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                                                            luis maffei


ERA ANTES DA MORTE


recensão a Walkmen, de José Miguel Silva e Manuel de Freitas. Lisboa: & etc, 2007

Curioso que um livro de poemas seja escrito a quatro mãos. Mas este, Walkmen, o é. E é indiscutível a presença das quatro mãos a escreverem este livro, não cada um dos poemas, mas o livro enquanto livro. Pois cada um dos poemas vem, no índice, identificado a seu autor, e digo que, com ou sem índice, não é assim tão difícil precisar o que seja de Silva, o que seja de Freitas: ambos seguem, neste livro em parceria, as características de suas obras. Silva e Freitas têm, evidentemente, pontos de contato, mas diferem grandemente em vocabulário, versificação e etceteras. Não fosse assim, não seriam poetas com caras próprias; não fosse assim, não seriam tão bons poetas; não fosse assim, Walkmen não faria o menor sentido, Walkmen não precisaria existir, pois este é um livro de conversas: entre Silva e Freitas, entre o presente e a tradição, entre ambas estas poéticas que já reputo importantes no panorama da poesia portuguesa contemporânea.

O livro começa com Freitas, “Querelle”, poema que vai muito além de seu evidente intertexto: “Não tenho, para ser sincero,/ muita simpatia por aquele rapaz/ de óculos escuros que roubava livros/ em Santarém” (p. 7). Mais adiante, segue a conversa com o tal “rapaz”: “Talvez lhe pudesse simplesmente/ dizer: ao menos não engordei,/ cretino, e escrevi mais poemas/ do que tu alguma vez sonhaste.// Mas ele riposta, implacável:/ não te voltarão a chamar rapaz./ Deves-me todos os poemas que escreveste”(p. 7). A conversa é um tanto muda: o presente não dialoga assim com o passado, apenas se certa ficção (o duplo borgiano, por exemplo) investir-se de tal poder. O fato, no entanto, é que o tempo passa, e o poeta de hoje deve ao jovem de ontem “todos os poemas” que escreveu: o presente dialoga assim com o passado, pois o mudo e mudado jovem persiste tal como um fantasma. Há um jogo, mas um jogo triste, Game, em grande medida, over [1].

Para o fim, “A Drowning”, pois o livro termina com Silva: “Vinte anos de porfia/ para cem, duzentos versos/ estimáveis, o fastio dos aplausos, seis amigos,/ quando minto, trinta euros/ de chamadas por semestre./ Arrependido? Nem sequer./ Desapontado, se quiserem.// A sensação de ter quebrado/ o último brinquedo” (p. 35). Há um jogo, mas um jogo triste. Ou melhor, o jogo acabou, assim como a final da Champions League de 1987[2]. A mudez se estabelece no que tange à crença numa poesia lúdica, talvez salvífica, quem sabe uma efetiva brincadeira demiúrgica, pois nem “[a]rrependido” o sujeito lírico fica. O reconhecimento é de que a gravidade da prática poética (sim, não há nada mais sério que a brincadeira para o homo ludens) é cada vez mais baixa, “trinta euros” “por semestre”, não mais.

Mas ainda se joga, ainda Silva joga, apesar de que “[a] poesia, que foi tudo, é quase nada” (p. 8): no poema – “What use?” – inaugurado por esse verso, há uma estrofe de musicalidade espantosa, rigorosa apesar dos versos livres: “Atormento-me de novo, com os roubos/ do momento, disparato, não respiro,/ assobio uma canção desencontrada,/ popular, o coração impaciente” (p. 8). “[U]ma canção”, mesmo que “desencontrada”, “popular”, reside num poema, hipótese de canção, de dança. Mas como um dos temas fortes do livro é a morte, os adolescentes que criam na poesia são “Victms of the dance”; escreve Freitas: “Se nenhum deles, a acreditar no Google, deixou cadastro/ cultural foi porque a vida, ou nem sequer a vida,/ sabotou as adolescências de que fui breve testemunha” (p. 9). Onde o peso da poesia na chamada vida cultural? Mais silêncio, mesmo que sua origem seja o Google, pois “[j]á não posso, meu amigo,/ ficar a noite inteira/ com uma garrafa de whisky na mão,/ à espera dos bárbaros/ ou de ninguém – toda a espécie/ de gente que deixei por aqui” (p. 13): “Avanti marinaio”, ao revelar a transformação dos “bárbaros” em “ninguém”, acaba por revelar que a contemporaneidade não sufoca a barbárie, apenas dela retira certo fundo e faz com que seja rigorosamente impossível saber até mesmo contra quem se pode (deve?) lutar (jogar?).

Portanto, “Victims of the dance” sentem-se alguns componentes da geração de que Silva e Freitas fazem parte. Com geração, quero referir sobretudo uma sensibilidade muitas vezes afim, não qualquer engajamento que anseie por resultados políticos – apesar de serem fortemente políticos esses dois poetas, mas desesperançadamente. E o tempo acaba por ser visto desde o lugar mui mirandino e camoniano (maneirista, por que não?) da irreversibilidade, mas com componentes fortes demais de pequena e cotidiana realidade; cito a estrofe final de “Victims of the dance”, de Silva – uma das muitas conversas entre os dois autores de Walkmen: “Hoje, se nos vemos, ocultamos a vergonha/ no sorriso do bebé, perguntamos se já diz/ o que é suposto com dois anos de infortúnio:/ aquele ‘puta que pariu a minha vida’,/ que nós já só usamos contra colectores/ de impostos, pisadelas, futebóis” (p. 15): haverá coisa mais grave que os itens da lista que encerra o poema? Pior que sim, pior que não.

Existem três poemas de nome “Sonhos pop” no livro. O primeiro, de Silva, fala mais uma vez na juventude perdida, no “brinquedo” “quebrado”: “E assim a juventude, em nosso peito,/ retumbava uma batida detestável” (p. 17). O segundo, de Freitas, estabelece nova conversa, desta vez com Caeiro: “Mas comoveu-me perceber que/ alguém, àquela hora, ainda/ tinha mestres – e parecia acreditar/ neles, rodeado de cervejas e canções./ Poderá isto caber na prosa dos meus versos?” (p. 19). Sim, “poderá” e não “poderá”: “poderá” porque cabe e está aí, numa poesia que se faz prosada na medida mesma de sua necessidade de contar coisas, geralmente tristes, e de ser um bocado menos poética que o costume poético dum século XX português enormemente lírico. Não “poderá” porque, pessoanamente, “cervejas e canções” são “cervejas e canções”, e poemas são de palavras: onde os “sonhos”? “[A]ntes da morte, talvez”: o verso final do “Sonhos pop” de Freitas, “Era antes da morte, José Miguel” (p. 19), investe num sintagma cuja origem remonta aos anos sessenta do século XX, mais precisamente a Herberto Helder e Ruy Belo, pois ambos, primeiro Herberto, depois Ruy Belo, disseram que “era depois da morte”. Mais conversas, e o alto lirismo dos dois poetas recém-nomeados torna-se menos caudaloso elevado nos dois poetas que assinam Walkmen, poetas cujas qualidades, decerto, são e querem ser outras, mesmo porque “a noite, a partir/ dos trinta, termina sempre muito mal” (p. 19): pesa ter trinta e poucos anos num tempo tão sem qualidades como este bizarro começo de século XXI.

“Mas uma escada supõe um destino e um desejo,/ não é certo?” (p. 20), pergunta o segundo “Sonhos pop” de Silva. E o “Next to nothing” de Freitas como que responde: “Da próxima vez, quero estar menos/ bêbedo, saber se apanhámos/ ou não o mesmo táxi. Mas/ ‘da próxima vez’ nunca existirá” (p. 22), já que, escreve Silva em “So goodnight”, “[e]m vez de cortar os pulsos/ cortei a linha do telefone” (p. 32); por que o suicídio se, diz Freitas em “(J’ai oublié) all my life”, “estamos simplesmente mortos” (p. 34)? Walkmen, logo a partir de seu título, é um livro cujo (plural) caminho terá, certamente, a morte como termo, e disso a literatura já sabe desde seus primórdios. Mas, além disso, as dicções de Silva e Freitas são fortemente estrangeiras (quase todos os poemas do livro têm títulos em idiomas que não o português), são falas que, “antes da morte”, da morte falam, mas especialmente de vivências que vêem cada vez mais rechaçado o que não seja triste. Não espanta, pois, que seja de Jorge de Sena a epígrafe do livro, abertura e conclusão, início e fim de uma fala poética dilacerante: “Nada nos salva desta porra triste”.

NOTAS

[1] Refiro-me a um livro de Freitas intitulado Game over.
[2] Refiro-me a um poema de Silva, intitulado “Bayern de Munique 1x F.C. Porto 2 – Artur Jorge (1987)”.


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Luis Maffei (Brasília/DF, 1974), poeta, lançou seu livro de estréia, intitulado A (editora Oficina Raquel, RJ), em 2006. É também compositor e músico, tendo lançado, em 2005, o disco na mesma situação de blake, em parceria com Marcelo Gargaglione. É bacharel em Letras pela UFRJ, mesma instituição pela qual é mestre em Literatura Portuguesa – tendo defendido a Dissertação de Mestrado Do mundo, de Herberto Helder – e onde também realiza seu Doutoramento, que se dedica ao todo da poesia herbertiana. Ainda na Faculdade de Letras da UFRJ, lecionou Literatura Portuguesa em 2004 e 2005. É ensaísta literário, com trabalhos publicados em periódicos especializados como as revistas Camoniana, Metamorfoses e Gragoatá, e colaborador regular da revista Forum Democratico, para a qual escreve sobre música.

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