marienbad
ricardo pinto de souza
número 4
Capitalismo, sociedade sem cultura. Há um breve panfleto de Guy Debord chamado “Notas preliminares para a unidade do programa revolucionário”, de 1960, em que podemos encontrar os primeiros temas daquilo que viria a ser A sociedade do espetáculo. A tese básica é que o tipo específico de organização de uma sociedade capitalista, com sua divisão em níveis hierárquicos de dirigentes, produtores e consumidores, assim como o efeito estupefaciente da espetacularização, com seus erzäte e desvios das verdadeiras necessidades e desejos, são responsáveis pela esterilização da cultura. A imagem-chave é a do deserto, e aqui temos uma bela tradição de figuração do homem mercantilizado como aquele que se desespera em sua esterilidade, desde Ulisses atado ao mastro em Adorno até a imagem mais poderosa que me vem à mente, a do pai nu gritando no deserto em Teorema, de Pasolini. “O lugar do consumo é o deserto”, como sintetiza Debord.
Não poderíamos aqui discutir adequadamente este panfleto, até porque para isso seríamos obrigados a fazer um comentário apressado e superficial da obra do próprio Debord. O que nos interessa é chamar a atenção para o fato de que a solução encontrada por Debord para a anti-cultura espetacular é um retorno à unidade entre arte e vida: uma cultura revolucionária será necessariamente vital não enquanto forma autêntica de representação da vida ou da experiência da alienação, o que não se afastaria da estética tradicional; esta cultura revolucionária e anti-espetacular teria por dever básico a reunificação do estético com o vital, ou seja, uma nova arte que fosse baseada na experimentação do homem com a própria vida. Deste programa, que precede e alimenta todas as fases do pensamento de Debord, surgem práticas como a deriva, a psico-geografia ou o desoeuvrement (“desoperação”, “desobramento”, “destrabalho”, etc, etc). O desafio, retomando a proposta do Dadaísmo, estaria em construir uma arte que se confundisse com a própria vida e que pudesse interromper a separação entre produtor/consumidor, uma arte em que, idealmente, um produtor coletivo consumisse sua própria cultura, que se confundiria com seus gestos no mundo, e que sua construção fosse tarefa universal e permanente. Assim, e apenas assim, seria possível criar um antídoto à alienação. Estaríamos de volta ao sonho idealista de um sujeito que se confunde com seu objeto, mas estranhamente para isso a grande invenção do idealismo, a estética, teria de ser superada.
A superação da estética é um programa antigo do pensamento moderno. A princípio seu ponto de partida é Nietzsche, que cria uma tradição em que poderíamos incluir Heidegger, Derrida, Deleuze e Agamben. Todos estes autores atacam a questão de como criar uma cultura em que os ídolos imensos da contemplação e da distância possam ser postos abaixo. Como criar uma cultura e uma arte que não sejam “estéticas”, que não sejam baseadas no acúmulo de sensações que um objeto possa produzir, mas antes vitais. Estes autores todos perceberam que o destino do estético é o espetáculo, e, por mais óbvio que seja que Hamlet é um produto cultural superior à novela das oito, ambos estão atados ao mesmo tipo de experiência, que, infeliz mas inexoravelmente, passa a privilegiar a novela e não Hamlet como modelo. Não entra aqui em questão a necessária transcendência de uma obra de arte forte sobre a soma pura e simples dos efeitos sentimentais que ela provoca. O problema é que esta transcendência é rara, e sua dinâmica é ainda baseada nestes efeitos, que o espetáculo pode perfeitamente reproduzir, que na verdade pode perfeitamente exceder. A única conclusão possível é que é necessário criar uma arte em que estes efeitos mediados não sejam o fundamento, mas antes alguma outra coisa, às vezes o corpo, às vezes a linguagem pura, mas sempre uma entidade dinâmica, que possa se fundir com aquele que a consome mais do que confundi-lo como faz a arte contemplativa, como faz também o espetáculo. “Eu não acredito em um deus que não saiba dançar”, como diria Nietzsche. Mas dançar a dois, dançar comigo.
A tradição de esquerda de um modo geral recusou este programa radical, em parte pelo reconhecimento da obviedade de que esta “entidade” que substituiria a estética está longe de ser palpável e esta distância a torna um campo aberto para todo tipo de nulidade e idiotice, em parte por ser tributária de Hegel, exatamente o filósofo que pensou e defendeu com mais força o estético. Walter Benjamin é um primeiro ensaio de reconciliação, assim como Marcuse e a obra de Debord, que desde seu início propôs que a transcendência estaria muito mais no convívio, no palmilhar contínuo de uma cidade, na ação, que nos museus e bibliotecas. E que fique claro, isto defendido por um dos maiores pensadores da história da esquerda, de cultura ampla e profunda como minha afirmação anterior dá a entender. Uma arte que possa tirar o homem do deserto será necessariamente arte da experiência, e por experimental e vital, impermanente, falha, fracassada. Dinâmica, porém, e capaz de comunicar sentidos novos e livres. Na sístole e diástole de criação e destruição, o passo característico do desejo quando armado e atuante, teríamos o contrário do congelamento frustrado da alienação.
O problema para alguém que olha as coisas deste início de século é que, após o período revolucionário do século XX, as parcas condições concretas de combate ao deserto só podem se dar apelando para a poeira de livros e quadros. Não porque Debord ou a tradição de crítica metafísica estejam necessariamente “erradas” ao combater a estética, e pessoalmente acredito que em algum momento aquilo que chamamos de estética será extinto, e que isso será uma coisa boa. Mas sim porque aquilo que se imagina poderia substituir a estética, a ampla comunicação de experiências, de diferenças, de prazeres e tormentos, os fruíres distintos que uma comunidade saudável e livre elegeria como forma privilegiada de espiritualidade, dependeria de um tipo de homem que não nasceu ainda, ou que, pior, foi extinto, homem cuja virtude seria não a sensibilidade, mas a inteligência cruel do fogo, que se esgota mas exige um tributo por isso. Infelizmente esta comunidade que viria foi colonizada e parasitada em seu berço. A única atitude coerente, aquela que Adorno propôs sem desespero, é dar um passo atrás e manter ainda um território mínimo para que estes homens possam surgir em algum momento, e para isso é preciso que se mantenha uma opção ao espetáculo, que não será talvez a mais radical possível, mas será possível. É um pouco estranho pensar assim, mas o futuro depende de Shakespeare.
Ricardo Pinto de Souza, professor, escritor e editor-artesão da Oficina Raquel. É autor de CULTURAS.

