editorial

Caro Sr. Luis de Camões,
Ontem, aqui, foi a virada do ano. Revèillon. Roupa branca. Flores ao mar. Superstição. Na sua época devia ser parecido. Crendices. Esperança de um ano melhor e mais justo etc. A mesma conversa: o senhor, do alto da sua sabedoria, já nos dizia:
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se [...]

repercussões do decadentismo em os cadernos de malte laurids brigge de rilke – mariana bandeira

Este trabalho tem por objetivo não só confrontar o protagonista de Os cadernos de Malte Laurids Brigge, livro de Rainer Maria Rilke ( 1875/ 1926 ), com a figura do flâneur, mas também identificar, a partir de uma sucinta apreciação do conceito de Decadentismo na Literatura, os demais aspectos decadentistas presentes nessa obra, demonstrando [...]

formas da ficcionalidade nas sociedades midiático-digitais – martha alkimin

Em O Cavaleiro inexistente, de Ítalo Calvino, uma freira, pertencente à ordem de São Columbano e encerrada num convento medieval, cumpre como penitência a tarefa de narrar as aventuras de Agilulfo Emo Bertrandino dos Guldiverni e dos Atri de Corbentraz e Sura, cavaleiro de Selimpia Citeriore e Fez, dono de uma característica insólita: ele existia [...]

reflexos – mário cruz

A Fervura do Mosto
Desta foi de vez
que compreendi as videiras
que bebi do seu vinho
pelas pipas inchadas a perder ar
pela fervura do mosto
e de vez soube que apenas tenho um rosto.

A linguagem simples dos parvos
A linguagem simples dos parvos
vamos ver se é verdade
não há poiso para os olhos
vamos ver se é verdade
não há conquista que valha [...]

ao meio-dia do texto: anotações para orides fontela – tatiana pequeno da silva

Coruja
Vôo onde ninguém mais – vivo em luz
mínima
ouço o mínimo arfar – farejo o
sangue
e capturo
a presa
em pleno escuro
(FONTELA, 2006, p. 203)

A poesia de Orides Fontela floresceu a partir de uma sua experiência íntima, solitária, que o seu livro de estréia, Transposição (1969) inaugura e a obra última de 1996, Teia, encerra.. O que guardam [...]

poemas – sérgio nazar david

Ainda ontem descias com asas
ao corpo
e choravas se eu dizia já não posso
nem quero
o que é teu.
Tantas vezes te deixei
como Vênus o Menino.
Do inverno ao outono
tu sabias o que eu sinto…
E que as pedras que recolho
são para sonhar contigo.
Tuas escovas ainda estão no armário.
Com a verde fiz um telescópio.
Com a branca uma torre de marfim.
De [...]

“a arte é uma profissão de fé” – entrevista com adília lopes

Adília Lopes, pseudónimo de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, nasceu em Lisboa em 1960. Cursou Física na Universidade de Lisboa e depois formou-se em Letras pela mesma universidade. Publica seus livros de poemas regularmente desde 1985. Em 2000, foi publicada a Obra, reunião dos quinze livros de poesia de Adília Lopes, [...]

explico-lhes algumas coisas – pablo neruda

EXPLICO ALGUNAS COSAS
Preguntaréis: Y dónde están las lilas?
Y la metafísica cubierta de amapolas?
Y la lluvia que a menudo golpeaba
sus palabras llenándolas
de agujeros y pájaros?
Os voy a contar todo lo que me pasa.
Yo vivía en un barrio
de Madrid, con campanas,
con relojes, con árboles.
Desde allí se veía
el rostro seco de Castilla
como un océano de cuero.
                              Mi casa era [...]

marienbad

                                                      ricardo pinto de souza

número 4

Capitalismo, sociedade sem cultura. Há um breve panfleto de Guy Debord chamado “Notas preliminares para a unidade do programa revolucionário”, de 1960, em que podemos encontrar os primeiros temas daquilo que viria a ser A sociedade do espetáculo. A tese básica é que o tipo específico de organização de uma sociedade [...]

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                                                            luis maffei

ÓSCULO E OPÚSCULO

Recensão a Tarde, de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2007
O segundo poema de Tarde intitula-se “Matinal”. É bom que assim o livro comece, com uma manhã que virá a se fazer tarde apenas bem para diante. Mas, de manhã, “[n]esta manhã de sábado e de sol/ em que o [...]