poemas - sérgio nazar david



Ainda ontem descias com asas
ao corpo
e choravas se eu dizia já não posso
nem quero
o que é teu.

Tantas vezes te deixei
como Vênus o Menino.
Do inverno ao outono
tu sabias o que eu sinto…
E que as pedras que recolho
são para sonhar contigo.

Tuas escovas ainda estão no armário.
Com a verde fiz um telescópio.
Com a branca uma torre de marfim.

De noite (só nesta hora
me apeteces) me entrego
dizendo sim e durmo
dentro da noz.

Estamos numa bolha
que não se quebrou
e já vai alta.

Bolha intergaláctica, bolha lunática,
Bolha vulcânica., bolha socrática… [1]




Depois te transporto
a um abismo. Desço
as escarpas lentamente
e pela costa encontro

um sítio harmonioso
onde possas
repousar em liberdade
mas já sem rosto.

Depois te transporto
a um bosque espesso
que não seja mais este
em que habito e morro.

Ainda é cedo, ainda
agora sonho no teu braço,
a inventar o jogo
antigo e túrgido.

Depois te transporto,
amor secreto, amor
ardente, amor somente,
agora ainda não posso. [2]




Globo da morte

Meu estranho sobrevivente,
plantado na sala,
navegar
navegar mesmo
só no que não é preciso.
Queria fazer um poema
sem barulho.
Humilde e sentimental…
Brincando de —
por que você gosta de mim?…
Bolhas de sabão
explodindo…
Planetas
sem contato…

Amanhã
vamos dividir o corpo em
partes desiguais:
— De quem é isso?
— De quem é aquilo?

Puxo um fio:
“Te ligando pra dizer oi. Eu tô com,
selecionei uns filmes aqui
pra a gente ver semana que vem.
Queria que você fosse comigo.”

Peguei este pedaço da secretária
pra ficar no livro.
Um dia tudo vai embora mesmo. [3]




O que ela engole

O que ela guarda na mão esquerda?
O que ela pede enquanto levita?
De quem se lembra em sórdido fracasso?

Por que não dorme com o antebraço
em vez do travesseiro? Que destinos
giza intrépida com olhos de víbora?

Que demônio se esconde no seu berço?
A noite pode ainda assim retê-la?
O que ela engole e prende dentro do

corpo, amarrando a saia às coxas?
O que lhe rompe o peito às horas
mortas e faz abrir-se o vento, selar-se

o rito, morrer este que escreve? Às vezes
acha tudo ultrapassado, e quer fechar
os braços, o corpo todo. Que nenhum

farsante venha tirar-lhe do vermelho…
Agora é ater-se à dança, conquanto
tenham-se fechado as portas, o teto,

as paredes, e estejamos presos na vitrine.
Não quero desistir de novo e morrer
pela boca como peixe. Pede-se tão pouco

aos poetas: que não mintam, e da sede
que os trucida edifiquem novas cartas
e esferas de granito. Um astronauta

contou-me num poema que os dias na nave
eram graves. Mas sem isso não há como seguir
no espaço o rumo dos sonhos, que desfibram

já os toca o homem. O nosso sangue
é turvo, e o ar que respiramos sem divisas.
She swallows the poisoned apple.

Eu — engulo a rosa do destino. [4]


NOTAS

[1] Poema inédito.
[2] Poema inédito.
[3] De A primeira pedra.
[4] De A primeira pedra.

Sérgio Nazar David, mineiro, vive no Rio desde 1978, fugindo para Lisboa sempre que possível e necessário. Além de poeta, é professor de Literatura Portuguesa e ensaísta. Publicou: O romance do corpo (poesia, 7 Letras, 1997), Onze moedas de chumbo (poesia, 7 Letras, 2001), Freud e a religião (ensaio, Jorge Zahar, 2003), A primeira pedra (poesia, 7 Letras, 2006, indicado ao Prêmio Portugal Telecom), O século de Silvestre da Silva – Vol. 1 – Estudos sobre Garrett, A. P. Lopes de Mendonça, Camilo e Júlio Dinis (ensaio, Lisboa, Editora Prefácio, 2007) e O século de Silvestre da Silva – Vol. 2 – Estudos queirosianos (ensaio, 7 Letras, 2007) . Organizou a edição crítica de Cartas de amor à Viscondessa da Luz, de Almeida Garrett (RJ, 7 Letras / Instituto Português do Livro, 2004; Famalicão, Edições Quasi, 2007). Tem poemas publicados na Folha de São Paulo (Caderno Mais), na Revista Babel, na Storm Magazine, na Revista Camoniana, na Poesia Sempre e na revista eletrônica Interletras, entre outros sites de poesia.

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