repercussões do decadentismo em os cadernos de malte laurids brigge de rilke - mariana bandeira






Este trabalho tem por objetivo não só confrontar o protagonista de Os cadernos de Malte Laurids Brigge, livro de Rainer Maria Rilke ( 1875/ 1926 ), com a figura do flâneur, mas também identificar, a partir de uma sucinta apreciação do conceito de Decadentismo na Literatura, os demais aspectos decadentistas presentes nessa obra, demonstrando com isso o forte reflexo dessa estética nos escritores do final do século XIX e início do século XX.

Ainda que seja difícil rotular a obra desse grande escritor, devido à sua riqueza e originalidade, pode-se notar claramente que ele se deixou contaminar por uma arte que procurava revelar a agonia dos paradigmas literários e estéticos, a crise do racionalismo do final do século XIX, assim como os demais conflitos e enigmas do homem moderno e urbano, sem deixar de lado a questão do Belo e da Arte.

Publicado em 1910, Os Cadernos de Maltes Laurids Brigge retrata a desorientação do jovem escritor dinamarquês, Malte, diante da desumanização, do anonimato e da decadência decorrentes da vida na grande cidade. Assim como o flânuer, Malte percorre a grande Paris como um espectador, como um observador atento da sociedade. Percebe-se, assim, o comprometimento do livro com uma temática capaz de retratar o drama existencial do homem moderno, trazendo à cena novos mecanismos de representação de matriz claramente decadentista, como é o caso da beleza horrenda e dos personagens marginais, representado no livro pela figura de Malte, o típico flâneur. Essa personagem expressa as degenerescências das classes dominantes, a perversão de valores e a estetização da paisagem social e humana.

A expressão decadentismo refere-se uma sensibilidade estética que ocorre na virada do século XIX e que se contrapõe ao realismo e ao naturalismo.Refere-se mais diretamente ao modo pejorativo como era denominado um grupo de jovens intelectuais franceses que compartilhava uma visão pessimista do mundo, acompanhada de uma inclinação estética marcada pelo subjetivismo, pela descoberta do universo inconsciente e pelo gosto das dimensões misteriosas da existência. Os escritores decadentes tinham como preocupações a questão do Belo, discutir Arte, opondo-se ao naturalismo dominante nas últimas décadas do século XIX, propondo, assim, a retomada de um olhar idealista nas Artes. Os decadentistas assim como os Românticos, recuperam a sensibilidade e a angústia diante de um mundo que não atende às suas necessidades existenciais, lançando, deste modo, o homem de sua época à marginalidade, condição inspiradora do artista. Ambas as tendências estéticas se voltaram contra o Classicismo, que representava a soberania da razão e do progresso social para a conquista da felicidade humana. No entanto, assim como os românticos se desiludiram com as promessas dos iluministas, os decadentistas não vêem no cientificismo do final do século XIX o tão apregoado progresso.

Associado à idéia de esteticismo, devido às formas preciosas, aos artifícios estilísticos e aos temas tirados do mundo interior, a partir de sua origem francesa, o decadentismo transforma-se depressa em um fenômeno europeu. Na Áustria, a obra de Gustav Klimt simboliza a associação entre elementos decorativos e temáticas decadentistas, como sugerem, por exemplo, as figuras femininas de tom emblemático e forte voluptuosidade o retrato de corpo inteiro de Emilie Flöge, de 1902, Judite I, de 1901 e As Três Idades da Mulher, de 1908. Não apenas Klimt, mas outros artistas da época parecem perceber a impossibilidade, a fatal decadência da arte na sociedade tecnológica. No fin-de-siècle, como é chamado o período, apesar de a cidade ser o baluarte do conservadorismo dos Hasburgo, Viena transformou-se em um dos centros mundiais do modernismo e da criatividade. Tradições foram em pouco tempo reformuladas e fundadas escolas de pensamento. Niilismo, Kulturpessimisus e o decadentismo finissecular foram elementos marcaram profundamente as artes desse período.

É certo que Rilke não ficou à margem dessas questões, pois sua obra “Os cadernos de Malte Laurids Brigge” apresenta características marcadamente decadentes, como a desorientação do homem moderno diante da metrópole, a dimensão misteriosa e irracional da existência, a morte, a doença, a loucura, a discussão sobre a arte e o papel do artista, e especialmente a flâneurie, entre outras tantas. Outra característica recorrente no decadentismo presente nessa obra é a linguagem crua, a estrutura fragmentária do texto, a negação dos nexos causais e temporais, além da predileção pelo grotesco. Há várias passagens no texto em que Malte, o narrador, faz alusão direta à Baudelaire, o grande ícone do decadentismo e o responsável pela classificação tipológica dos indivíduos que transitavam pelas ruínas das cidades como o Flâneur e o Dandy.

Valendo-se de imagens corrosivas, Rilke descreve em seu livro as conseqüências que a vida em Paris provoca em um jovem artista dinamarquês. Assim como o flâneur, Malte é um errante, um vagabundo que perambula pela cidade sem um fim aparente. Mas se “a rua se torna moradia para o flâneur que, entre as fachadas dos prédios, sente-se em casa tanto quanto o burguês entre suas quatro paredes.”, como afirma Walter Benjamim, com Malte se passa justamente o contrário. Ele não está em consonância com a história e com a cidade. Suas vertiginosas incursões por Paris nos revelam a angústia dele diante de um mundo que não corresponde as suas necessidades existenciais, lançando-o à marginalidade. E é como marginal que ele se sente e se relaciona com a cidade e seus habitantes. O flâneur de Rilke observa com minúcia cada casa, monumento, pessoa que por ele passa, mas sem deslumbre. Sua atitude é, ao contrário, de aversão àquela metrópole tomada pela poluição, superpopulação, barulho e miséria. Por vezes o personagem chega, diante do caos que o rodeia, a confundir-se com os transeuntes, como se não conseguisse impedir o processo de massificação que o fundia imperiosamente à multidão apressada das ruas. Em uma passagem do livro Malte segue um desconhecido na rua e de repente dá conta de que reproduz todos os movimentos do transeunte, como se não houvesse limite entre ele e o outro.

Há um outro momento em que o tema da morte, presente em toda a obra, vem associado à questão da massificação e do anonimato:

(….) Agora morre-se em 559 camas, Em série, naturalmente.(…). ou em “(…) o desejo de ter uma morte pessoal está-se tornando cada vez mais raro. Mais algum tempo ainda e tornar-se-á tão raro como uma vida pessoal. (RILKE, 1955, p. 8)

Segundo Walter Benevides o tema da morte é recorrente em toda a obra de Rilke e em Malte não foi diferente. A morte perpassa todo o romance., conferindo uma esfera de angústia existencial ao livro. Há uma passagem em que Malte observa uma mulher grávida, que carregava, segundo ele, não um bebê, mas sim, a morte, ou seja, ele pressentia a morte como um ser que se carrega nas entranhas, como um acontecimento inevitável e inerente à condição humana.

A sinestesia é outro recurso bastante recorrente da estética decadentista presente nessa obra de Rilke e que dá os contornos de decadência da cidade. A miséria de Paris é retratada, através de imagens sinestésicas chocantes, como uma praga que infesta os recantos fétidos e pobres de Paris, revelando a face decadente, podre e suja escondida atrás da pompa das grandes cidades. Nota-se aqui uma nítida crítica ao desordenado crescimento urbano e aos novos paradigmas da vida moderna.

O grotesco, ou seja, a desproporção das formas clássicas, é outro elemento privilegiado pelo decadentismo e que se faz presente em todas as descrições que o protagonista empreende sobre da cidade. Nota-se a opção por um vocabulário relacionado a doenças, mortes e estados de putrefação. O personagem narra com minúcia seus passeios por hospitais e pelos bairros operários, descrevendo a aparência dos doentes e a sujeira das residências pobres. Segundo Baudelaire, o grotesco, que denomina de “cômico absoluto”, marca a modernidade pela dissonância que expõe entre o homem e o mundo, sendo, pois, um sintoma de mal-estar, de desajuste.

A nevrose exacerbada que toma conta do artista é outro componente freqüente do Decadentismo presente nessa obra. A desorientação e a angústia do protagonista ao longo do romance aproximam-se da insanidade. O escritor Malte encontra-se em conflito consigo e com o mundo à sua volta, sentindo-se como um exilado no tempo e no espaço. Vê-se a preocupação em aproximar Malte dos conflitos que se estabelecem na trajetória do artista, o que proporciona uma intensa reflexão sobre o papel do criador do Belo na sociedade moderna. Malte Laurids Brigge, encarna este conflito tão importante e presente no esteticismo do final do século XIX e início do século XX.

O romance, na sua diversidade de orientações apresenta uma redução dos nexos causais e temporais, e uma estrutura segmentaria livremente articulada, onde cada parte ganha aspectos de conto. É um romance escrito em forma de diário, que se articula em episódios em seqüência e inter-relacionados, mas que no conjunto, cada capítulo pode ser considerado separadamente. Nesse tipo de narrativa, o personagem projeta-se no texto em fragmentos de enredos, onde não há mais a onisciência do narrador e do autor implícito. A precariedade do narrador protagonista é tão grande que no final do romance ele dissolve-se, dando lugar a um ensaio narrado na terceira pessoa. O recurso de escrever inicialmente em primeira pessoa e depois passar para terceira. é fundamental para a modulação do ponto de vista e para a própria estrutura labiríntica da obra, que é uma narrativa em fragmentos.

O narrador de Rilke não questiona o mundo a partir de uma objetividade, transformando, assim, a própria realidade num objeto de questionamento. No livro percebe-se claramente como a realidade do mundo escapa aos padrões cognitivos e explicativos da razão, revelando, deste modo, os limites do antropocentrismo iluminista. Assim, Malte relata em várias passagens do livro episódios em que espíritos se comunicam com os vivos, retomando o espaço do sobrenatural na literatura e rechaçando a soberania da razão.

Em sintonia com a decadência, Rilke revela em seu livro as angústias e os ideais e de uma época, tematizando, assim, o drama existencial do homem moderno.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BENEVIDES, Walter. Rilke ou a Convivência com a Morte e outros ensaios. Rio de Janeiro: Editora Cátedra, 1976.
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ENGELHARDT, Hartmut. Materialen zu Rainer Maria Rilke: Die Aufzeichnungen des Maltes Laurids Brigge. Frankfurt am Main: Suhrkamp Taschenbuch, 1974.
PORRU, Mauro. Luchino Visconti: o intérprete do estetismo decadente. Tese de Doutorado em Letras Neolatinas, Subárea Língua e Literatura Italiana apresentada à Faculdade de Letras da UFRJ.
PRAZ, Mario. A carne, a morte e o diabo na literatura romântica. Trad.: Philadelpho Menezes. São Paulo: Unicamp, 1996.
RILKE, Rainer Maria. Os cadernos de Malte Laurids Brigge. Trad.: Paulo Quintela. Coimbra: Instituto Alemão da Universidade de Coimbra, 1955.
ROSENFELD, Anatol. Texto/contexto. São Paulo: Perspectiva, 1976.
RIDER, Jacques Lê. Modernidade vienense e as crises de identidade. Trad: Elena Gaidano. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992.
SEIGEL, Jerrold. Paris Boêmia – cultura, política e os limites da vida burguesa 1830-1930. Trad.:Magda Lopes. Porto Alegre: L&PM, 1992.
WEBER, Eugen. França fin-de-siècle. Trad.: Rosaura Eichenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.


Mariana Bandeira Nascimento, formada em Letras Português-Alemão pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e graduanda de Filosofia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

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