mãos que abrigam o eterno desabrigo da iminente despedida - fernando miranda
Atravessar a obra de Hilde Domin não é simplesmente sustentar sua poética sob o sintagma “poesia de exílio”. Muito menos negá-lo. Se aceitarmos o percurso dominiano como um posicionamento de exílio, temos, então, de entendê-lo nos seus desdobramentos, nas suas angústias, capturas. De um fato, sim, histórico, isto é, abandonar a Alemanha acompanhada do marido por conta da ascensão de Hitler ao poder, a fatores que poderiam ser encarados psicológicos, por conta da perda da terra natal, do encontro com o novo – cultura, língua, ambiente -, há uma amplitude de perspectivas. Mas se é de poética que estou falando, interessa-me, claro, a poesia de Domin. E, nela, noto não apenas o cuidado em tratar dos exílios – da expatriação à solidão -, mas, também, da consciência de ser a poesia um fato de linguagem, cuja transfiguração pode, ainda, residir para além de, pois “não sei se de linguagem nem sei bem do que é que falo/ mas vi que o mundo cabe em mãos assim em/ côncavo”, destes versos de Luís Maffei, poeta que dialoga com Domin, se não por influencias diretas e citações, mas por meios de encontros múltiplos naquilo que sabem ser: poetas no mundo, esse. Ambos parecem concordar com Vera Lins, para quem “o ato poético é a recusa violenta de um tipo de representação, um afastamento radical do familiar, um reencontro a partir da negação e do exílio, distância ou terra estranha” [1].
Maffei não tratará de um tema ao qual não se apega, o exílio do expatriado, porém, o exílio entendido nas suas múltiplas significações:
repetir os começos
que pode ser ainda
começar
Qual a tarefa do exilado, senão a dum eterno recomeço? E em qualquer espaço e tempo onde se precise o novo – “E preciso?” – a liberdade ganha vez. No entanto, são as marcas daquilo que se deixou ignoradas? A liberdade é plena e, de fato, livre? No poema “Ich will dich” (Eu te quero), Domin reconhece o preço:
Liberdade
eu te quero
em papel de esmeril
lambida(…)
Liberdade, palavra
que eu quero arrumar
te quero moldar com cacos de vidro
para que te tornes pesada às línguas
e não sejas assunto de ninguém.
Exato, “tudo corta/ e vive/ entre o mar e o azul afogamento”, escreve Maffei. Nenhuma experiência passará impune. A chegada ao novo, de esperanças tantas, opõe-se a saudade daquilo deixado – para trás, para os lados, por onde for. E a punição, a qual se dá comumente o nome de transformação, retorna em linguagem, como no poema “Gefängnis” (Prisão):
A linguagem, da qual você precisou,
é cheia de palavras.
Diariamente
utilizo tua palavra
como se fosse um prisioneiro
e tivesse apenas uma caneca
e um prato.
As palavras desta linguagem estão compreendidas em “Worte” (Dizeres), “dizeres são romãs maduras/ elas caem sobre a terra” e “tudo se vira de dentro para fora”. Dentro do processo dialético, mantemos com a linguagem uma relação de via dupla, transformadores e transformados, e daquilo que se nos expele, as nossas idéias maduras, despencadas ao chão, abrem-se, dando ao mundo uma nova possibilidade. “E isto, giramos”, escreve Maffei, ao terminar seu poema intitulado “Herberto Helder”. Portanto, que não se exija do outro o congelamento, o estático. O indivíduo, em constante mudança – e não pensar em “Die Verwandlung” (Metamorfose), de Kafka? – não se permite nunca outra coisa senão a liberdade, aquela.
Se queres esperar,
até que eu seja, o que era,
terás de esperar até que eu morra [2].
Nas muitas etapas que um indivíduo (ultra)passa durante a vida – exílios de si mesmo? – nenhuma terra é re-habitada, e, se a algum lugar se volta, é certamente um novo ambiente, uma nova atmosfera, porque as mortes, diz Domin, “elas são sempre/ apenas o miolo/nunca a casca”. O que reveste é aparência, e não nos deixemos iludirmos por ela, embora seja, claro, a nossa primeira vista, ou, como em Maffei, a impressão da primeira morte, “montes de vidro/ roto/ sobre a mesma desfaçatez de sempre”. O tempo está em suspensão, relativizado; está ele também exiliado – do mundo?
Olha as nuvens se mexendo.
Elas avisam, não te prendas.
Elas se desfazem.
Também tu és leve.
Também tu não durarás [3].
E se é retomado o tempo absoluto, que se nos atravesse a existência, então
o inferno em terra é
também
esperar:
em salas, esperar em
macas esperar que despenquem
cabelos e anjos e que o corpo
ou melhor
o que se finda
deite-se marcado como
usado deleite. [4]
Contrariando a afirmação de Eucanaã Ferraz [5], na poesia maffeiana há, sim, transcendência, ou, como escrito por mim em texto anterior [6] , ao menos a desconfiança desta transcendência. Se “tudo pode/ parecer-se à eternidade”, então ela não está nem afirmada nem negada, já que “silente e vagaroso, o dia escapa em direção a/ um lugar sem princípio”, como em “Unterwegs” (A caminho):
O sol
não retorna
e não se põe
Eu
a caminho.
O longo percurso da poeta alemã engloba Inglaterra, Itália e, o mais marcante de todos, República Dominicana. Não foi tanto por escolha, mas sim por acaso, que Domin vai parar nesta ilha da América Central. Na tentativa de deixar a Europa, passa por diversos consulados, entre eles o brasileiro e o argentino, mas por uma questão financeira – estes países pediam uma quantia para o visto – não opta por nenhum deles. Sem criar obstáculos para receber estrangeiros, é a ilha centro-americana que acolhe a poeta e seu marido, Erwin Palm. A própria poeta afirmava não saber nada sobre o país, a não ser o que constava na enciclopédia inglesa. Nestes anos, ainda é Hilde Palm, nome de casada. Situada dentro de uma tradição alemã intitulada “poesia de exílio”, Hilde modifica seu sobrenome para Domin justamente por causa da ilha que a recebera. Algo parecido ao anagrama de Paul Celan, cujo sobrenome de fato era Ancel [7]. Ambos parecem, sobretudo Domin, responder à pergunta posta por outra “poeta do exílio”, Ingeborg Bachmann, em “Wie soll ich mich nennen?” (Como posso me chamar? [8]. A sua própria apresentaçao, Domin escreve em “Landen dürfen” (Permitido pousar):
Eu me nomeei
eu mesma me chamei
com o nome de uma ilhaE do nome de um domingo
desta sonhada ilha.
Colombo encontrou a ilha
num domingo de Natal.Era uma costa
para se atracar
ae pode adentrar
ali, os rouxinóis cantam no NatalNomea-te, disse alguém,
- quando voltei à Europa -
com o nome da tua ilha
E na continuação do poema de Bachmann, quem ainda questiona “Como posso me chamar sem estar em outra língua” [9], Domin insinua, em “Exil” (Exílio), dedicado ao seu pai:
A palavra agonizante
se esforça
na palavra corretamente
pronunciada
de uma língua
estrangeira.
Se “para o trágico, a arte é um enfrentamento da existência na linguagem”[10], são, pois, Domin e Maffei poetas trágicos, na incessante busca de um mundo com menos peso, “conivente com milhares de vozes/ da agonia feliz que é estar vivo”[11].
NOTAS
[1] In LINS, Vera. Poesia e Crítica: Uns e Outros. Rio de Janeiro: 7Letras, 2005.
[2] “Neues Land” (Nova Terra), de Domin.
[3] ‘Rufe Nicht” (Não chames), de Domin.
[4] “Blue, de Derek Jarman”, de Maffei.
[5] Na contra-capa do livro de estréia de Luís Maffei, A, Ferraz afirma que na poesia maffeiana “não há mística ou transcendência”.
[6] Este texto foi apresentado durante o II Simpósio de Literatura Contemporânea, na UFRJ, dia 31 de maio de 2007, e publicado no site http://www.ciencialit.letras.ufrj.br/gcanacesar/trabalhos/2simposio.html.
[7] Ancel segue a grafia romena (origem do poeta). Em alemao, grafava-se Antschel.
[8] Apud. LINS, Vera – op. Cit.
[9] Apud. LINS, Vera – op. Cit.
[10] In: LINS, Vera – op. Cit.
[11] “Ludwig von Beethoven”, de Maffei.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DOMIN, Hilde. Gesammelte Gedichte. Frankfurt am Main: S. Fischer, 1987.
LINS, Vera. Poesia e Crítica: Uns e Outros. Rio de Janeiro: 7Letras, 2005.
MAFFEI, Luís. A. Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2006.
Fernando Miranda é bolsista da Fundação Baden-Württemberg, Alemanha.
As traduções dos poemas de Hilde Domin contaram com a colaboração de Marina Almeida, bacharel em Língua e Literatura Alemã pela Universidade Federal Fluminense.
