formas da ficcionalidade nas sociedades midiático-digitais - martha alkimin
Em O Cavaleiro inexistente, de Ítalo Calvino, uma freira, pertencente à ordem de São Columbano e encerrada num convento medieval, cumpre como penitência a tarefa de narrar as aventuras de Agilulfo Emo Bertrandino dos Guldiverni e dos Atri de Corbentraz e Sura, cavaleiro de Selimpia Citeriore e Fez, dono de uma característica insólita: ele existia sem existir! No interior de sua couraça branca de prata, ninguém… Todavia, Agilulfo, mesmo inexistindo, era um paladinho do exército de Carlos Magno empenhado na expansão da cristandade pelos territórios mouros, sob a bandeira de uma comunidade integrada num só corpo coletivo, fazendo parecer que ali, ao menos ali, a verdade poderia existir sem fissuras. Ele era alguém que, na dimensão sombria da noite, hora em que se tem menos certeza da existência (CALVINO,1993, p. 22), suportava a agonia do instante em que o mundo lhe caía por sobre os ombros, amputando-lhe qualquer perspectiva de conquistar uma carcaça, uma gravidade, uma forma manifesta. O que ele desejava era isto: um corpo que lhe pesasse e doesse, como o daquele Cristo, celebrado na mutilação e atualizado na morte; um cadáver – que fosse! – para ser atirado às harpias e depois jazir insepulcro, porque mesmo um cadáver seria mais capaz de viver do que ele!
Agilulfo era um alguém/ninguém, uma latência, um real fantásmático, um possível e, como tal, permanecido no limbo. Circunscrito a uma armadura vazia, atravessada em cada fissura pelo vento e pelos insetos, seu corpo inapreensível passava desperto todas as horas do dia e da noite, por saber que, se deitasse um só instante, não se reencontraria de novo, estaria perdido para sempre; por isso intrigava-o como era possível o fechar de olhos, o afundar-se na perda da consciência de si e, ao despertar, descobrir-se igual como antes. Sua obstinação em deixar marcas, em provocar atrito com tudo aquilo que existisse (CALVINO, 1996, p. 35), levava-o a buscar ocupações exatas para não se dissolver. Então, tomava notas detalhadas das distribuições de víveres, verificava os dispositivos para manter seco o feno, calculava quantas porções de sopa uma marmita poderia conter, contava gamelas, ordenava pinhas, alinhava cascalhos como quem, geometrizando o mundo no chão dos acampamentos, esperava a atualização de si próprio. De um lado, apaziguava-o pertencer ao exército – um lugar designável e concreto - com seus escudos prateados que se erguiam e se abaixavam como guelras de um peixe; um peixe comprido repleto de escamas; uma enguia (CALVINO, 1996, p. 25). Ali sentia-se colocado, situado, presente; mas de outro lado, sabia-se ausente, e no alinhavo dessas duas extremidades, conjugava a ambivalência de estar presente (sistere) e simultaneamente fora de (ex).
Essa narrativa de Ítalo Calvino nos remete à seguinte pergunta feita por Wolfgang Iser em O fictício e o imaginário (1983,p. 385): “como pode existir algo que, embora existente, não possui o caráter de realidade”? Ou, em outros termos, como algo inexistente conquista o predicado de existente?
Pois bem, o resgate do cavaleiro de Selimpia Ceteriore e Fez abre passagem para uma reflexão a respeito da co-presença das ficções (literárias) e dos meios midiático-digitais na complexa cena contemporânea, o que nos faz indagar sobre como situar a tensão existente entre as categorias ficção/realidade, sobretudo, a partir de suas novas configurações na atualidade? E o que dizer sobre a proliferação de ficções não literárias que se espraiam e consolidam as estruturas dos sistemas sociais e culturais, alterando nossos processos acionais e comunicacionais, perceptivos e cognitivos?
Numa perspectiva construtivista, processos perceptivos e cognitivos não reproduzem o mundo, mas formam estruturas a partir das quais os indivíduos, operando como observadores, forjam um modelo para a realidade. Esses modelos para a realidade, de acordo com S. J. Schmidt (1994) constituem um sistema complexo de saber coletivamente partilhado que é elaborado a partir da tematização de distinções, consideradas fundamentais, formuladas como dicotomias, como pares opositivos. Assim, o conceito de modelos de realidade passa a ser descrito como “o conjunto de dicotomias consideradas socialmente relevantes” (SCHMIDT, 1994, p. 118).
Todas as sociedades dispõem necessariamente de um saber coletivo compartilhado que serve de referência para a ação social coletiva, a partir de uma programação semântica que seja inequívoca aos seus integrantes, o que a longo prazo assegura a estabilidade das estruturas sociais. A descrição oferecida por Schmidt articula com maior visibilidade e consistência o próprio conceito de construtivismo em que se sustenta a sua reflexão teórica. Em outros termos, por construtivismo designam-se os processos que levam os indivíduos à formulação de concepção (modelos) de realidade não arbitrários e dependentes da interação com o mundo em condições bio-socioculturais e históricas a que os indivíduos estão submetidos. E nesse processo construtivista de modelos para a realidade, a linguagem desempenha um papel central, por ser responsável pelo processo de cognição e comunicação; por conduzir à aquisição individual de um conhecimento de uso lingüístico coletivo (no plano da expressão e do conteúdo) que se estabiliza nos planos temporal, social e material. A língua, portanto, assume um papel fundamental, porque serve como uma instituição para o controle social, a partir de significados programados culturalmente ou, de significados que se referem às expectativas sociais da chamada “compreensão atestada” mutuamente pelos falantes.
Nesse sentido, compreender algo está submetido a uma instância de avaliação e controle social sobre a capacidade de conexão de comunicações. É exatamente a partir dessa consideração que esse Schmidt assinala um importante fator de poder presente nos processos hermenêuticos e, ao mesmo tempo, formula uma pergunta decisiva na comunicação, ou seja, “quem tem capacidade e poder de atestar, a quem e em que circunstância que compreendeu direito?” (SCHMIDT, 1989, p. 117).
A compreensão, para Schmidt, funda-se na oferta pela mídia de um objeto tomado como coerente, que é sentido e percebido como tal, em função dessa instância reguladora. Tal afirmação endereça-nos, mais uma vez, ao fato não percebemos o processo construtivo da realidade, dos modelos assumidos como válidos e dos mecanismos de poder em que estamos inscritos, a não ser que observemos como observamos, agimos e nos comunicamos; a não ser que se submetam essas construções da realidade a uma análise que enfatize o observador e a observação, ambos inseparavelmente ligados. Dessa forma, os conceitos de cultura e mídia tornam-se chave para o entendimento das dicotomias que tematizamos e assumimos como válidas, como, por exemplo, realidade/ficção, verdadeiro/falso, bom/mal, belo/feio e assim sucessivamente.
A cultura não se restringe somente ao mundo dos objetos artificiais, mas ao mundo das formas de ação, normas e valores sociais, enfim, ao mundo histórico contingente. O que significa que ela abrange – e é por isso mesmo problemática – não somente os objetos da observação dos sujeitos, mas as próprias perspectivas de seus observadores. Os modelos de realidade construídos pelos sujeitos, os quais são responsáveis pela distinção entre as sociedades, constituem, conforme já se mencionou, um saber coletivo partilhado por membros de um sistema social, fundadas em fatores cognitivos e normativos dicotômicos, assumidos como essenciais e que dependem de uma constante negociação social para sua validação.
A mídia, em contrapartida, representa uma questão importante para as formas de compreensão da assunção dessas dicotomias e mesmo da concretização dos saberes coletivos compartilhados, sob a forma de modelos de realidade, por ser responsável pela produção e distribuição do conteúdo semântico-cultural das sociedades. Ou, na demarcação de Wolfgang Welsch (1993, p. 9), por ser “um provedor de realidades”, ao fornecerem motivos estabelecidos convencionalmente para construções individuais e coletivas de sentido.
A mídia, portanto, é constituída por todos os processos comunicativos em uma sociedade, donde emergem espaços de produção de experiências tanto de ordem cognitiva quanto afetiva; ela funciona como mediadora intersubjetiva de processos cognitivos, e ao realizar uma comunicação bem sucedida, na medida em que oferece contribuições a temas, para os quais existem modelos constituídos socialmente e para construções individuais de sentido, fortalece e materializa o conhecimento social, a identidade individual e coletiva, assim como a impressão de unidade e coerência dos valores e normas assumidos e compartilhados pelos sujeitos. Em razão disso, a propagação de sistemas midiáticos de massa evidencia-se como um índice problemático, uma vez que abastecem o repertório de experiências comuns da sociedade, a ilusão de um mundo único.
As articulações, portanto, entre sociedades midiáticas, cultura, práticas sociais e estéticas e o entendimento das noções de ficção e realidade conquistam uma enorme complexidade na cena contemporânea, em virtude da rede sistêmica em que se inscrevem.
Mais uma vez, não se pode perder de perspectiva o sujeito observador e sua dimensão socializada e pluralizada, identificada como instância de construção de sentido, o que significa que ele dá enquadramento semântico-cognitivo, a partir do modo como vive o mundo circundante. Sua percepção aparece enquanto uma ”percepção como”, porque não percebemos simplesmente. No transcurso da socialização, o percebido já está dotado de sentido. Dessa forma, a percepção depende essencialmente do sistema cognitivo, de seu saber, de suas emoções e memória, da língua, da comunicação, assim como da estrutura social e da cultura. Está-se tratando, portanto, de um sistema, ou de sistemas interativos que constroem campos consensuais.
Dessa forma, é possível compreender o fenômeno das sociedades midiáticas, nomeadas por S. J. Schmidt (1982), como “sociedades midiaculturais”, em sua articulação complexa como modelos de realidade. Essas sociedades criam uma gama variada de ficções operacionais, cuja finalidade é assegurar o bom funcionamento das sociedades. Tais ficções estariam compreendidas em ficções sociais (ou conhecimento coletivo), ficções culturais (programas auto-organizativos de conduta) e ficções midiáticas e tecnológicas.
Segundo as proposições de Schmidt, nos processos de comunicação, objetivamos fazer com que se realizem operações de orientação semelhantes as que dispomos; na confiança de que todos possuem as mesmas condições para tal e que todos somos socializados de forma lingüisticamente semelhante, procuramos a produção de consensos, que depende exclusivamente de convencionalização e cooperação e não de uma orientação consoante à realidade. Disso resulta uma conseqüência importante na esfera da cultura, ou seja, culturas diferentes representam formas diferentes de elaboração de uma realidade; logo, as noções de valor, verdade e adequação não podem ser orientadas pelas perspectivas de um olhar objetivo da verdade.
Nesse ângulo, há que se frisar, para a compreensão da invalidação das categorias verdade, valor e adequação no interior dos sistemas culturais, a idéia de que as ações e comunicações organizam-se em categorizações indispensáveis, que produzem conhecimento com vistas a garantir estabilidades no interior das sociedades, descritas, de acordo com Schmidt, como ficções sociais das quais resultam estruturas e processos complexos supostamente compartilhados. Tais ficções esquematizam nossas experiências, rotulando-as como realidade. Sem que sequer desconfie, o senso comum transforma-as fatos e as vivencia como se assim o fossem.
Na perspectiva da proliferação de ficções sociais, a mídia ocupa um papel de destaque, na medida em que é responsável pela produção de ficções complexas e, como assinala Wolfgang Welsch (1995, p.12), “faz a estetização dos significados”. A realidade, portanto, torna-se deslizante e maleável, e esse processo pode ser pensado duplamente: de um lado, a mídia provê uma realidade manipulável, esteticamente modelável; e de outro, elabora, consoante as análises de S.J. Schmidt, a ficção da existência de uma esfera e de uma opinião públicas, donde decorre outra ficção: a de que todos participam dessa esfera pública e partilham da mesma opinião da chamada opinião pública. Além disso, movida pela produção do novo, pelo efeito de surpresa – que acaba por determinar o que é informativo - o poder dessas ficções se acentua ainda mais, em virtude de fatos serem gerados a partir de ficções e vice-versa.
A questão é que a propagação dos sistemas midiáticos de massa assinala construções de realidade, em termos cada vez mais abstratos e indicam crescentes áreas de complexidade tanto em termos da qualidade interacional dos sujeitos quanto no nível das experiências individuais e coletivas e mesmo no que concerne as suas noções de identidade. Nesse viés, os conteúdos semântico-culturais das sociedades contemporâneas assistem a novas formas de organização que vêm modificando nossas relações tradicionais com o conhecimento, seus modos de construção, apropriação e sistematização.
As mídias, articulam programas que institucionalizam valores de verdade e de realidade, investindo, para isso, nas convenções de factualidade, nos protocolos que atestam normas e convenções como realidades e não como produtos culturalmente elaborados pelos sujeitos. A ficcionalidade dos discursos, portanto, passa despercebida e mesmo negada, pelo fato de que a ficcionalidade atua como válida apenas para um sistema específico de regras no sistema da comunicação, ou seja, no da comunicação literária, por representar uma escolha deliberada. Entretanto, os próprios discursos sociais, embora escamoteiem sua ficcionalidade sob a máscara dos protocolos de verdade, são dotados igualmente de conteúdos ficcionais.
Se admitirmos a tese de que ficções literárias são modelos vivenciais alternativos, agenciando conhecimento e experiências afetivas e cognitivas que demandam um alto grau de investimento dos indivíduos e associarmos a isso o fato de que, no contexto social, operamos o tempo todo com ficções midiáticas das quais não temos consciência, os critérios de verdade e realidade tornam-se ainda mais problemáticos. Como sustentar a dimensão ontológica de tais fundamentos, se a paisagem contemporânea fez transbordar a aparecimento da ficção como um dado complexo? Como afirmar a individualidade dos sujeitos, se, por força das ficções midiáticas de uma esfera e uma opinião públicas, essa mesma individualidade é fabricada como algo comum a todos?
O caráter de máquinas de ficções dos sistemas midiáticos em seus processos de estetização dos significados para as experiências por eles doadas e compartilhadas não representa uma negatividade, mas deve ser assumido e pensado como um fenômeno também gerador de áreas baldias em que se processam outras formas de estetização do mundo e da vida, excêntricas ao raio de ação e de sistematização de valores e condutas forjadas prevalentemente nas mídias, sobretudo as não interativas. Na condição constructos, ficções sociais são expedientes por meio dos quais tracejamos os mapas que nos dão acesso ao conhecimento do mundo, que o tornam inteligível e comunicável.
Ao contrário do que se poderia supor, nossos dias de realidade não se foram e, quase paradoxalmente, são as ficções nossas de cada dia que nos asseguram disso. Numa outra perspectiva, o espaço interconectado da rede global atesta o nascimento de um novo domínio.; ele se expande numa versão digital em esferas cada vez mais largas, não em sentido geométrico estrito. Há uma noção de volume a ele articulada, em virtude de cada site estar conectados a dezenas de milhares de outros, por intermédio de links definidos por softwares. Conexões digitais, portanto, tracejam uma teia labiríntica, como os mundos labirínticos de Jorge Luis Borges, que se espraiam, de modo exponencial em temporalidades simultâneas. Como um fenômeno emergente, negligenciar ou subestimar seu desenvolvimento corresponde a negar suas constelações no cenário de nossas construções de sentido da realidade.
Pluralidade de perspectivas, pluralidades de observadores e de caminhos constitutivos de significados, a exemplo de nossas rotas de navegação nas infovias virtuais, corroboram a impossibilidade de pensarmos quaisquer outras categorias como construções binárias rivais e, sobretudo, que os procedimentos de modelação da realidade, sua urdidura ficcional não são atributos exclusivos da literatura. Da mesma forma que os mundos erguidos textualmente, pela força das realizações fictícias do imaginário, prende-se às regras da experiência humana da realidade, o domínio eletrônico do ciberespaço, por exemplo, e as ofertas multimidiáticas também estão propondo e sistematizando outras regras para a realidade com vistas a sua aceitação e validação social, ou não. Talvez esses novos horizontes estejam encenando interessantes formas alternativas de construção de referência. Entretanto, nosso objeto de análise não são as particularidades, problemas e possíveis soluções encerradas pela mediação digital. O que dela nos interessa é a sua dimensão de modelação da realidade, de instrumento por meio do qual se pode alterar o conhecimento da realidade.
Seria simplório demais apostar nas hipóteses de que tais sistemas engendrariam apenas o escapismo, o controle, o esfacelamento das imagens identitárias individuais e coletivas. Mesmo que de forma tensa e contraditória, os sujeitos sociais podem potencializá-las, como espaços de construção de outros possíveis sentidos para a realidade.
As ficções nossas de cada dia, ou em outros termos, nossos procedimentos de estetização do mundo vivido, alojam-se nessas modalidades de conhecimento e de comunicação, que por sua vez, alteram a própria racionalidade que dá à realidade uma condição de existência. Novos mapas culturas projetam direções plurais. Em meio a aparente desordem criada pelas tecnologias do virtual e pelas sociedades midiaculturais, em virtude de elas terem colocado de ponta-cabeça algumas de nossas coordenadas, o conhecimento e a verdade vão nos obrigando a um diálogo com o devir, numa dimensão cada vez mais estética, o que significa a adoção de uma perspectiva não excludente; muito ao contrário, pois o desenvolvimento de uma cultura estética sensível às diferenças, como advoga Welsch, supõe, como já se disse, a existência de áreas baldias, fora, portanto, de nossa visão e percepção pragmatizadas; lá onde vivem cavaleiros (in)existentes.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Martha Alkimin é doutora em Letras (PUC-Rio), professora adjunta de Teoria Literária da Faculdade de Letras de UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da UFRJ, onde desenvolve o projeto de pesquisa intitulado “Ficções (literárias): fabulações multi-reais”.
