“a arte é uma profissão de fé” - entrevista com adília lopes




Adília Lopes, pseudónimo de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, nasceu em Lisboa em 1960. Cursou Física na Universidade de Lisboa e depois formou-se em Letras pela mesma universidade. Publica seus livros de poemas regularmente desde 1985. Em 2000, foi publicada a Obra, reunião dos quinze livros de poesia de Adília Lopes, pela editora Mariposa Azual, de Lisboa. Desde então seguiram-se os volumes A mulher-a-dias (Lisboa: & etc., 2002); César a César (Lisboa: & etc., 2003); Poemas novos (Lisboa: & etc., 2004) e Le vitrail la nuit * A árvore cortada (Lisboa: & etc., 2006). Seus poemas têm sido traduzidos em diversas línguas. No Brasil, teve uma antologia editada em conjunto pela 7letras e a Cosac & Naify em 2002.

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Entrevista concedida a Sofia de Sousa Silva. [1]


Meu encontro com Adília Lopes [2]

Encontrei-me com Adília Lopes no café Tarantela, numa tarde de calor em Lisboa em 2006. Marcamos por telefone o encontro num local escolhido por ela (“Tenho a casa desarrumada, não me dá jeito mostrá-la”, dissera-me). E, na sexta-feira seguinte, lá estava Adília, sentada nesse café do largo Dona Estefânia, com um ar bem-comportado e o cabelo mais comprido, à minha espera. Não sabia se deveria fazer-lhe as perguntas que tinha levado escritas (mas ela poderia preferir não responder de supetão e, certamente, uma entrevista em que tivesse mais tempo para pensar seria melhor), se deveria falar-lhe do meu projeto de tese (mas a oportunidade de ouvi-la era única), se pedir-lhe que comentasse a elaboração de certos poemas (a lista seria imensa). Falei-lhe então do meu projeto — que aproxima a sua poesia da de Sophia de Mello Breyner Andresen (“É a mestra”, disse, “ainda hoje é quem eu mais leio”) —, combinamos que ela responderia por escrito às perguntas que eu lhe mandasse depois e fui fazendo as minhas perguntas, surgidas da leitura de poemas seus e anotadas no caderno de estudos relativos à tese. A conversa passeou por muitos assuntos, nem sempre de forma linear. Adília foi sempre amável e risonha. Recebeu com simpatia algumas das minhas idéias e dispôs-se a mandar-me por carta as respostas às perguntas, mas desculpou-se por ter de escrever à mão. Para mim, ao contrário, um manuscrito seu era coisa valiosa. As primeiras respostas — mais rápidas, escritas com esferográfica preta na própria folha de perguntas — e as respostas posteriores — mais longas, escritas a caneta verde e prateada, em folhas de papel ofício à parte — talvez revelem uma forma de trabalhar: primeiramente num impulso, num segundo momento, com mais vagar, mais reflexão, emendando, corrigindo. Duas respostas foram alteradas posteriormente, numa carta de 28 de agosto de 2006.

Uma de suas crônicas descreve um processo semelhante: “Escrever, para mim, é uma batalhação. Interior e exterior. Exterior: com os materiais, com a minha biblioteca, com a minha casa. Escrevo e risco, irrito-me com as canetas que não escrevem como eu quero. Amarfanho o papel e atiro-o para o chão. Pego noutro papel. Pego noutra caneta. Recomeço. Repito os mesmos gestos. Deste ‘stress’ pode nascer um poema, exactamente como Sophia de Mello Breyner Andresen conta em ‘Arte Poética IV’. Ela escreve ‘riscando e emendando para trás e para a frente, num artesanato muito laborioso, perdida em pausas e descontinuidades’. [...]” (“Nada te turbe, nada te espante”, Público, 24 de setembro de 2001. Disponível em http://www.arlindo-correia.com/adilia_lopes_fria.html. Acesso em 15 de outubro de 2006.)

Durante a conversa, a poetisa disse que hoje estava tão à vontade com o pseudônimo Adília Lopes como com o nome Maria José Oliveira, mas que lamentava não ter podido escrever os seus livros com este. “A voz é sempre pessoal”, disse. Arrependeu-se do título Florbela Espanca espanca e acrescentou ainda que hoje não chamaria a um livro Um jogo bastante perigoso, “porque a poesia não é um jogo” (um poema de Le vitrail la nuit * A árvore cortada diz: “E não me limito a jogar com palavras, aliás, nunca jogo.” Lisboa: & etc., 2006, p. 19). Disse que talvez publique um volume de textos em prosa (uma seleção de suas crônicas) e um de versos a que daria os títulos: Versos verdes e Prosas rosas. Disse que não tem mais escrito, por não suportar mais a tensão da escrita e por acreditar que o poema tem sempre forma e que ultimamente a sua escrita se tornou informe. “Não foi sempre assim.” Disse ainda que cada vez gosta mais de estar em casa.

Não acredita que algo se tenha perdido desde a Revolução Industrial, não crê em qualquer coisa como um “mundo dos deuses”: “Deus é um só, e se manifesta de modos diversos nas diferentes religiões.” Falou-me num desejo de construir uma obra acolhedora, de uma beleza que não exclua.

Os poemas de Le vitrail la nuit * A árvore cortada de algum modo permearam a conversa, dando-lhe coerência.

Quando saí, tínhamos bebido apenas água, mas Adília ia pedir um café e um croquete.



Qual foi seu primeiro texto?

As redacções que escrevi na primeira classe, ou antes, os desenhos que fiz para a minha mãe.
Em 1966/67, fiz a primeira classe num colégio de freiras de Lisboa, o Colégio do Sagrado Coração de Maria. Foi então que aprendi a ler e a escrever. A professora era uma freira, de que gostei muito, a Irmã Maria Antonieta. Nesse ano, escrevi redacções, que, muitos anos mais tarde, num momento de desespero, deitei fora. Aí está uma coisa de que muito me arrependo! O Papa Paulo VI veio a Fátima em 1967. Na aula, no Colégio, a Irmã Maria Antonieta pediu-nos uma redacção sobre o que tínhamos visto na televisão aquando da ida do Papa a Fátima. Ainda hoje tenho uma cópia dessa redacção. Foi o meu primeiro grande sucesso literário. Em casa, a minha avó materna copiou a redacção para dar a pessoas de família e conhecidas. Talvez não abone muito a meu favor, mas só comecei a reparar nos meus textos depois de as professoras os terem elogiado. Voltei a ter muito sucesso aos dez anos.
Entre os meus sete e os meus dez anos, dá-se um eclipse. Sou má aluna, detesto o Colégio, fico em casa a desenhar para a minha mãe. Os desenhos, sim!, davam-me prazer. Escrever não me dava prazer. E só aos nove anos percebi que podia ler livros. Como não tinha contacto com outras crianças, havia (há) coisas em que estava muito atrasada.
A minha mãe e a minha avó materna liam-me os Cinco da Enid Blyton sempre que eu queria. E os livros da Condessa de Ségur. Queria ler os livros da Condessa de Ségur que eram da biblioteca da minha mãe, que eram livros velhos. Assim ouvi ler muitas vezes: Os desastres de Sofia, As meninas exemplares, As férias e Os dois patetas. Só estes quatro livros chegaram às minhas mãos. Da Enid Blyton, detestava os Sete, que achava uma traição aos Cinco. Quanto à Condessa de Ségur, queria a companhia da Sofia, da Madalena, da Camila, etc., se aparecia outra galeria de personagens, rejeitava o livro, mas tolerava Os dois patetas, talvez por ser cómico.
Aos nove anos, em 1969, passei uma semana ou duas com duas primas minhas, pela minha idade. Foi a minha prima Vera, um ano e meio mais velha do que eu, que me deu a ler o primeiro livro que li: A princesinha. Eu li-o mecanicamente, com os olhos, mas li-o assim todo, percebendo muito pouco do que lia. Devo dizer que, mais tarde, li muitas vezes assim livros inteiros por serem difíceis, por estarem em outras línguas. Não faz sentido, é estúpido, mas tranquiliza. Mot à mot também se lê alguma coisa.

Conserva algum traço daquela escrita?

O prazer em ser muito precisa, em nunca dizer coisas vagas.

Num texto publicado na revista Relâmpago, reconheceu como suas grandes influências Ruy Belo, Sophia de Mello Breyner Andresen e Sylvia Plath. Em que e de que modo cada um desses autores influencia a sua escrita? Em que se sente próxima deles e em que se sente distante?

Não sei responder muito bem. Não é muito consciente. O facto de serem cristãos é capital. O facto de serem contemporâneos também. A oralidade é determinante.
Em Ruy Belo, Sophia de Mello Breyner e Sylvia Plath há uma ferida (é verdade para todos nós, claro) e eles dão conta dessa ferida de uma maneira que eu entendo. Em Ruy Belo vejo a infância de um rapazinho, um rapazinho. Sylvia Plath é uma adolescente e uma jovem mulher. Sophia ama o real com veemência. São os três muito fortes. Sophia é a minha mestra, o meu modelo de bem escrever português.

Quais são seus personagens de ficção favoritos? Apontaria algum motivo por que Marianna Alcoforado esteja presente tantas vezes na sua obra?

Gosto da Sofia de Réan d’Os desastres de Sofia. Gosto do patinho feio de Andersen.

Marianna Alcoforado é uma mulher apaixonada, não parece ser correspondida e o namorado está longe (está longe por estar longe e porque não está apaixonado por ela). Acho que fui uma mulher assim.

Que efeito lhe causam as críticas sobre a sua obra?

Umas acho parvas e inúteis, outras aproveito para me melhorar.

Que livro gostaria de ter escrito?

Os desastres de Sofia, da Condessa de Ségur.

Identifica-se com os poetas da sua geração? E, neste caso, com qual ou quais?
Não me identifico com os poetas da minha geração.

Na literatura portuguesa em geral, não só contemporânea, quais são os autores de sua predileção?

Bernardim Ribeiro, Cesário Verde, Fernando Pessoa, José Blanc de Portugal.

Em A mulher-a-dias, diz: “Meus textos são políticos, de intervenção, cerzidos com a minha vida.” Como entende a possibilidade da arte intervir? Contra que a poesia pode ou deve intervir? E, ainda, de que modo a arte está cerzida com a vida?

A arte é uma profissão de fé. Estou atenta ao sofrimento, à injustiça, mesmo que para isso seja preciso renunciar à arte.

Acredita que a obra de arte possa ser, de algum modo, um ajuste de contas? Como?

Não é um ajuste de contas. Não pode ser só isso. Não é isso. A obra de arte é positiva, não é vingativa e não quer fazer justiça. Vejo mais a obra de arte como o jantar que Babette prepara na Festa de Babette: reúne, vivifica, constrói, e sara feridas.



NOTAS

[1] Sofia de Sousa Silva nasceu no Rio de Janeiro em 1974. É doutora em Literatura Portuguesa pela PUC-Rio, onde também foi professora desta disciplina. Foi bolsista da Fundação Calouste Gulbenkian e da Capes, durante o período em que recebeu uma bolsa-sanduíche na Universidade do Porto (2006). Atualmente é editora da Bertrand Brasil.

[2] A entrevista completa está na tese Reparar brechas: a relação entre as artes poéticas de Sophia de Mello Breyner Andresen e Adília Lopes e a tradição moderna, de Sofia de Solsa e Silva.

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