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luis maffei
ÓSCULO E OPÚSCULO
Recensão a Tarde, de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2007
O segundo poema de Tarde intitula-se “Matinal”. É bom que assim o livro comece, com uma manhã que virá a se fazer tarde apenas bem para diante. Mas, de manhã, “[n]esta manhã de sábado e de sol/ em que o real das coisas se revela/ na forma nada transcendente/ de uma paisagem na janela” (p. 10), algum real absoluto se insinua, mas sua presença não é no poema. Talvez seja o caso de supor que, hoje, uma das postulações mais radicais do Romantismo Alemão faça menos sentido do que nunca. Em outras palavras, não parece mais possível, para a poesia de agora, ambicionar para si a tarefa de construção de algum real absoluto, pois a existência absoluta do indivíduo histórico que tanta literatura, tanta cultura tem atrás de si (“Ser, não-ser, devir, dasein,/ ser-para-a-morte, ser-no-mundo” (p. 72)), gostaria de se dar na exterioridade do texto: “Toda palavra já foi dita. Isso é/ sabido. E há que ser dita outra vez./ E outra. E cada vez é outra./ E a mesma” (p. 87). Mas o mundo talvez não exista, assim como Deus não existe: “Não há nada lá fora?/ Nem mesmo a idéia de um lá-fora?” (p. 68).
Não é “Matinal”, porém, que começa o livro, e sim “Op. Cit., 164-65”, poema que põe numa forma apurada certa reflexão acerca da poesia moderna: “‘No poema moderno, é sempre nítida/ uma tensão entre a necessidade/ de exprimir-se uma subjetividade/ numa personalíssima voz lírica’” (p. 9). Sim, entre aspas. Até o terceto final – sim, trata-se de um soneto –, quando as vozes se multiplicam: “(…) Hm. Pode ser. Mas o Pessoa,/ em doze heptassílabos, já disse o/ mesmo – não, disse mais – muito melhor” (p. 9). Muitas vozes: a do sujeito lírico, a do locutor do discurso citado e a d’“o” Pessoa, e atrás dessas tantas, outras que se dedicaram ao “poema moderno”. Antes da manhã, pois, antes de “Matinal”, um metalingüístico poema, como que a dizer, antes mesmo do alvorecer do livro, numa espécie de prefácio (auto)crítico, que a literatura dificilmente sai dela própria, e que o poeta fingiu e ainda finge. Neste caso, é preciso considerar certo lugar difícil em que se encontra Tarde, pois, se a modernidade vem explicitamente ao caso, por outro lado é impossível precisar de que lugar nem mais tão moderno assim falam os poemas desse livro.
Livro, a propósito, em que outras memórias de Pessoa figuram, como no “IV” da série “Balanços”: “Antídoto contra a vida/ e sua graça nefasta:/ fugir de todo desejo,/ buscar a alegria casta// das abstrações que ostentam/ porte másculo e maiúsculo,/ que explicam todo o universo/ e cabem num magro opúsculo” (p. 17). A torção altamente reflexiva lembra não apenas o Pessoa de “Autopsicografia”, convidado por “Op. Cit., 164-65”, mas também certa renúncia da experiência mundana que cerca o mito biográfico construído em torno do poeta da Mensagem. Mas é fortemente irônico o discurso de Paulo Henriques Britto, irônico o suficiente para não situar em algum lugar ingênuo o rigoroso trabalho formal de seus poemas, e irônico o bastante para não ser tão pessoano assim: é sutil, mas há um ósculo dentro do “opúsculo”, ósculo talvez não dado, mas há. Além disso, registre-se “[u]m pensamento revirado na cabeça/ como uma folha carregada pelo vento./ A folha está em branco, embora um pouco suja,/ porém as marcas que a escurecem dizem nada”; o poema, o “VII” de “Balanços”, se encerra: “A folha traça aleatórios torvelinhos/ com a mesma persistência estúpida e implacável// com que dança a idéia na cabeça cansada/ dizendo sempre nada, nada, nada, nada” (p. 20). Folha é papel, mas folha é folha: o jogo, pois, vai de dentro da poesia para uma aguda vontade de fora da poesia, e esse é, decerto, um, dentre outros, dos “Balanço”s que Tarde realiza.
Mas o fora da poesia, talvez, exista pouco, ou simplesmente não exista; enquanto legibilidade, o mundo talvez não exista: “O mundo está fora de esquadro./ Na tênue moldura da mente/ as coisas não cabem direito.// A consciência oscila um pouco,/ como uma cristaleira em falso./ Em torno de tudo há uma aura// que é claramente postiça./ O mundo precisa de um calço,/ fina fatia de cortiça” (p. 26). É uma intervenção no mundo o ato poético, mas uma precária intervenção, que pouco longe vai. O “I” de “Gramaticais” leva a flagrante limitação do verbo a um estado próximo da angústia: “Uma palavra que entre as coisas caminhasse/ tal qual um deus incógnito entre os mortais,/ sem revelar a sua verdadeira face.// Uma palavra que vivesse na linguagem/ perfeitamente engastalhada em meio às coisas,/ como a maçã na casca, ou a ervilha na vagem.// Uma palavra que pulsasse sob a derme/ como aguarda sem pressa a hora de espocar/ de sua cápsula, uma semente ou germe.// Enfim, uma palavra apenas que pudesse/ abarcar todo o mundo, e nele não coubesse” (p. 39): a palavra impossível, pois, e não será a poesia a gramática capaz de dizê-la.
Por isso, a doença, fingida e sincera doença. É de Pessoa (“Há doenças maiores que as doenças”) a epígrafe da série “Uma doença”. O “I”: “Há doenças que são mais que doenças,/ que não apenas são à vida infensas/ como oferecem algumas recompensas// que tornam mais urgente e mais difícil/ o já por vezes inviável ofício/ de habitar o íngreme edifício// do não-se-estar-conforme-se-devia/ e administrar a frágil fantasia// de que se é o que ninguém seria// se não tivesse (insistentemente)/ de convencer-se a si (e a toda gente)/ que não se está (mesmo estando) doente” (p. 25). Deveras a dor é sentida, e é um gesto passional a escrita, mais passional que a ambição intelectiva de Pessoa, já dirá o “6” de “Crepuscular”: “há sempre a semente de alguma ilíada/ mínima, promessa de permanência/ no mármore etéreo de uma sílaba” (p. 88). Mas o livro, desde sempre, é Tarde , e “[t]odo o tempo agora é pouco./ Nenhuma noite se dorme./ A morte tem que esperar” (p. 14). Mesmo numa vida tardia, e talvez apenas numa vida tardia, é possível dizer algo à “morte”, é possível, mais ainda, dizê-la.
Dizer, porém, repõe o problema da própria natureza frágil dum discurso tão pouco fixável como o poético: “É um beco sem saída,/ mas sempre é melhor que a rua:/ mais estreito. Acolhedor./ Vem, entra. A casa é tua” (p. 15). Escrever é “um beco sem saída”, mas existir também o é. No fim das contas, a “casa” é tão falsa quanto a biblioteca de “Epílogo”, poema que fecha o livro mas o abre para leituras diversas: “Finda a leitura, o livro está completo/ em sua solidão mais-que-perfeita/ de couro falso e íntimo papel.// Lá fora, o mundo segue, arquitetando/ as mesmas contingências costumeiras (…)// (…) Porém nada disso importa,// se todas as dívidas se dissipam,/ com tudo o mais, quando o bibliotecário/ apaga as luzes, sai e tranca a porta” (p. 89). O “livro está completo”, mas sua relação com o leitor é ampla. No entanto, nada que se faça de “couro falso e íntimo papel” pode alterar o movimento do mundo, ou paralisá-lo. “No fim de tudo, restam as palavras” (p. 88), e nisto reside o mais controverso dos problemas (e são uma “[p]orrada de problemas” (p. 53), diz o “I” de “”Art poétique”): sim, a poesia pode ser um ato de profundo vitalismo, de força formal e aguda construção, como revela, por exemplo, “Tercina”: “Cautela e amor se dão ao mãos.// O que você diz sobre o mundo?/ Me dê sua mão”, num gesto de desmetaforização do que, no corpo, enseja o princípio do encontro. Por outro lado, para além da morte (“Nenhuma posição é natural”, “Apenas uma é definitiva” (p. 27), dirá o “III” de “Uma doença”), “[c]hegamos tarde, é claro”, e “da palavra” resta “só o resumo/ da pálida intenção, indisfarçada,/ de não dizer, dizendo, alguma coisa” (p. 84).
Luis Maffei (Brasília/DF, 1974), poeta, lançou seu livro de estréia, intitulado A (editora Oficina Raquel, RJ), em 2006. É também compositor e músico, tendo lançado, em 2005, o disco na mesma situação de blake, em parceria com Marcelo Gargaglione. É bacharel em Letras pela UFRJ, mesma instituição pela qual é mestre em Literatura Portuguesa – tendo defendido a Dissertação de Mestrado Do mundo, de Herberto Helder – e onde também realiza seu Doutoramento, que se dedica ao todo da poesia herbertiana. Ainda na Faculdade de Letras da UFRJ, lecionou Literatura Portuguesa em 2004 e 2005. É ensaísta literário, com trabalhos publicados em periódicos especializados como as revistas Camoniana, Metamorfoses e Gragoatá, e colaborador regular da revista Forum Democratico, para a qual escreve sobre música.
