editorial


Caro Sr. Luis de Camões,

Ontem, aqui, foi a virada do ano. Revèillon. Roupa branca. Flores ao mar. Superstição. Na sua época devia ser parecido. Crendices. Esperança de um ano melhor e mais justo etc. A mesma conversa: o senhor, do alto da sua sabedoria, já nos dizia:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, enfim, converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.

Sim, os tempos mudam. Desde antes do século XVI até os dias que virão; desde sempre, pois. O senhor estava certo quanto às vontades, assim como quanto às confianças.
Continuamente vemos novidades, tomando sempre novas qualidades, mas nada muda. Ou melhor: com seu impecável pensamento dialético, o senhor poeta mostrou que tudo se transforma, sempre; e que as formas de mudar também se modificam. Assim a coisa se torna cíclica: os tempos mudam, a formas de mudar mudam, muda tudo. Mas a mudança faz com que tudo mude de modo tão freqüente, que tudo acaba por retornar, por ser como antes. E o ano-novo acaba sendo tão velho quanto o anterior. O senhor entendeu isso tão bem! A natureza exemplifica, pois o tempo cobre o chão de verde manto, que já coberto foi de neve fria. Primavera, Verão, Outono, Inverno, Primavera.
Mas no final deste ano, e nos próximos, as pessoas se esquecerão dos ciclos e continuarão a esperar as mudanças.
Feliz Ano-Novo (seja lá o que isso represente).

                                                                     os editores.

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