editorial.
O barbeiro, Sílvio Tendler, Roland Barthes e a morte do autor
Final da tarde de um sábado qualquer, numa hora que não vem ao caso, o cineasta Sílvio Tendler recebeu o nosso editor Hugo Langone e o doutorando (e amante de cinema) Alilderson Cardoso para uma entrevista. Em seu apartamento, num dos bairros mais famosos do Rio de Janeiro, entre tesouras e mechas – a entrevista foi feita enquanto Tendler usava os serviços de um barbeiro cujo nome me escapa –, perguntas e respostas, o cineasta, e também professor da PUC-RJ, comenta um fato, para ele estranho, ocorrido em sala de aula.
O causo: uma atividade qualquer que envolvia escolha de filmes a serem comentados e debatidos pelos alunos e pelo professor. O estranho: nenhum aluno escolheu um dos filmes de Sílvio, o professor em questão. Será mesmo estranho? Dois motivos, apontados depois, podem acabar com essa estranheza. De volta ao caso, o professor, também cineasta, achou que os alunos, também espectadores, perderam a oportunidade de perguntar coisas ao autor. Agora, as possíveis justificativas:
1. O mais óbvio: vergonha de tratar com o autor a sua obra.
2. Pouco importa pouco o que pensava o autor, nesse caso curiosamente também professor, ao fazer os seus filmes.
Sim, a morte do autor, o desgastado tema já anunciado por Mallarmé, mas que parece, muitas vezes, esquecido. Essa representativa morte tornou-se tão batida que tem sido colocada de lado.
Em trabalhos acadêmicos, desde comunicações a teses de doutorado, o que mais se vê é a biografia do autor sobejar entre as páginas, enquanto a análise da obra fica em segundo plano (quando há).
Mesmo assim, é claro, compreende-se a estranheza/frustração do cineasta entrevistado, ainda que, como professor, ele deva entender desde a vergonha de seus alunos à importância que há, impreterivelmente, na libertação de sua obra.
Saber certos dados biográficos é bastante interessante, como por exemplo, que Gastão Cruz, nosso poeta, foi casado com a saudosa Fiama. Como também que Luis Maffei, citado por Fernando Miranda, é o mesmo que assina uma coluna nesta revista. O colunista, por sinal, tem um poema, ainda inédito, cujos versos “Se há,/ Fernando,/ uma metafísica do pênalti/ ignoro” são dedicados ao mesmo Fernando. Mas “Fernando” no poema é só um nome. Assim como “colher”, “boca” e, ainda, “arquivos”, as poucas e gigantes coisas que Evandro Domingues trouxe, ou não, de Goa.
os editores.

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