reflexos - mário cruz
A Fervura do Mosto
Desta foi de vez
que compreendi as videiras
que bebi do seu vinho
pelas pipas inchadas a perder ar
pela fervura do mosto
e de vez soube que apenas tenho um rosto.
A linguagem simples dos parvos
A linguagem simples dos parvos
vamos ver se é verdade
não há poiso para os olhos
vamos ver se é verdade
não há conquista que valha a pena
não há cor que esconda o branco
não há parvo que não saiba
que vale a pena afinal a luz cegar
pois do sol apenas nos vale o choro infinito.
A realidade que nos tolhe
A solução está no fim
que se dá ao começo
está nas contas de cabeça
para onde o problema impele
sem nos movermos do espaço
em que iniciamos a conta
dos factos
da realidade que nos tolhe.
O Testamento do Cego
O testamento do cego
não é melhor que o do morcego
nas trevas brota uma fonte
que por sua vez alimenta
a terra que vive do sol.
Tempestade
Os barcos encalhados devido à tempestade
o sal a corroer-lhes as entranhas
as novas dunas em movimento
agitando as forças mortais
do veneno instilado nas popas
como um grande alicate a cortar
as vagas que se estendem por terra
e que ao passarem se despedem da embarcação que as aperta.
Uma nova razão
Ao espelho pendurado na parede
corresponde a imagem da vida
a vez que faz as vezes
sofre como uma realidade não vivida
resolvamos então de vez a questão
e à escuridão demos uma nova razão.
Mário Cruz nasceu em Lisboa/Portugal em 1964. É licenciado em Arquitetura, com desenhos e trabalhos gráficos em livros e revistas, nomeadamente na revista libertária A Ideia e na revista filosófica Logos. Trabalhou ainda na sua área de formação e atualmente faz traduções.
