foram contados, preciso imaginar os personagens, que trazem consigo histórias, que por sua vez me remetem a outras histórias, que remetem a outras histórias e, em sua infinitude me fazem chegar a Deus, que é uma forma de acabar com essa agonia que é meditar sobre o infinito, de me ver tão só e tão pequena frente ao infinito, sem amarras e sem garantias, a encarar, como único ponto fixo a possibilidade da morte.
Então, mein Herr, quando perguntas se quero me refugiar na solidão, neste momento único e presente em que nos encontramos assim, brevemente, fortuitamente, em que estamos apenas os dois aqui, sei que é a mim que te diriges. Apesar da tua pergunta e da tua morte serem tão anteriores ao ponto do meu nascimento. Neste momento assumo o papel de tua interlocutora, e minha função, como atriz, é tornar vivo este diálogo. Para este papel despojo-me de meu orgulho e atiro-me a teus pés na ânsia de compreender-nos: teu texto e o papel que nele represento.
A peça passa-se em um espaço vazio.
A atriz:
- Tu e eu estamos no proscênio diante do abismo.
O Filósofo:
- Queres procurar o caminho de ti mesmo? [3]
A atriz:
- Tua pergunta ameaça atirar-me no abismo, e antes de cogitar respondê-la, pois sou covarde, busco exemplos daqueles que se atiraram antes de mim, guerreiros, heróis, mitos que percorreram o caminho desse abismo, onde arde o fogo e o nada, onde a vida é água, no sentido que toda a segurança se converte em fluidez, que a qualquer momento pode evaporar e VVVVVVVVVUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUMMMMMMMMMMMM! Lá vou eu despencando pelo penhasco. A sensação é ambígua, junto com o pavor, a alegria indescritível do salto, do vôo sem asas, que leva, ao que tudo indica, fatalmente à morte. Stop! Da boca da cena vejo corpos espatifados no chão (sei que o chão talvez seja ilusão da minha cabeça, mas a imagem dos corpos espatifados se faz presente ainda assim). E tu insistes com a pergunta:
- Queres?
A atriz:
- Mostras, a um tempo, o horror do medo e do sangue e que o mundo concebido por Maya não desaparecerá com a minha decisão de saltar, que no instante do salto, como num sonho, os reflexos e as lembranças aparecerão para mim, suscitando os mais diversos sentimentos.
Olho para o abismo e temo ante o mar de fantasmas que posso encontrar através dele.
O enjôo me toma. Tenho medo de refletir sobre os fantasmas, sobre a ilusão, tenho medo de pensar que aqueles que conheço e acredito amar sejam, também, fantasmas.
Tu me olhas e tenho medo de ser, eu mesma, um fantasma. Aí, como que dando forma a meus receios, tu me perguntas se tenho força e direito para tomar essa decisão. Tenho vontade de vomitar, de virar-te as costas e fugir, refugiar-me no rebanho. Mas tu e o abismo me fascinam, e mais ainda, a possibilidade de não ser um fantasma me fascina.
O Filósofo:
- És um movimento inicial, uma roda que gira por si mesma?
A atriz:
- Perguntas com a mesma impiedade com que perguntaste primeiramente a ti mesmo.
Não, não sou, penso eu.
Então, ansiosamente seguro a tua mão e pergunto:
- Crês que eu possa ser esta força única e auto-suficiente? Posso ser este guerreiro louco e maravilhoso que enfrenta a si mesmo com o mesmo vigor com que enfrenta os moinhos de vento?
Abruptamente tiras a minha mão de sobre a tua e respondes-me com outra pergunta:
- Podes obrigar as estrelas a girar ao teu redor?
A atriz:
- A um tempo a idéia arrebata-me, sinto-me rainha, soberana, deixo-me levar pelo devaneio, em meu sonho ecoa um poema:
Fui.
Não me deixei prender.
Libertei-me de todo e fui
Em busca de aventuras que em parte eram reais
E em parte haviam sido forjadas pelo meu cérebro
Fui em busca da noite iluminada,
E bebi então vinhos fortes,
Como bebem os destemidos do prazer [4]
Recito-te o poema, mas tu não me prometes nem os vinhos, nem o prazer que jorram da obra do poeta. Ao contrário, incitas-me:
- Mostra-me que não és dos cobiçosos nem dos ambiciosos.
A atriz:
- Envergonho-me. Acho que foi infantil da minha parte pensar em recompensas, talvez a grande recompensa seja essa liberdade diante do nada.
A ti não importam a minha vontade nem o meu desejo de ser livre - digo-te em tom de lamúria.
O Filósofo:
- Livre de quê? Que importa isso a Zaratustra. Mas claramente deve teu olho informar-me: livre para quê?
- Para agir? - Pergunta a atriz - livre para ser, estar, descer aos infernos, pular no abismo e criar?
Lembro-me de uma passagem do Mahabharata [5] em que Krishna conversa com Arjuna antes da batalha em que ele deverá liderar seus irmãos contra seus primos, parentes e amigos próximos. A vontade de Arjuna é de não mais lutar, e Krishna lhe diz que o importante é agir e não refletir sobre o fruto deste agir. Sinto que este mito está intrinsecamente ligado ao que me dizes, à coragem necessária para dar este salto no abismo, para assassinar sentimentos, primos e amigos.
Mas o que eu sinto também não te interessa, e desta forma tu me informas da solidão deste caminho. E me perguntas se estou pronta para ela. Para essa solidão na qual terão de conviver todos os assassinatos provenientes dos meus atos. Pronta para aceitar a responsabilidade por cada um deles, meus atos, meus e de mais ninguém, a serem julgados por mim e por mais ninguém, e ninguém estará lá para que eu deposite minhas queixas ou proclame minhas acusações. Tu me alertas:
- Terrível é estar a sós com o juiz e o vingador da própria lei.
A atriz recua, e num ímpeto, toma impulso em direção ao abismo; no último instante, seus pés se agarram à terra e exclama:
- Deus!
E tu gritas, sei lá de onde:
- Deus está morto! [6]
- Vai à merda, filósofo! – uiva a atriz, enfurecida - se nada existe além do abismo porque não saltas tu?
Mas apesar da raiva, sei que nada importa, nem mesmo tu, diante da tua obra, que é, a um tempo, o teu salto e o teu abismo; e mais do que isso, que é o teu caminho, que te torna criador, e assim, insignificante, como eu diante dela. Nenhuma recompensa, nem muito menos o reconhecimento dos homens, apenas essa gigantesca solidão! Tu me alertas ainda contra o ressentimento do rebanho contra as ovelhas desgarradas.
- Injustiça e lama atiram contra o solitário, mas, minha irmã, se queres ser uma estrela nem por isso deves brilhar menos para eles!
A atriz:
- Mas é tão grande a solidão! Quero ouvir palavras de acalanto e tu me falas do perigo de tentar fugir desta solidão, de estender a mão a quem encontre. Dizes-me que muitas vezes é preciso atacar ao invés de acariciar. Nesse momento vejo a tua garra, oculta no teu traje de magistrado imortal. Não ataques também a mim, não sou tua inimiga. Recordo-me que tu me havias dito antes de tudo que precisavas de “companheiros de viagem, e vivos e não de companheiros mortos e cadáveres” [7] que carregavas contigo. Quero ser tua companheira, também. Mas tu não queres minha companhia, isso não mudará teu caminho, porque já estás nele, enquanto que eu procuro o meu pelas vielas tortuosas do meu pensamento, da minha vida e da minha morte em vida.
O Filósofo:
- Teus pensamentos dominantes quero ouvir e não que escapaste de um jugo. (Aponta, antes que ela se perca em seus queixumes.).
A atriz:
- Meus pensamentos se distorcem em vielas, ruas abissais, labirintos, talvez se eu me atirar nesse labirinto, abandonar o novelo de lã, tu, e eu possamos escutá-los, loucos selvagens, e também silenciosos, como é o “caminho do campo”.
Chamo aqui o grande professor, Heidegger, suas palavras, como um bálsamo de sabedoria para os novatos, como eu, em luta com o abismo e a segurança de seu próprio pensamento:
Heidegger:
- De Passagem pela orla, saúda [o caminho do campo] um alto carvalho, em cuja sombra está um banco talhado a cru.
Nele repousava às vezes um ou outro texto dos GRANDES PENSADORES, que o desajeito de um novato tentava decifrar. Quando os enigmas se acumulavam e nenhuma saída se apresentava, servia de ajuda o Caminho do campo. Pois em silêncio conduz os passos por vias sinuosas através da amplidão da terra agreste.
Pensando, de quando em vez, com os mesmos textos ou, em tentativas próprias, o pensamento, sempre de novo, anda na via que o Caminho do campo traça pela campina. [8]
A atriz:
- Neste momento, um pouco de tranqüilidade paira sobre nós, tuas unhas estão recolhidas, sei que não somos inimigos.
O Filósofo:
- Mas – dizes, como que para alertar-me de que nesta guerra não há trégua - o pior inimigo que podes encontrar será sempre tu mesmo.
Tu me contas:
- Quando me olhei no espelho, dei um grito e o meu coração alvoroçou-se: porque não a mim, vi nele, mas a carantonha e o riso escarninho de um diabo.
A atriz:
- Sim, é perigoso olhar neste espelho, o reflexo torna-se turvo, a imagem perde a beleza e dela saltam demônios que só a mim pertencem. Será a partir deles que surge a possibilidade de nascer o meu deus, um deus que será minha obra, minha criação?????!!!!!!!
O contrário do que diz a bíblia: E o homem criou Deus.
Tento fazer uma associação lógica, embora aos poucos vá compreender que a lógica é tão ínfima frente ao caos, sigo com minha associação.
Em hebraico não há o verbo ser, talvez devido ao primeiro mandamento “Eu sou Deus” – e o nome de Deus não se pronuncia, portanto podemos pensar que “eu sou” e “eu deus” são a mesma coisa.
Se “eu sou deus” é “eu sou”, só resta o verbo ser, o homem criou, o homem é. É o que? É preciso ser alguma coisa, não é possível apenas ser (ou é?).
Estou transtornada, quero fugir.
Escuta – digo-te -, preciso parar um pouco, tomar fôlego, tomar um café, tu és denso demais pra mim. Mostras-me essa possibilidade de pular no abismo, que para mim ressoa como uma atitude a ser tomada. Quando me perguntas se tenho coragem, isso soa como um desafio - Eu vou! – afirmo, esperando que me digas: - “Duvido!” – para que eu possa ficar realmente brava e pular. Quero ser livre! Não quero ser escrava, nem fantasma! E ainda ecoa a tua pergunta:
- Livre para quê?
Ela:
- Para jogar-te - a ti! - no abismo, Filósofo! Que queres de mim?
O Filósofo dá de ombros e principia um movimento de retirar-se do palco. A atriz corre e coloca-se à sua frente, barrando-lhe a saída.
Ela:
- Já não posso mais te virar as costas, porque quem quer alguma coisa sou eu. Olho para ti e estás só, completo dentro da tua obra. Olho para mim e vejo me só ao teu lado. Tu me fazes as perguntas, mas não me mostras o caminho, apenas me advertes do perigo. Não há caminho, apenas um desvelar, um ocultar, um penetrar nos mistérios do abismo, um movimento a ser executado em solidão. Estou cansada, e tu me dizes que eu ainda tenho toda a coragem e esperança, e que ainda hei de sentir o cansaço da solidão, já o sinto. Aqui estamos nós, mirando o abismo, conversando sobre a possibilidade do salto, e apenas esta mirada me cansa. E este diálogo é também solidão. Estamos em casa, a única casa possível frente ao abismo.
[1] Esse texto inicial está baseado no texto “Do caminho do criador”, Nietzsche, Assim falou Zaratustra. p. 77-80. Todas as falas do Filósofo sem nota de rodapé pertencem a este texto.
[2] Gramani, José Eduardo. “Além de Olinda”. In: Mexericos da Rabeca; Sony Music Entertainment Brasil.
[3] Nietzsche, Friedrich. “Do caminho do criador”. In: Assim falou Zaratustra. Neste primeiro diálogo, todas as falas do Filósofo (as que estão em itálico) foram tiradas deste texto. Como por enquanto só há dois personagens em cena, inicialmente fica compreendido que em letra normal são as falas da atriz e em itálico, as de Nietzsche. As falas sem hífen são os pensamentos da atriz/autora, ainda começando este texto e incapaz de exprimir em voz alta todos seus pensamentos.
[4] Fui; Kavafis, Konstantinos. Poemas, p. 125
[5] Carrière, Jean-Claude, O Mahabharata.
[6] Nietzsche, Friedrich. “Prólogo de Zaratustra”. In: Assim falou Zaratustra, p. 39.
[7] Nietzsche, Friedrich. “Prólogo de Zaratustra”. In: Assim falou Zaratustra, p. 39.
[8] Heidegger, Martin. “O caminho do campo”, apud. Castro, Manoel Antônio de. “Observações sobre a Metafísica e a Paidéia”, p. 3.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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________________________. Linguagem: nosso maior bem.Rio de Janeiro: UFRJ/ Faculdade de Letras,
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_______________. Conferências e escritos filosóficos. , col. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
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JARDIM, Antônio. “Ícaro e a metafísica – um elogio da vertigem.” In: Concinnitas – Revista do Instituto de Artes da UERJ Número 3, ano 3. Rio de Janeiro: UERJ e 7 Letras, 2002
KAVÁFIS, Konstantinos. Poemas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.
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__________________. O nascimento da tragédia no espírito da música. São Paulo: Abril, 1978. (Os Pensadores).
Andrea Copeliovitch é doutora em Poética pela UFRN, atriz e professora adjunta da UFRN. Coordena e dirige a Gaya Dança Contemporânea e coordena o ALMA – Laboratótrio de estudos da Ação, Linguagem e Movimento. Pesquisa a prática do ator desde 1992, especialmente do ponto de vista pré-expressivo, ou seja, tomando como objeto de pesquisa os processos pelos quais o ator passa antes de apresentar-se publicamente.
